É bom estar de volta, nos vemos no Rio, declara.
Se na coleção anterior Patricia Viera revisitava suas origens, tendo Londres como ponto de partida, nesta temporada o olhar se desloca para o Rio de Janeiro. Desde 2025, a direção criativa é compartilhada com sua filha Andrea Viera Baptista.
Aos 94 anos, Vera de Magalhães, mãe de Patricia Viera e grande matriarca dessa história, é a homenageada da coleção, reforçando assim o elo entre as gerações.
A coleção reafirma a relação contínua com o couro que define sua linguagem estética. Ao mesmo tempo, expande esse universo ao incorporar referências plurais da cidade, estabelecendo um diálogo entre tradição e novas leituras.
O Rio de Janeiro surge não apenas como cenário, é traduzido em mosaicos, paisagens, cores e símbolos icônicos, como a Igreja da Penha e os desenhos de Roberto Burle Marx.
Embora seja uma coleção de inverno, o desfile revela uma energia solar, urbana e leve, refletindo o estilo de vida carioca. Essa dualidade se materializa em uma construção rica em técnicas e materiais, bordados, rendas, crochê e trabalhos em laser, criando um verdadeiro patchwork de processos e texturas.
A cartela de cores reforça, com referências à cultura local, incluindo uma homenagem sutil à Estação Primeira de Mangueira, através de tons de verde e rosa, além de uma leitura contemporânea que equilibra brilho, festa e casualidade.
De diferentes regiões do Brasil, artistas e marcas colaboram para essa construção coletiva.
Bordados em renda que ultrapassam 300 horas de execução vieram de Minas Gerais, assinados pela marca Vivaz, uma casa que, assim como Patricia Viera, carrega a força de uma herança feminina, passada de mãe para filhas.

A artista plástica Klaucia Badaró, formada pela Escola de Belas Artes de Minas Gerais, pinta manualmente sobre o couro paisagens cariocas como as Ilhas Cagarras e a Igreja da Penha, bairro onde Patricia Viera trabalhou por mais de 30 anos e mantém uma relação afetiva profunda.
Giovana Viera, irmã de Patrícia, imprime à coleção um olhar íntimo e sensível, trazendo uma dimensão mais pessoal e autoral ao desfile.
No Rio de Janeiro, os bordados sobre tule com canutilhos feitos em couro, são desenvolvidos pelo artista Alexandre Mattos.
Sob o comando de Edilaine Silva, dez bordadeiras finalizam as peças de couro com textura de croco com bordados manuais.
Os artistas Natalia Reys e John Reys, mosaicistas, radicados no Rio de Janeiro, desenvolvem trabalhos a partir de uma abordagem coletiva. Integrantes do coletivo Cosmonauta, trazem para a coleção uma pesquisa que dialoga com a linguagem dos murais e dos mosaicos urbanos, traduzindo paisagens em superfícies construídas a partir de fragmentos de couro.
Os trabalhos se conectam diretamente ao projeto Zero Waste da marca — iniciativa que, desde 2017, transforma resíduos da produção em novas superfícies — reinterpretando o Rio de Janeiro com precisão artesanal e uma lógica construtiva que aproxima moda e arte.
A coleção incorpora também a interferência urbana do artista Bruno Bogossian, integrante do coletivo Fleshback Crew, referência na cena do grafite de rua, trazendo o gesto espontâneo da rua para o rigor técnico do couro.
A apresentação se expande também no campo audiovisual, com um filme assinado pelo fotógrafo Ari Kayne, com edição de Pedro Magalhães. Seu olhar captura o Rio de Janeiro a partir de uma perspectiva sensível e autoral, ampliando a atmosfera do desfile e aprofundando a construção imagética da coleção.

A coleção também conta com a colaboração da marca de calçados Marcela B. Esta é a terceira colaboração em passarela entre as criadoras, que mantêm uma relação profissional de longa data. Desenvolvidos exclusivamente com os couros produzidos por Patricia, os calçados estabelecem uma continuidade material e estética com a coleção, reforçando o diálogo entre as peças apresentadas. A proposta inclui dois modelos: uma sandália de salto alto com meia-pata, lançada recentemente na coleção de inverno da Marcela B, e uma flat form no estilo Mary Jane, ambos reinterpretados a partir das texturas e acabamentos característicos da marca.
Nos acessórios, a Gutê — marca catarinense criada pelas irmãs Natalia e Fernanda, desenvolve peças statement em couro, reconhecidas pelo design autoral, leve e ousado. Com sete anos de trajetória, a marca se destaca pela excelência artesanal e presença em produções de moda relevantes no cenário nacional. Para o desfile, foram criados brincos e braceletes a partir dos couros selecionados por Patricia, estabelecendo um diálogo direto entre as marcas e reforçando a afinidade no trabalho com o material.
—Nesta coleção, a beleza de Patricia Viera é sobre a essência. Deixamos os cabelos mais soltos e naturais para celebrar a individualidade e a beleza real. A verdadeira elegância mora na confiança, e um cabelo com movimento natural, que simplesmente é, transmite essa mensagem de forma poderosa. É uma beleza que não precisa de artifícios, ela apenas existe— comenta Daniel Hernandez, beauty artist, parceiro de Sebastian Professional.
É bom estar de volta, nos vemos no Rio. | Vídeo do desfile: https://shre.ink/L23K