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24/10/2026

Reforma Tributária e IA: a confiança será o diferencial dos pagamentos

O ecossistema brasileiro de pagamentos atravessa uma transformação que vai além da digitalização das transações. A Reforma Tributária, o avanço da inteligência artificial (IA), a tokenização de ativos e os novos modelos de serviços financeiros estão redesenhando processos, responsabilidades e demandas de governança, em meio a importantes mudanças regulatórias. O desafio é incorporar essas mudanças sem comprometer a segurança, a eficiência e a confiança que sustentam o mercado.

O cenário econômico reforça a importância dessa adaptação. Em 22 de outubro de 2026, a Pesquisa Especial de Crédito da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) estimou crescimento de 0,3% no saldo total do crédito em setembro e desaceleração da alta acumulada em 12 meses, de 9,2% para 8,3%. São projeções preliminares, cuja confirmação depende dos dados oficiais do Banco Central. A entidade também apontou deterioração adicional na qualidade do crédito das famílias, indicando um ambiente que exige atenção à gestão de riscos e à sustentabilidade das operações financeiras.

Os dados oficiais do Banco Central disponíveis até 22 de outubro, referentes a agosto de 2026, mostram que a inadimplência do crédito livre às famílias chegou a 8,0%, enquanto a taxa média de juros dessa modalidade alcançou 61,7% ao ano. O endividamento das famílias atingiu 49,9% da renda disponível em julho. Nesse ambiente, as inovações em crédito e pagamentos precisam caminhar ao lado de controles adequados, análise de riscos e proteção dos consumidores.

Reforma Tributária: integrar tributos, documentos e pagamentos — A implementação da Reforma Tributária representa um dos principais desafios operacionais para o setor. Entre os mecanismos previstos está o split payment, que segregará e recolherá os valores de IBS e CBS na liquidação financeira das operações abrangidas, conforme a legislação e as etapas de implementação.

A passagem dos testes à operação em escala exigirá integração entre sistemas de pagamento, documentos fiscais e fluxos financeiros. Instituições financeiras, prestadores de serviços de pagamento, empresas de tecnologia e varejistas precisarão adaptar processos para assegurar a compatibilidade das informações fiscais e financeiras, rastreabilidade e conformidade regulatória.

Embora essa transição demande investimentos e revisão de procedimentos, também pode abrir espaço para automatizar processos e reduzir inconsistências. A competitividade dependerá da capacidade de atender às novas regras sem aumentar desnecessariamente a complexidade ou comprometer a experiência de empresas e consumidores.

Inteligência artificial: autonomia exige responsabilidade — A inteligência artificial amplia as possibilidades de prevenção a fraudes, análise de riscos e automação de processos. Nos pagamentos agênticos, sistemas de IA podem iniciar ou executar etapas de uma transação dentro de autorizações e parâmetros definidos. Essa autonomia demanda controles verificáveis de identidade, consentimento, limites de atuação, rastreabilidade e responsabilização. A confiança precisa fazer parte do desenvolvimento das soluções desde o início. Isso envolve proteção de dados, monitoramento de comportamentos atípicos e mecanismos de supervisão capazes de identificar e corrigir irregularidades.

O propósito não deve ser adotar tecnologia para acompanhar tendências, mas resolver problemas concretos, com ganhos verificáveis de eficiência, segurança e qualidade dos serviços. A tokenização de ativos, as stablecoins e o Banking as a Service (BaaS) também ampliam as possibilidades do mercado financeiro. Essas soluções podem criar novos modelos de transferência, liquidação e oferta de serviços, mas exigem responsabilidades bem definidas, controles operacionais e conformidade com as normas aplicáveis.

Investir é necessário, mas não é suficiente — A Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2026, realizada pela Deloitte, projetou em R$ 50,4 bilhões o orçamento dos bancos brasileiros para tecnologia em 2026, alta de 8% em relação a 2025. O levantamento também apontou que 83% das transações bancárias ocorreram por canais digitais em 2025, sendo 78% realizadas pelo celular. Os números ilustram a escala da digitalização bancária, mas multiplicar canais e volumes não garante, por si só, operações mais seguras ou eficientes. Os resultados dependem da integração entre sistemas, da capacitação das equipes e da capacidade de antecipar riscos.

Reforma Tributária, inteligência artificial e ativos digitais não podem ser tratados como iniciativas isoladas: exigem uma agenda comum de interoperabilidade, segurança e conformidade. A modernização do setor não se encerra com a implantação de uma solução ou a adequação a uma norma: é um processo contínuo, que demanda investimento e capacidade de adaptação. A medida do progresso não será apenas a velocidade de adoção das novidades, mas a capacidade de transformá-las em pagamentos mais simples, eficientes e seguros. Sem confiança, inovação não se converte em valor duradouro para empresas e consumidores.

• Por: Ernesto Haikewitsch, diretor executivo de Marketing, Produtos e Serviços da Associação Brasileira do Ecossistema de Pagamentos(Pagos).