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24/10/2026

“India” — O Calendário Pirelli 2027, apresentado em Nova Delhi

Fotografado por Sølve Sundsbø, Raghu Rai e Avani Rai tem um olhar profundo para as diversidades. Um visão apurada difícil de resumir em 12 imagens um país com mais de 1,4 bilhão de pessoas, dezenas de línguas e centenas de cores. Mas a síntese deu um resultado que coube em duas folhinas nesta edição.

Nova Delhi — O Calendário Pirelli 2027, com a Índia como protagonista, foi apresentado hoje em Nova Delhi. Para retratar um país moldado por tradições milenares e por um forte impulso em direção ao futuro, o projeto — agora em sua 53ª edição — reúne, pela primeira vez em sua história, três fotógrafos que oferecem diferentes perspectivas sobre o país.

A visão do fotógrafo norueguês Sølve Sundsbø, que também fotografou a edição de 2026, se une à de Raghu Rai, o mestre da fotografia indiana que faleceu em abril de 2026, e à de sua filha, a também indicana Avani Rai, que assumiu o legado do pai e deu continuidade ao projeto após sua morte. O resultado é um diálogo que conta uma história de pessoas e lugares, beleza, memória e o presente.

— Feche os olhos e pense na Índia. O que você vê? Talvez uma cor, um rosto, uma rua movimentada, uma paisagem, um ritual. Mas a Índia nunca é uma única coisa. É um país em que diferentes tempos, tradições e realidades coexistem, onde o antigo e o contemporâneo aparecem na mesma imagem —afirma Sølve Sundsbø. —Não achei que eu poderia tentar representar a Índia em toda a sua complexidade. Eu não tinha o direito de fazer isso. Deixei para Raghu e Avani Rai a tarefa de capturar a essência mais profunda do país. Optei, em vez disso, por focar em retratos de mulheres indianas extraordinárias, brincando com as texturas das roupas, com as cores e os contrastes— complementa.

Raghu Rai fotografou a Índia de 1965 em diante, documentando sua vida pública e privada por mais de sessenta anos. Para o Calendário Pirelli 2027, ele havia decidido combinar imagens de seu próprio arquivo com faces da Índia contemporânea. Rai trabalhou no projeto até sua morte em abril de 2026; depois, sua filha Avani decidiu continuar seu trabalho, seguindo uma abordagem profundamente pessoal. Ela retirou do estúdio as fotografias de arquivo de Raghu, tanto as publicadas quanto as inéditas, e as colocou de volta nas ruas de Delhi e Mumbai, ao lado das pessoas que vivem nesses lugares hoje. Assim, pessoas, arquitetura, movimento, luz e rituais entram na fotografia, onde as cidades se tornam uma presença viva dentro das imagens.

—Meu pai pertencia à rua. É por isso que peguei a ideia em que ele estava trabalhando e a levei de volta às ruas, em meio às pessoas que ele fotografou durante a vida toda —afirma Avani. —Dei um passo para trás, espiritualmente e literalmente. Eu fico por trás dele— explica. Avani selecionou fotografias tiradas por Raghu muitos anos atrás e voltou para alguns dos lugares onde elas haviam sido tiradas, posicionando-se em um ângulo diferente do ponto de vista original de seu pai e fotografando, ao mesmo tempo, a imagem de Raghu e o espaço que a envolve atualmente.

A fotografia original permanece intacta, mas se torna parte de uma composição mais ampla em que diferentes tempos e realidades coexistem. —O passado sempre continuará a existir no presente— afirma Avani. —Ele está em tudo, nas nuances—complementa.

Sundsbø retratou nove mulheres com laços com a Índia, entre o Forte Jaigarh, em Jaipur, e Ajabgarh, no Rajastão. —Para mim, a chave para o Calendário são as pessoas— ele afirma. —Queríamos retratar uma variedade de personagens: há os poetas, músicos, arquitetos, modelos e atrizes—. O elenco inclui as atrizes Aditi Rao Hydari e Avantika Vandanapu; a atriz e produtora Freida Pinto; a musicista e compositora Anoushka Shankar; a poetisa e performer Rupi Kaur; as modelos Lakshmi Menon e Bhavitha Mandava; a atriz, produtora e apresentadora Padma Lakshmi; e a própria Avani Rai, que aparece tanto atrás da câmera quanto na frente das lentes de Sundsbø.

O trabalho de Avani toma forma entre a atmosfera das ruas da Velha Delhi, onde as tradições continuam vivas – como no mercado de flores, as vielas lotadas e a escola – e a face mais contemporânea de Mumbai, onde as indústrias da moda e do cinema se encontram. A cidade definida pelo horizonte de uma megalópole, pelos locais frequentados pelos jovens, de coberturas de arranha-céus ao vilarejo de pesca. Envolvendo cerca de 130 pessoas – incluindo pessoas comuns, jovens, dançarinos, performers, modelos, artesãos, sua própria mãe e Ranveer Singh, a celebrada superestrela indiana – Avani Rai traz ao presente a vida que continua a se desenvolver ao redor das fotografias do pai.

