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25/06/2026

Xi Jinping quer criar a maior classe média do planeta

O título pode soar contraditório. Afinal, a China continua sendo governada por um partido comunista, mas uma das prioridades da estratégia econômica de Xi Jinping é justamente ampliar a classe média e fortalecer o consumo doméstico. Para muitos observadores ocidentais, essa combinação parece difícil de conciliar. Na prática, porém, ela reflete uma característica recorrente da trajetória chinesa: a disposição para combinar elementos que, vistos de fora, parecem incompatíveis. Não por acaso, a sinóloga Anne Cheng observa que a tradição confucionista privilegia menos verdades absolutas do que a busca por equilíbrios e dosagens.

Embora soe estranha aos nossos ouvidos, a afirmação é verdadeira. Ela se justifica pelo direcionamento adotado por Xi Jinping desde 2015 e intensificado a partir de 2025, em meio ao que parece ser uma ampla reconfiguração da ordem internacional.

O autodiagnóstico chinês é que já não se pode depender apenas do investimento para sustentar o crescimento econômico, uma vez que os retornos marginais desse modelo vêm diminuindo, como prevê a boa macroeconomia. Durante décadas, a China adotou uma estratégia de desenvolvimento baseada no estímulo ao investimento produtivo, no fortalecimento da indústria nacional e em um planejamento estatal de longo prazo, um modelo que guarda semelhanças importantes com aquele almejado pelo regime militar brasileiro.

Acontece que esse modelo, embora tenha enriquecido o país, transformou a China na “fábrica do mundo” e, consequentemente, em uma economia dependente de mercados consumidores estrangeiros, tendo em vista que o mercado interno chinês não teria condições de absorver toda a produção doméstica.

Essa situação, somada à recente desaceleração da globalização e ao aumento das tensões internacionais, tem sido interpretada pelo mandatário chinês como um sinal de que é necessária uma maior autossuficiência econômica, o que poderá ser alcançado por meio de uma mudança de foco do mercado externo para a economia doméstica, que deverá então passar a ser o eixo principal.

Xi tem identificado corretamente que a classe média é considerada a principal base do consumo e que, para isso, é necessária a ampliação da demanda doméstica como estratégia dominante para transformar o consumo interno no principal fundamento do crescimento de longo prazo.

Para se ter uma ideia da dimensão desse projeto, a classe média americana representa cerca de 51% da população dos Estados Unidos, o equivalente a aproximadamente 176 milhões de pessoas. Se a China alcançasse a mesma proporção, teria cerca de 717 milhões de indivíduos na classe média. Mesmo que atingisse apenas metade desse contingente, seriam cerca de 359 milhões de pessoas, mais do que toda a população americana. Em outras palavras, trata-se da possível formação do maior mercado consumidor de classe média da história.

Em termos práticos, para investidores, empresas e formuladores de políticas públicas, compreender essa mudança de foco vai muito além da simples curiosidade. Trata-se de observar como a segunda maior economia do mundo está redesenhando sua estratégia de crescimento e, com isso, moldando mercados, cadeias produtivas e oportunidades de negócios que poderão marcar as nossas próximas décadas.

Por: Allan Gallo, professor de Economia e Direito da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), pesquisador do Centro Mackenzie de Liberdade Econômica (CMLE) e coordenador do Núcleo de Estudos sobre a China (NECH). | *O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie. | A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) foi eleita como a melhor instituição de educação privada do Estado de São Paulo em 2025, de acordo com o Ranking Universitário Folha 2025 (RUF). Segundo o ranking QS Latin America & The Caribbean Ranking, o Guia da Faculdade Quero Educação e Estadão, é também reconhecida entre as melhores instituições de ensino da América do Sul. Com mais de 70 anos, a UPM possui três campi no estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pela UPM contemplam Graduação, Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.