Trabalho na concessão de crédito, e há um descompasso neste ano que me parece mal compreendido no debate público. O Comitê de Política Monetária cortou a Selic quatro vezes em 2026, de 15% para 14% ao ano. No mesmo intervalo, segundo as Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central, a taxa média do crédito livre subiu de 46,1% ao ano em junho de 2025 para 49,8% em junho de 2026. Para as pessoas físicas, foi a 64%.
A leitura automática desse descompasso é que os bancos não repassam. Acho essa leitura confortável e incompleta – e, pior, acho que ela atrapalha quem quer de fato crédito mais barato no Brasil, porque aponta para a alavanca errada.
O que o spread está dizendo — Há um detalhe nos números de junho que raramente é comentado e que, na minha opinião, desmonta a explicação simples. O spread médio do crédito livre fechou em 35,8 pontos percentuais. Mas, dentro desse agregado, o spread às pessoas físicas subiu de 48,8 para 49,6 pontos enquanto o das empresas caiu de 11,8 para 11,1. A taxa média às empresas recuou de 24,9% para 24,4% ao ano; a das famílias avançou de 62,8% para 64%.
Mesma economia. Mesma Selic. Em boa medida, as mesmas instituições. Se spread fosse apenas margem, ele não cairia em um segmento enquanto sobe no outro, no mesmo mês. O que explica a divergência é a variável que o debate costuma deixar de fora: perda esperada.
Spread é o preço de carregar um risco. Ele comporta custo de captação, tributo, compulsório, despesa administrativa e custo de capital – e, acima de tudo, a estimativa de quanto daquela carteira não voltará. Quando essa estimativa sobe, o preço sobe junto, faça o que fizer a taxa básica. Em julho, a inadimplência do sistema financeiro nacional chegou a 4,9%, o maior nível desde que o Banco Central iniciou a série, em março de 2011. Entre as famílias, a 5,8%.
Diante disso, esperar que um ponto a menos na Selic barateie o crédito ao tomador é esperar que a parcela menor da conta compense a maior.
Por que a diferença entre empresas e famílias importa — O movimento divergente entre os dois segmentos diz, a meu ver, onde a informação está funcionando – e essa é a parte que me interessa profissionalmente.
O crédito a empresas opera com garantia real mais frequente, ticket que justifica análise individualizada, recebível registrado em registradora autorizada e informação cadastral estruturada. O crédito às famílias opera em escala, com decisão automatizada e menos elementos verificáveis por operação. Quando o ambiente deteriora, o segmento que tem mais informação consegue separar bom e mau pagador. O que tem menos precifica todo mundo pela média – e a média piorou.
É assim que crédito encarece num ciclo de aperto. Não por ganância uniforme, mas por incapacidade de distinguir. Todo tomador saudável dentro de uma carteira mal observada paga pelo que o credor não enxerga nos outros. Essa frase vale como diagnóstico e como autocrítica do setor em que eu trabalho.
O que eu acho que muda o custo do crédito — Se o preço é função de perda esperada, barateá-lo exige reduzir perda. E reduzir perda, em crédito, é trabalho de informação muito antes de ser trabalho de cobrança.
O primeiro ponto é observar o tomador ao longo da operação, e não só na aprovação. O desenho predominante no mercado brasileiro produz pouquíssimos momentos de contato entre a assinatura e o vencimento, e trata a inadimplência como primeiro sinal quando ela é o último. Carteira acompanhada não fica apenas mais segura: fica mais barata, porque a perda esperada que entra no preço é menor.
O segundo é usar o que já existe. Compartilhamento de dados bancários, registros de crédito do Banco Central, registro eletrônico de recebíveis: são bases reguladas, acessíveis mediante autorização e finalidade definidas, e usadas na maior parte das operações de forma isolada – uma na análise, outra na aprovação, outra na fiscalização. Três sinais potentes transformados em três fotografias que não conversam.
O terceiro é medir a própria decisão. Poucas instituições acompanham o desempenho da carteira por safra de originação – tudo o que foi concedido em um mesmo mês, seguido pelo ciclo inteiro. Sem esse número não há como saber se a política de crédito melhorou ou piorou, e sem saber isso não existe redução estrutural de perda, apenas oscilação.
A objeção que eu reconheço — Alguém dirá que acompanhamento contínuo custa caro, que em ticket pequeno não se paga, que gera alarme falso e atrito com cliente que não gosta de ser questionado. Tudo verdade, e é por isso que não se faz.
Mas a conta precisa ser feita contra a alternativa certa. Hoje o custo de não acompanhar não aparece como despesa de monitoramento: aparece como perda, e depois como spread cobrado de quem está pagando em dia. Ele não desapareceu – mudou de rubrica e trocou de pagador.
Onde isso vai dar — Se a projeção do Boletim Focus se confirmar e a Selic fechar 2026 em 13,75%, o alívio chegará primeiro às operações de menor risco. Nas modalidades mais sensíveis à inadimplência, o repasse será lento enquanto a perda esperada não ceder – e nenhuma pressão política muda isso de forma sustentada. Dá para comprimir spread por imposição, e o resultado conhecido é menos oferta para quem é percebido como arriscado, não crédito mais barato para ele.
Minha convicção, depois de alguns anos olhando carteira, é que a vantagem competitiva no crédito brasileiro parou de estar na captação. Em um mercado onde o custo do dinheiro é parecido para todos os participantes relevantes, quem estimar perda com mais precisão vai conseguir cobrar menos do bom pagador sem aumentar exposição ao ruim. Essa diferença não aparece no custo de funding. Aparece na qualidade da informação que cada instituição tem sobre quem já está dentro da sua carteira.
A Selic vai continuar caindo ou não conforme a inflação permitir. O custo do crédito responde a outra pergunta – e ela não é decidida em Brasília.
• Por: Davi Pereira Vidoto, executivo do setor financeiro, especialista em gestão de crédito e risco, Diretor de Operações da Sinc Finance.