André Namitala investiga memória, tempo e identidade em uma coleção que transforma a roupa em arquivo vivo.
Registros Akáshicos são conhecidos como um campo de memória universal, onde experiências e imagens se acumulam e atravessam o tempo. São registros que habitam o consciente e o inconsciente, como uma grande biblioteca onírica. Para o Inverno 2026, André Namitala traduz essa ideia em uma coleção que se constrói a partir de um repertório íntimo, surgido através de práticas de meditação guiadas com olhos vendados, acompanhadas de música clássica.
Ao invés de uma apresentação unicamente mística sobre o tema, André traduz os seus registros akáshicos em linguagem material e precisa: camadas, cores densas e estruturas que revelam o tempo como elemento ativo na construção das peças.
Há também uma aproximação com o barroco, em sua tensão entre luz e sombra, excesso e contenção. Como numa ópera brasileira, a música orquestra o contraste com dramaticidade e sinuosidade. Esse diálogo com a ópera se materializa na apresentação ao vivo da Companhia de Ópera da Lapa durante o desfile, regidos pelo maestro do Theatro Municipal.
A paleta de cores segue a narrativa profunda da coleção em um percurso de marrons densos, verdes, pontos de rosa, preto e cobre. Desenhos granulados, corroídos pelo tempo, remontam a afrescos. Referências a tetos lúdicos, cúpulas e abóbadas decoradas, pintadas e envelhecidas são reinterpretadas em intervenções manuais. Símbolos místicos e elementos de diferentes matrizes culturais se entrelaçam como parte de um imaginário coletivo. São imagens que atravessam as eras e reaparecem descobertas como bordados, estampas e cerâmicas pintadas à mão no grande campo manual da marca.
Os materiais reforçam essa ideia de continuidade: couro, tafetás, gazares, shantungs, lã, veludo e algodão compõem a base da coleção. Entre os destaques, aparecem peças em couro com bordados em matelassê, vestidos em crepe com intervenções em veludo de seda e construções em shantung que misturam plissado, pesponto e bordado manual. O trabalho artesanal também se evidencia em aplicações desenvolvidas em parceria com o ateliê SSSopro, no interior do Rio de Janeiro, responsável por elementos em cerâmica incorporados às peças.
Em Akáshica, a Handred aprofunda sua investigação sobre a roupa como construção de sentido. O mistério está nos planos a serem revelados, não na superfície. Vestir, aqui, ultrapassa o gesto estético e se torna um ato de reconhecimento: uma forma de acessar, no presente, as camadas invisíveis que nos constituem. | Vídeo do desfile: https://shre.ink/L2jP