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28/10/2026

Circuit Breaker, comentam economistas

—Lula reeleito para o seu quarto mandato e o circuit breaker já aconteceu. O dólar com forte subida sobre o real lá fora, aproximadamente, enquanto a EWZ cai 26%. Acho que se panicar nesse momento ou querer tempestivamente procurar oportunidades de uma faca caindo é sempre perigoso. Então é um buy opportunity com essa queda de hoje ou é o fim do Brasil e é para vender tudo para comprar dólar e shortear a bolsa? Eu acho que a virtude está no meio. Não acho que seja um buy opportunity porque o país sai muito mal dessa eleição, conflagrado do ponto de vista institucional e social, com risco enorme de recessão. A gente vai ter que ajustar o fiscal, não vai ter jeito, se não ajustar vai ser pior, porque a gente vai entrar em dominância fiscal. Há um choque ruim de expectativas, todo mundo trava os investimentos, e a chance de uma recessão com esse comprometimento de dívida das famílias e das empresas é não desprezível.

O país sai ainda mais polarizado, e você perde uma narrativa de um eventual ciclo de Brasil que vinha se construindo, de reversão do choque das expectativas, do câmbio se apreciando, do juro caindo e os empresários voltando, uma postura mais pro mercado, reformista, fiscalista, isso sai do preço. Nós conhecemos aqui o modelo petista de governar, o modo pé na tábua de gastos, concede crédito, tudo se resolve a partir de entregar dinheiro para a população. Isso é muito um foco excessivo na demanda agregada, sem atacar nos planos de produtividade, sem atacar nos planos fiscais. Você deve ter aí uma combinação de mais inflação e mais déficit em conta corrente, enquanto fica dando estímulos de demanda. Juros também que deveriam cair, não devem cair tanto. Na nossa consultoria, a gente recomendou na semana passada para clientes que estavam com muita exposição em Bolsa comprar puts, comprar posições, operações vendidas para aqueles que tinham posição grande em Bolsa, para eventualmente protegê-las. Há muito tempo que eu defendo uma posição de 30% no exterior. Você sair vendendo agora, já vai abrir com um gap de baixa muito significativo. Se você for cair alguma coisa em Ibovespa 15,20%, você joga o Ibovespa, tirando o Petrobras e Vale, abaixo de 8x lucro. Em sendo isso, você está muito próximo do que seria um piso histórico de valuation. Você já vai estar em uma faixa que é considerada barata. Então você estaria vendendo ações a um preço barato.

Com essa alta do dólar, o risco percebido aumenta. Os governos param de panicar quando os mercados panicam. O governo pode entender esse recado, não quer começar já com essa recessão contratada. O discurso do Lula enaltece muito o Alckmin, cita os empresários. Então você tem algum entendimento do recado das urnas. Um Congresso muito à direita, uma sociedade conflagrada, uma tentativa de moderação. Alckmin me parece que sai fortalecido, poderia até ser um nome para a Fazenda. Não vai ser, obviamente, um ajuste fiscal da intensidade e da velocidade que deveria, mas poderia vir em certas doses homeopáticas, um ajuste de longo prazo, que pelo menos evitaria uma catástrofe. Aumenta o risco de repressão financeira, ou seja, a transferência de valor do credor para o devedor. O juro acaba sendo mais baixo do que ele deveria. Nesse cenário é ruim você ter renda fixa, é melhor você ter ativos reais. Você precisa ter uma posição de 30% no exterior, pós-fixado, exportadoras, seguradoras, empresas de baixa renda que andam bem nessa história. E eu teria sim uma posição em Bolsa, até para nos protegermos do risco de repressão financeira e também porque tem muito alfa nesses cenários ruins. O que eu evitaria é o beta, ou seja, aquele cara que anda porque o mercado andou. O Brasil tem muito alfa, até porque não tem beta. O dinheiro migra para os detentores do capital na crise e para aqueles que têm vantagens comparativas clássicas. Uma carteira que tenha 30% lá fora, pós-fixado, exportadoras, seguradoras, empresas de baixa renda que andam bem nessa história, eu acho que atravessa bem esse cenário. Paciência, disciplina e diversificação fazem a diferença—comenta Felipe Miranda, ex-CEO da Empiricus.

— O circuit breaker de hoje reflete uma mudança abrupta nas expectativas do mercado. Nas últimas semanas, os investidores passaram a precificar uma vitória de Flávio Bolsonaro e a expectativa de uma política fiscal mais restritiva, o que impulsionou a Bolsa e o real. A reeleição de Lula contrariou esse cenário, provocando uma rápida reversão dessas posições.

A preocupação com a trajetória da dívida pública e a sustentabilidade fiscal do país pressionou o câmbio e os juros futuros, levando a uma forte desvalorização das ações. A intensidade desse movimento levou o Ibovespa a atingir o limite de queda de 10%, acionando o circuit breaker.

Devemos seguir com volatilidade alta no curto prazo. A estabilização do mercado dependerá principalmente dos sinais do governo sobre a composição da equipe econômica e a apresentação de medidas concretas para estabilizar a dívida pública e recuperar a confiança dos investidores—indica Igor Monteiro, CEO da EqSeed.

—O dia foi marcado por forte estresse e volatilidade nos mercados financeiros. Com a virada do presidente em exercício no segundo turno, os ativos reagiram negativamente, refletindo o aumento da cautela e da aversão ao risco por parte dos investidores.

No mercado de câmbio, o dólar abriu cotado a R$ 5,6050, com valorização de aproximadamente 12%. Ao longo da manhã, a moeda apresentou acomodação e recuou para a faixa de R$ 5,43, ainda com alta de cerca de 8,8% em relação ao fechamento da sexta-feira, de R$ 5,00.

Na Bolsa, a intensidade das perdas levou ao acionamento do circuit breaker logo na abertura, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando a queda do índice atinge 10%. A última utilização havia ocorrido em 2020, durante a pandemia. Após a retomada das negociações, o mercado acionário chegou a registrar queda de 14,45%, com os papéis dos bancos entre os mais penalizados.

A reação dos mercados está associada, principalmente, às preocupações dos investidores com a condução da política econômica e o equilíbrio fiscal. A percepção de maior risco fiscal pode pressionar os prêmios de risco, elevar as expectativas de inflação e reforçar a perspectiva de juros mais altos. Esse movimento já se refletiu no mercado de juros futuros, especialmente nos vencimentos de longo prazo.

O comportamento dos próximos dias dependerá da sinalização do governo em relação à responsabilidade fiscal, à previsibilidade da política econômica e às medidas que serão adotadas para preservar a confiança dos investidores— aponta João Oliveira, Head da mesa de operações do Banco Moneycorp.

— O principal fator por trás desse movimento é o ajuste de expectativas. Parte relevante do mercado vinha precificando uma vitória da oposição e uma mudança na condução econômica, sobretudo na política fiscal. Com a continuidade do atual governo, vejo uma revisão dessas premissas, levando os investidores a exigir um prêmio de risco maior e provocando uma correção abrupta nos preços dos ativos, que culminou no circuit breaker na Faria Lima.

Acredito que, daqui para frente, o foco deve estar nos sinais concretos sobre a trajetória das contas públicas. No mercado de crédito, a pressão sobre os juros pode encarecer o refinanciamento das empresas. Nesse cenário, considero fundamental manter uma postura seletiva, preservar a liquidez e redobrar a atenção à capacidade de pagamento dos devedores — afirma Willian Andrade, CIO da Kaya Asset.