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17/09/2026

Setembro Amarelo nas empresas: conscientização sem acolhimento é apenas marketing

Em setembro, organizações de todos os portes voltam suas atenções para a campanha Setembro Amarelo. Laços na cor amarela, palestras, comunicados internos e ações de sensibilização tornam-se frequentes. No entanto, uma pergunta fundamental continua sendo pouco feita pelas lideranças: se um trabalhador em sofrimento psíquico procurar ajuda após essa campanha, a empresa está realmente preparada para acolhê-lo?

Essa reflexão é o ponto de partida para uma discussão que precisa ultrapassar a lógica das campanhas sazonais. A prevenção ao suicídio e a promoção da saúde mental não podem ser encaradas como ações de comunicação restritas a um único mês do ano. Trata-se de um compromisso organizacional que exige estrutura, preparo técnico e responsabilidade contínua.

Existe um receio ainda presente em muitas empresas de que falar sobre suicídio possa estimular comportamentos de risco. A ciência demonstra justamente o contrário. O diálogo responsável reduz estigmas, facilita a busca por ajuda e amplia a percepção de que o sofrimento psíquico pode e deve ser tratado. O problema não está em falar sobre o tema. O problema está em abordá-lo de forma inadequada ou sem oferecer suporte real às pessoas impactadas por essa conversa.

Campanhas de conscientização sem uma rede de acolhimento estruturada podem criar uma situação delicada. Elas incentivam o colaborador a reconhecer seu sofrimento e buscar ajuda, mas, quando não há canais claros de atendimento, profissionais capacitados ou fluxos de encaminhamento definidos, a organização corre o risco de frustrar justamente aqueles que tiveram coragem de pedir apoio.

A comunicação também exige cuidados específicos. O tratamento do tema deve obedecer a princípios amplamente reconhecidos na prevenção ao suicídio. Isso inclui evitar descrições de métodos, não romantizar casos, abandonar expressões que carregam julgamento moral e sempre enfatizar que crises são transitórias, condições associadas são tratáveis e a ajuda profissional faz diferença.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o papel das lideranças. Gestores não precisam se tornar especialistas em saúde mental, mas precisam estar preparados para perceber mudanças significativas no comportamento dos membros de suas equipes. Isolamento repentino, desesperança persistente, alterações importantes de humor, aumento do consumo de álcool ou outras substâncias, mudanças bruscas nos hábitos de sono e alimentação podem sinalizar a necessidade de atenção e encaminhamento adequado.

Mais importante ainda é compreender que perguntar diretamente sobre pensamentos suicidas não aumenta o risco. Ao contrário, pode abrir um espaço seguro para que a pessoa fale sobre algo que muitas vezes vem carregando sozinha. O acolhimento responsável passa pela escuta sem julgamento e pelo acionamento imediato da rede de apoio disponível.

Contudo, concentrar esforços apenas na identificação individual dos casos é insuficiente. A saúde mental nas organizações também depende das condições de trabalho oferecidas. Carga excessiva, insegurança profissional, ambientes marcados por assédio, metas incompatíveis com a realidade e falta de previsibilidade são fatores reconhecidos de risco para o adoecimento psíquico.

Por essa razão, os programas mais efetivos atuam em três frentes complementares. A primeira é a prevenção primária, voltada para a redução dos fatores organizacionais que geram sofrimento. A segunda é a prevenção secundária, que busca identificar precocemente os sinais de adoecimento e facilitar o acesso ao suporte especializado. A terceira é a prevenção terciária, destinada ao acompanhamento de trabalhadores que já passaram por uma crise e precisam de um retorno ao trabalho seguro e estruturado.

Quando observamos os indicadores de afastamento relacionados a transtornos mentais, especialmente depressão, ansiedade e burnout, fica evidente que a saúde psicológica deixou há muito tempo de ser apenas uma questão individual. Ela impacta produtividade, absenteísmo, rotatividade, custos assistenciais e sustentabilidade dos negócios.

Por isso, a principal pergunta que as empresas deveriam se fazer neste Setembro Amarelo não é qual ação de conscientização irão promover. A questão central é outra: se um colaborador procurar ajuda amanhã, existe um caminho claro, acessível e seguro para atendê-lo?

A resposta para essa pergunta revela o grau de maturidade de uma organização em relação à saúde mental. Campanhas são importantes. Mas elas só cumprem seu papel quando representam a parte visível de uma cultura de cuidado construída durante todo o ano.

Por: Silvia Rezende, graduada em Pedagogia e Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Silvia possui especialização em Terapia Comportamental Cognitiva em saúde mental pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Ela é a coordenadora técnica da Clínica de Psicologia LARES e professora do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Silvia atua também como psicóloga colaboradora no IPQ HC FMUSP e no Programa de Psiquiatria Social e Cultural (PROSOL), um grupo do Instituto de Psiquiatria da FMUSP.