Fotografado entre maio e setembro, o Calendário Pirelli 2027, apresentado em uma caixa com dois compartimentos separados, contém um total de 36 fotografias: 18 de Sølve Sundsbø e 18 de Raghu e do projeto de Avani Rai.

Entrevista com os profissionais que fotografaram para o Calendádio Pirelli 2027: Sølve Sundsbø.: . Depois do Calendário Pirelli 2026 dedicado aos elementos, o que o levou a voltar sua atenção para a Índia para a edição de 2027? Sølve Sundsbø — A Índia é um lugar de extraordinária riqueza cultural, humana e criativa. Desde o início, foi essencial para mim trabalhar ao lado de alguém que a conhecia intimamente. Colaborar com Raghu Rai, que dedicou muito de sua vida retratando a Índia por meio de suas lentes, foi um privilégio. Gosto de pensar que esse Calendário nasceu justamente do encontro de diferentes perspectivas: a minha, focada em pessoas e suas histórias, e a de Raghu — e depois de Avani, que levou o projeto adiante – capaz de capturar e transmitir a mais autêntica alma do país.

. Como você construiu o elenco para esta edição do Calendário? SS — Eu quis juntar mulheres da Índia, ou com raízes indianas, que deixaram sua marca em suas respectivas áreas de atuação. O resultado é um grupo de nove protagonistas, cada uma com uma história única para contar.

. Como você escolheu os locais para a sessão? SS — Um dos aspectos mais complexos foi encontrar um lugar que poderia evocar a riqueza e a diversidade da Índia sem presumir representá-la em sua totalidade. Eu olhei imagens de várias localidades e considerei vários cenários, mas o Forte Jaigarh, em Jaipur, no Rajastão, imediatamente se destacou como a escolha ideal. Era exatamente o lugar que precisávamos: um lugar onde atmosferas, luz e arquitetura muito diferentes coexistem no mesmo espaço. A riqueza visual tornou possível criar diferentes imagens mantendo a forte coerência narrativa.

. Como você descreveria a linguagem visual deste Calendário? SS — Essas são imagens construídas ao redor de cor, luz e contraste. Há tecidos luminosos, flores flutuando em superfícies de água que parecem espelhos, cores intensas e as sombras projetadas pela geometria da pedra. Cada retrato tem sua própria identidade e nasceu de um encontro entre a pessoa fotografada e o ambiente ao redor.

Você tentou capturar a essência da Índia por meio dessas imagens? SS — Isso seria impossível. A Índia é muito vasta, complexa e em constante mudança para ser contida em uma simples definição ou uma série de imagens. É uma realidade tão rica em estímulos e referências que o trabalho real está em retirar, simplificar, entender o que deixar de fora do enquadramento, bem como o que incluir nele.

. O que essa experiência deixou em você? SS — Ela me fez querer explorar a Índia com muito mais profundidade. Eu já havia visitado antes, mas sinto como se estivesse viajando para lá a vida inteira pela minha imaginação. É um daqueles lugares que ficam gravados no fundo da mente das pessoas. E quando você finalmente chega lá, tudo o que havia imaginado ganha vida de uma forma surpreendente.

Entrevista com Avani Rai.: . Avani, o que trabalhar neste Calendário significou para você? Avani Rai — Foi uma jornada incrivelmente pessoal e emocionante. Meu pai, Raghu Rai, estava trabalhando no projeto havia vários meses antes de falecer. Eu senti uma profunda responsabilidade de levá-lo adiante, mas também uma necessidade de encontrar meu próprio caminho para isso. Pegar a câmera após seu falecimento foi um dos momentos mais significativos para mim. Eu comecei procurando por mim mesma e por ele e, nesse processo, encontrei uma forma de honrar o que ele o que ele começou sem deixar de ser fiel à minha visão de mundo. Ele sempre acreditou que a imitação jamais poderia te levar além do original. O que ele me deixou foi algo muito mais profundo: olhar para o mundo com um coração caloroso, um olhar aberto, dignidade e respeito, e levar adiante seu legado com elegância.

. Qual foi a ideia que seu pai havia desenvolvido? AR— Ele havia imaginado trazer o passado e o presente à conversa por meio de seu arquivo fotográfico. A ideia dele era criar retratos de estúdio diante de uma seleção de suas fotos que nunca foram publicadas, permitindo que diferentes momentos de tempo coexistam no mesmo quadro.

