paulo-ferreira

07/11/2026

O nióbio é quase todo brasileiro: a tecnologia feita com ele, nem tanto

Poucos minerais têm endereço tão bem definido quanto o nióbio. Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil respondeu por cerca de 93% da produção mundial em 2024, extraída sobretudo em Minas Gerais e Goiás. Seria razoável supor que um país nessa posição também liderasse as tecnologias que dependem do metal. Não é o que acontece. Quase metade das exportações brasileiras naquele ano seguiu para a China e muito do que se fabrica de mais sofisticado com o elemento, de turbinas de avião a aparelhos de ressonância magnética, sai de indústrias estrangeiras.

O nióbio é daqueles ingredientes que fazem muito com pouco. Adicionado ao aço em proporções que costumam ficar abaixo de 0,1%, aumenta a resistência mecânica e permite estruturas mais leves e duráveis, o que interessa diretamente à construção civil, à indústria automotiva e aos gasodutos. Em superligas, suporta o calor extremo das turbinas. Em ligas supercondutoras, é peça central dos ímãs de ressonância e dos aceleradores de partículas.

Boa parte do que o Brasil vende, porém, ainda chega ao comprador numa forma relativamente simples. De acordo com a revista Pesquisa FAPESP, entre 80% e 90% dos produtos comercializados pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM), líder global do setor, são à base de ferronióbio, liga de ferro e nióbio destinada principalmente à siderurgia. Trata-se de um beneficiamento relevante, conquistado com décadas de investimento, mas que deixa de fora um universo de aplicações baseadas em outras formas químicas, composições e estruturas do elemento.

A própria CBMM já se movimenta nessa direção. Em novembro de 2024, a empresa inaugurou em Araxá, em parceria com a britânica Echion Technologies, a maior fábrica do mundo de material para ânodos de baterias de íons de lítio à base de nióbio, com capacidade para 2 mil toneladas anuais. O material permite recargas ultrarrápidas, algo valioso para veículos elétricos pesados e sistemas de armazenamento de energia. Há, contudo, um detalhe revelador: a tecnologia empregada ali pertence à Echion. O minério e a planta são brasileiros, a propriedade intelectual não. A companhia mineira também fixou a meta de obter 30% da receita com produtos fora da siderurgia até 2030. Se até a maior produtora do planeta busca faturamento longe do aço, fica difícil defender que o país se contente com a liga.

Universidades e empresas de base tecnológica vêm abrindo outras frentes. Reportagem da Pesquisa FAPESP publicada em fevereiro de 2025 reuniu iniciativas que empregam nióbio em baterias, cosméticos, fungicidas e catalisadores. Uma delas é um ingrediente para produtos dermatológicos desenvolvido com nanotecnologia patenteada por uma empresa nascida na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). São projetos ainda modestos diante do volume exportado, mas provam que o conhecimento para ir além já existe dentro do país.

O que separa uma tonelada de minério de um produto de alto desempenho é, essencialmente, engenharia de materiais. Controlar composição, tamanho de partícula, estrutura cristalina e a forma como o elemento reage na presença de outros componentes é o que decide se ele será vendido por tonelada ou por grama.

Conheço esse trabalho de perto. Há mais de dez anos pesquiso vidros bioativos e nanopartículas, investigando como pequenas mudanças de composição e estrutura alteram o comportamento de um material dentro do organismo. Na área de biomateriais, aliás, o nióbio já desperta interesse: compostos à base do elemento aparecem em estudos com vidros bioativos e em ligas metálicas para implantes. A lição que levo desse campo vale para o setor mineral como um todo. Dominar a extração é só o começo. O valor está em saber processar, combinar e validar o material até que ele cumpra uma exigência técnica precisa e isso raramente acontece sem uma ponte sólida entre o laboratório e a indústria.

Essa ponte ainda é frágil no Brasil. Desenvolver novos materiais exige laboratórios bem equipados, caracterização avançada, plantas-piloto para escalonar processos e equipes que reúnam química, física e engenharia. Exige, acima de tudo, que alguém financie a pesquisa na fase mais arriscada, quando o resultado já funciona em bancada mas ainda não convenceu nenhum comprador. É nesse intervalo que muitos projetos promissores param, por falta de recursos para validação tecnológica ou de um parceiro industrial disposto a apostar.

O diagnóstico não é isolado. A Agência Nacional de Mineração (ANM), ao tratar do potencial brasileiro em minerais críticos e estratégicos, defende avançar nas etapas de maior valor agregado, como processamento e refino. Já o estudo Critical and Strategic Minerals in Brazil, publicado pelo Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) em 2025, aponta oportunidades em materiais nanocristalinos, chapas e componentes para baterias e veículos. No caso do nióbio, o país já conta com uma cadeia de beneficiamento consolidada, que inclui ferronióbio, óxidos e ligas de alta pureza. Falta dar o passo seguinte e converter esse domínio em produtos, patentes e empresas.

Num momento em que Estados Unidos, Europa e China disputam o acesso a minerais críticos, ter o nióbio no subsolo é uma vantagem rara. Só que ela se desgasta se ficar restrita à mina. A pergunta que importa para os próximos anos é quanto conhecimento o Brasil vai conseguir agregar a cada quilo que sai de Araxá e Catalão. O subsolo já fez a parte dele. O resto depende de ciência, de indústria e de decisão.

• Por: Paulo Ferreira, engenheiro e especialista em gestão de produtos bioativos e doutor pela Unicamp, com parte dos estudos realizada na University of Florida, nos Estados Unidos. Pesquisa vidros bioativos e nanopartículas há mais de uma década e soma 31 artigos científicos e cinco pedidos de patente, um deles já concedido. Em 2021, foi reconhecido com o Prêmio Inventores da Agência de Inovação da Unicamp. Na Livitah Life Sciences, é um dos responsáveis pelo desenvolvimento do nanobiovidro. Referências: United States Geological Survey (USGS). Mineral Commodity Summaries 2025 – Niobium. 2025; Pesquisa Fapesp. Centros de pesquisa e empresas do país ampliam o campo de aplicações do nióbio. Edição 348, fevereiro de 2025; Agência Nacional De Mineração (ANM). Minerais Críticos e Estratégicos; Instituto Brasileiro De Mineração (Ibram). Critical and Strategic Minerals in Brazil: A Passport to the Future. Brasília, 2025.