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06/11/2026

Dezembro vende, fevereiro cobra a conta

Para o comércio e muitos serviços, dezembro é o melhor mês do ano. É também quando mais se confunde faturamento com dinheiro disponível, engano que costuma cobrar seu preço em fevereiro.

O calendário explica o descompasso. A segunda parcela do décimo terceiro vence até 20 de dezembro e as empresas que dão férias coletivas no fim do ano têm de quitá-las adiantado. Janeiro traz IPVA, IPTU e a renovação de contratos anuais, enquanto o consumo das famílias encolhe diante dos próprios boletos de início de ano. Do outro lado, boa parte das vendas de Natal foi parcelada no cartão. Uma venda em dez vezes rende a primeira parcela em janeiro e a última só no segundo semestre de 2027. O dinheiro entra em conta-gotas; as saídas chegam todas juntas.

O ambiente deste ano torna o tropeço mais caro. Segundo a Serasa Experian, o Brasil chegou a agosto com 9,3 milhões de empresas inadimplentes, o maior número da série histórica e 14,3% acima do registrado um ano antes. As dívidas negativadas somavam R$244,4 bilhões. Micro e pequenas empresas respondiam por 8,8 milhões desses CNPJs, justamente o grupo com menos reserva para atravessar um verão de receita curta.

O erro mais frequente que observo é usar o saldo bancário de dezembro como termômetro. Ele mede o que entrou, sem descontar o que já tem destino certo com fornecedores, folha e tributos. Com dinheiro sobrando, o empresário aproveita para reforçar o estoque, trocar uma máquina ou fechar aquele investimento adiado desde o meio do ano. Cada decisão, isolada, pode ser boa. Somadas, elas consomem o colchão que pagaria as despesas de janeiro e fevereiro.

Em mais de 20 anos analisando recebíveis, vejo esse roteiro se repetir com uma regularidade que impressiona. A empresa encerra o ano vendendo como nunca e, oito semanas depois, procura crédito para pagar fornecedor. Quase sempre o negócio é rentável. Faltou olhar para a data em que cada real entraria na conta.

A ferramenta para evitar isso é antiga e pouco usada: o fluxo de caixa projetado. Trata-se de uma planilha que mostra, semana a semana até março, quanto deve entrar e quanto precisa sair, incluindo impostos e parcelas de financiamento. Vale montar ao menos dois cenários, um deles com clientes atrasando pagamentos e vendas de janeiro abaixo do esperado.

Quando a projeção revela um buraco, chega a pergunta do custo. De acordo com o Banco Central, a taxa média do crédito livre para empresas estava em 24,4% ao ano em junho. A antecipação de recebíveis costuma aparecer como alternativa e pode ser uma, mas não dispensa cálculo. Uma taxa de desconto de 2% ao mês parece modesta e equivale a cerca de 27% ao ano. A comparação exige tudo na mesma base, cuidado que raramente sobrevive à pressa de janeiro.

Há uma diferença que favorece a antecipação em alguns casos. Quando a empresa vende seus recebíveis sem coobrigação, para uma securitizadora ou um FIDC, a operação deixa de ser empréstimo: o risco de o cliente não pagar passa para o comprador do título e o balanço não ganha uma dívida nova. Para quem já opera perto do limite nos bancos, isso pesa. O preço, naturalmente, embute esse risco.

Nada disso socorre uma empresa com margem negativa. Antecipar recebíveis cobre um descasamento de prazos e só. Se as contas dependem de dinheiro novo todo mês para fechar, o crédito apenas empurra a dificuldade adiante, acrescida de juros. Antes de contratar qualquer operação, vale identificar com honestidade em que ponto se está: falta temporária de caixa, necessidade de capital para crescer ou um modelo que não se paga. Cada uma pede uma resposta distinta e a última não se resolve com crédito nenhum.

Com novembro ainda pela frente, o trabalho é concreto: projetar o caixa até março, conversar com fornecedores sobre prazos enquanto a relação está boa e decidir com antecedência se e como, vai buscar recursos. Quem faz isso agora negocia com calma. Quem deixa para fevereiro aceita a taxa que estiver na mesa.

Edemar Francisco Soccal Júnior é empresário e especialista em crédito estruturado e inovação financeira, com mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro. É diretor-presidente da Thorr Securitizadora e cotista fundador do Trust FIDC, onde atua na análise de recebíveis e na estruturação de operações de crédito para empresas. Começou a carreira no setor industrial e se especializou em financiamento, antecipação de recebíveis e aquisição de direitos creditórios judiciais.

• Por: Edemar Francisco Soccal Júnior, especialista em crédito estruturado e diretor-presidente da Thorr Securitizadora.|Referências: Serasa Experian. Novo recorde: inadimplência das empresas chegou a 9,3 milhões em agosto, revela Serasa Experian. 20 de outubro de 2026. Banco Central do Brasil. Estatísticas Monetárias e de Crédito: junho de 2026. Nota para a imprensa, 30 de julho de 2026.