A WEG dribla tarifas dos EUA ao expandir produção local, reduzindo dependência de exportações brasileiras e capitalizando investimentos em infraestrutura.
A WEG está encontrando dentro de casa alguns atalhos para driblar o tarifaço norte-americano. A companhia vem usando sua crescente capacidade industrial nos Estados Unidos para capturar encomendas de utilities e reduzir a dependência de equipamentos exportados de suas fábricas brasileiras. O Relatório Reservado identificou cerca de US$ 25 milhões em contratos públicos recentes fechados pela WEG no mercado norte-americano, sobretudo para o fornecimento de transformadores. Somando-se uma encomenda da Avangrid, já anunciada nos Estados Unidos, o montante passa de US$ 32 milhões. É uma pequena amostra de uma estratégia bem maior. Os Estados Unidos respondem por algo entre 20% e 25% das vendas da WEG. Antes do recrudescimento das barreiras comerciais, aproximadamente 30% dos produtos comercializados pela companhia no país vinham do Brasil. A imposição de tarifas sobre equipamentos brasileiros tornou essa rota mais cara e acelerou uma reorganização da cadeia de produção e fornecimento da empresa na América do Norte.
A companhia dispõe de uma boa retaguarda para fazer esse deslocamento. A WEG já conta com nove unidades fabris nos Estados Unidos, além de uma extensa rede de distribuição. O principal bunker contra o tarifaço está em Washington, no Missouri, onde mantém três fábricas de transformadores, justamente um dos equipamentos que aparecem com maior frequência nas novas encomendas das utilities norte-americanas. A empresa está investindo mais US$ 77 milhões na expansão de uma dessas plantas, com previsão de elevar sua capacidade em 50%. É uma operação que ganha peso rapidamente dentro da WEG. No segundo trimestre, a receita da companhia na América do Norte chegou a US$ 613,8 milhões, 20% acima de igual período de 2025. A região já responde por metade de todas as vendas externas da fabricante brasileira.
A WEG já vinha preparando esse terreno antes mesmo do tarifaço. A empresa construiu uma plataforma industrial distribuída entre Brasil, México e Estados Unidos, que lhe permite deslocar produção e fornecimento conforme custos, demanda e barreiras comerciais. Com as novas tarifas, essa flexibilidade deixou de ser apenas uma vantagem operacional e passou a funcionar como instrumento de defesa comercial. O movimento coincide com uma expansão acelerada dos investimentos norte-americanos em redes elétricas, geração e data centers, que vem aumentando a demanda por transformadores, motores e geradores. A WEG anunciou recentemente mais US$ 165 milhões em investimentos para ampliar em cinco vezes sua capacidade global de fabricação de grandes turbogeradores, com boa parte do crescimento direcionada à América do Norte.
Concorrente americana fecha o cerco à Bracell com tarifa de quase 16% — A Bracell está diante de uma ofensiva comercial que ameaça encarecer em quase 16% suas exportações de celulose especial para os Estados Unidos. O movimento tem um interessado direto: a Rayonier Advanced Materials (RYAM), fabricante norte-americana que disputa com a empresa brasileira o mercado de celulose de alta pureza. A investida ganhou força com a decisão do Departamento de Comércio dos EUA, anunciada em 13 de outubro, que concluiu duas investigações contra o produto brasileiro, uma por dumping e outra por subsídios. Somadas, as taxas de depósito estabelecidas nos dois processos chegam a 15,77%. A disputa envolve um mercado no qual as importações americanas provenientes do Brasil alcançaram US$ 207,8 milhões em 2024.
O risco financeiro é expressivo. Aplicada, apenas como referência, ao valor das importações brasileiras registrado em 2024, a alíquota combinada de 15,77% equivaleria a US$ 32,8 milhões anuais em encargos comerciais. O cálculo não representa uma estimativa de perdas da Bracell, uma vez que o impacto efetivo depende dos volumes atingidos e de como os custos serão distribuídos entre produtores, importadores e clientes. Ainda assim, dá a dimensão do problema. A América do Norte respondeu por 27% das vendas de celulose da fábrica da Bracell na Bahia em 2025. O mercado americano, portanto, não é um destino marginal para a companhia. Trata-se de uma parcela relevante de seus negócios exposta a um súbito aumento de custos.
A situação piorou especialmente na investigação de subsídios. A taxa compensatória saltou de 3,67% para 9,37%, elevação de 5,7 pontos percentuais. No processo antidumping, a margem recuou de 7,20% para 6,50%, mas a taxa ajustada de depósito passou de 6,09% para 6,40%. O agravamento da frente de subsídios mais do que anulou a melhora na margem de dumping. A Bracell poderá ter de aceitar preços líquidos menores para preservar seus contratos americanos. Caso transfira integralmente o encargo aos compradores, abre espaço para que fabricantes concorrentes avancem sobre sua carteira de clientes.
A ofensiva começou em agosto de 2025, quando a Rayonier e o sindicato United Steelworkers solicitaram investigações contra importações provenientes do Brasil e da Noruega. Para o produto norueguês, o Departamento de Comércio fixou margem antidumping de 6,51%, sem a investigação paralela de subsídios aplicada à Bracell. A diferença pode colocar a empresa brasileira em desvantagem também diante dos fornecedores noruegueses. Os Estados Unidos importaram 218,3 mil toneladas de celulose solúvel do Brasil em 2024, ante 198,5 mil toneladas no ano anterior. Em valores, as compras avançaram 16,2%, de US$ 178,8 milhões para US$ 207,8 milhões. As estatísticas incluem classificações aduaneiras mais abrangentes que o produto investigado.
A ameaça tarifária atinge uma operação de grande escala. A fábrica da Bracell em Camaçari, na Bahia, tem capacidade para produzir 500 mil toneladas anuais de celulose especial e entregou aproximadamente 460 mil toneladas em 2025. A imposição definitiva dos encargos poderá obrigar a companhia a escolher entre sacrificar margens para preservar clientes americanos ou buscar outros mercados para parte da produção. Nenhuma das alternativas é indolor: a primeira compromete a rentabilidade; a segunda pode exigir descontos para acomodar volumes adicionais em mercados já disputados.
A palavra final caberá à International Trade Commission (ITC), que deverá determinar se as importações causam ou ameaçam causar dano material à indústria americana. Uma decisão favorável à indústria local abrirá caminho para a aplicação definitiva dos direitos antidumping e compensatórios. Para a Bracell, o risco vai além de uma despesa tarifária adicional: envolve a rentabilidade de uma operação de grande escala e a possibilidade de sua concorrente americana transformar uma disputa comercial em vantagem competitiva. | RR