No final de maio de 2026, a CVM emitiu a Resolução 244 que, na prática, revogou a Resolução 193/23, responsável por colocar o Brasil na rota das normas internacionais IFRS S1 e S2 (ou IFRS S), e por estabelecer um caminho estruturado à divulgação de informações financeiras relacionadas a sustentabilidade e ao clima. Ao flexibilizar sua adoção e reduzir seu caráter obrigatório, o órgão transfere às empresas a decisão sobre avançarem ou não nessa agenda.
Ao contrário do que parece, não se trata de um passe livre para reduzir a vigilância. Quem interpreta a decisão como uma dispensa de responsabilidade está, na verdade, colocando em risco a competitividade da própria Companhia.
A falta de ação diante do reporte de riscos de sustentabilidade, incluindo climáticos, não é apenas uma escolha burocrática, mas uma decisão com potenciais consequências financeiras concretas, pavimentando o caminho para perda de valuation, fechamento de linhas de crédito e, sobretudo, para o isolamento em mercados globais que já tornaram o ESG uma condição inegociável de entrada.
Ao desobrigar o reporte, a CVM não alterou a realidade climática nem a exigência dos grandes investidores. Pelo contrário: ao transformar uma norma obrigatória em uma decisão estratégica, o órgão regulador deslocou o peso da conformidade e transparência para a mesa dos CEOs e conselhos.
Deixar de reportar sob as normas IFRS S não resguarda a empresa da materialização dos riscos físicos ou de transição inerentes à economia atual. Apenas deixa a organização sem a obrigatoriedade de diagnosticar de forma prévia e apropriada, a mitigação dos impactos financeiros que, cedo ou tarde, baterão à porta. Aí, passará a ser urgente. E, como sabemos, tudo que é jogado para debaixo do tapete, depois custa muito mais caro.
As consequências de deixar de fazer esse reporte são totalmente identificáveis e, por vezes, já mensuráveis. Empresas sem controles internos robustos e processos de asseguração rastreáveis perdem a credibilidade de mercado. Em um mundo onde o acesso a capital está cada vez mais atrelado à governança estratégica, a ausência de transparência quanto à gestão dos riscos climáticos funciona como um filtro.
Instituições financeiras que já incorporam fatores ESG e climáticos como premissas de avaliação em seus processos tendem a elevar o custo do capital ou, pior, restringir o crédito para empresas incapazes de provar sua resiliência.
A própria evolução dos riscos climáticos no Brasil reforça a importância desse diagnóstico e monitoramento continuado. O primeiro boletim do Painel El Niño 2026-2027 indica probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno até 2027, e alta chance de um evento de forte intensidade, com previsão de secas no centro-norte do país, temperaturas acima da média, aumento de incêndios florestais e impactos sobre recursos hídricos, agropecuária, energia e logística. Esses efeitos possuem reflexos financeiros diretos sobre custos operacionais, produtividade, disponibilidade de insumos, interrupções na cadeia de suprimentos e volatilidade de receitas, afetando os mais diversos setores do mercado.
Ignorar sua mensuração e não implementar gestão sobre esses riscos não eliminará o impacto; apenas reduzirá a capacidade de resposta das Companhias, ou seja, a capacidade de antecipar e mitigar o tanto que a atual realidade impactará o negócio.
O cenário internacional também deixa pouco espaço para a displicência. Com a intensificação das trocas comerciais junto a União Europeia, que somaram cerca de 100 bilhões de dólares em 2025, barreiras regulatórias estão se consolidando como grandes obstáculos. Acordos comerciais exigem aderência estrita a padrões de transparência e conformidade regulatória. Para quem almeja mercados exigentes na Ásia, Europa ou no próprio Mercosul, a negligência com as normas IFRS S não é apenas uma escolha, mas uma barreira comercial que pode excluir a empresa de cadeias produtivas globais de alto valor.
Outro fator que reforça a relevância do reporte é a regulamentação do mercado de carbono no Brasil. Com a criação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), empresas de setores regulados passarão a conviver com exigências de monitoramento, reporte e verificação de emissões, além de potenciais custos associados à precificação do carbono. Na prática, organizações que não conhecem adequadamente seus riscos climáticos, suas emissões e seus impactos financeiros estarão menos preparadas para operar em um ambiente onde o carbono passa a representar também uma variável econômica, capaz de influenciar custos, investimentos, competitividade e acesso a mercados.
Nesse contexto, a flexibilização do reporte cria uma assimetria perigosa. Empresas que optarem por não reportar poderão também optar por não desenvolver mecanismos internos de identificação, monitoramento e gestão desses riscos. O resultado é um mercado com menos transparência, investidores mais expostos a passivos não identificados e uma precificação menos eficiente dos riscos climáticos e de transição que já estão materializados ou claramente sinalizados.
Por outro lado, a continuidade do reporte, mesmo sem a obrigatoriedade, adotada por aquelas empresas mais engajadas e com uma postura estratégica voltada à transparência, prestação de contas e geração de valor no longo prazo, oferece uma real vantagem competitiva. Companhias que utilizam as normas como ferramenta de gestão antecipam ineficiências operacionais e integram riscos ESG e climáticos às decisões financeiras, fortalecendo sua posição frente a potenciais crises. O mercado não premia apenas o cumprimento da lei, ele premia a capacidade de uma organização demonstrar maturidade, governança e clareza sobre como pretende crescer em um planeta em transformação.
No fim, a flexibilização que veio com a Resolução CVM 244 não reduziu a pressão, apenas separou as empresas que entendem a estratégia de longo prazo, daquelas que focam tão somente no curto prazo. O valor real do reporte não está no preenchimento de documentos para satisfazer reguladores, mas na construção de um design interno da operação capaz de enfrentar um ambiente econômico instável e de difícil previsibilidade. Em um cenário de eventos climáticos mais intensos no mercado nacional, a ausência de reportes não elimina riscos relacionados a sustentabilidade, apenas os torna menos visíveis até que seus impactos financeiros se tornem inevitáveis. Assim, a flexibilização pode se mostrar uma armadilha às empresas que enxergam apenas uma oportunidade de economizar no curto prazo. E, cair nessa armadilha pode custar muito caro a médio e longo prazo.
• Por: Viviene Bauer, sócia líder de ESG & Sustentabilidade da BDO, Luana Castilho e Luana Favery são gerentes de ESG & Sustentabilidade da BDO.