. Como você levou o projeto adiante? AR — Percebi que, para mim, honrar seu legado significava olhar além das fotografias em si e tentar entender sua forma de enxergar. Meu pai pertencia à rua, em meio às pessoas que ele fotografou durante a vida toda. Então eu levei a ideia que ele havia desenvolvido para fora do estúdio e devolvi suas fotos aos lugares onde elas foram feitas. Suas fotos originais, nunca publicadas, seguiram intactas no enquadramento, e eu fiquei por trás dele, quase o tornando invisível, conforme eu fotografava o mundo de hoje tomando forma ao redor de suas imagens. Fazendo isso, eu quis juntar as muitas realidades que compõem a Índia, onde casta, classe, gênero, comunidade, texturas, expressões, beleza e intensidade coexistem. O passado e o presente habitam o mesmo quadro, cada um retendo sua própria vida, mas ainda assim se tornando parte de um todo maior.

. Quais locais você escolheu? AR — Nós voltamos aos lugares em Delhi que meu pai amava e fotografou ao longo da vida. Com a ajuda de seu motorista de longa data, Nandan, nós refizemos suas rotas por mercados, vizinhanças históricas, ruas lotadas e ao longo do Yamuna. Ele sempre foi atraído pela transformação das cidades, particularmente pelas coisas que corriam risco de desaparecer.

Em Mumbai, mudamos para um diferente ritmo de cidade, de sua arquitetura contemporânea e espaços habitados pelos jovens até seus bairros mais antigos e comunidades pesqueiras. O que me interessou em ambas as cidades foi a coexistência de diferentes mundos, normalmente a poucas ruas de distância um do outro. São lugares em mudança constante, mas que ainda carregam muito do passado com eles.

As pessoas também têm um papel central no projeto — Absolutamente. Meu pai fotografava pessoas de todas as origens, religiões, idades e profissões com a mesma curiosidade e dignidade. Ele nunca separava o extraordinário do comum. Um músico, um artesão, uma criança na rua ou uma dançarina podiam todos fazer parte do mesmo quadro. Ele tinha uma habilidade extraordinária de reconhecer como realidades diferentes podiam coexistir, sem que uma diminuísse a outra. Eu queria que esse senso de humanidade e coexistência permanecesse no coração deste projeto.

. Como foi trabalhar com Sølve Sundsbø? AR — Havia um diálogo constante entre Sølve e eu, mas também com meu pai e as ideias que ele havia deixado para trás. Embora ele não estivesse mais fisicamente presente, seu trabalho fazia parte de cada decisão que eu tomava. De certa forma, parecia que havia três artistas na sala: dois de nós fisicamente presentes e um que continuava presente por meio de suas fotografias.

. Você disse que, por meio da fotografia, continua encontrando seu pai. O que você quer dizer com isso? AR — Quando olho pelo visor, o mundo parece desacelerar. Vivemos em uma época em que imagens são produzidas constantemente, em que a tecnologia avança mais rápido do que nunca e a vida raramente faz pausas. Para mim, a câmera me convida a fazer exatamente isso: esperar pelo extraordinário no meio do comum, algo que aprendi com meu pai. Nessa espera, encontro um silêncio absoluto, mesmo quando há caos ao meu redor. É nesse silêncio que começo a ter uma conversa com ele. Há um instinto visceral, um salto no meu coração, quando sei que o momento chegou. E eu clico. É aí que encontro meu pai, na desaceleração, nesse período de espera.

Ele nunca me ensinou a fotografar. Ele me ensinou algo muito mais fundamental: como estar presente no mundo ao meu redor. Observar, esperar e seguir aberta ao que possa acontecer. Ele me ensinou que uma fotografia não pode ser forçada; é preciso estar presente quando a vida se revela. Acho que é isso que continuo buscando e o que sempre me faz voltar a ele.

História do Calendário Pirelli — “The Cal”™ nasceu como um projeto exclusivo da Pirelli UK Ltd, a subsidiária inglesa do Grupo, que trabalhava com ampla autonomia. Na realidade, foram os ingleses que, em busca de uma estratégia de marketing para superar a concorrência doméstica de outras fabricantes britânicas de pneus, em 1964 contrataram um fotógrafo – o inglês Robert Freeman, retratista dos Beatles – para dar vida, sob a direção de Derek Forsyth, a um projeto totalmente inovador para a época. O resultado foi um produto editorial refinado e exclusivo, cujos valores artísticos e culturais logo foram muito além do campo da moda e do glamour.

Desde então, “The Cal”™ continua a marcar o passar dos meses, oferecendo — por meio das imagens dos fotógrafos mais aclamados do momento — uma leitura e uma interpretação da sociedade e seus costumes, muitas vezes antecipando novas tendências.

De 1964 a 2026, com algumas interrupções ao longo dos anos, foram publicadas 53 edições do Calendário Pirelli, realizadas por 43 fotógrafos.