— O risco é transformar parte desse aumento de custos em inflação de serviços, justamente um dos componentes mais resistentes da inflação brasileira — analisa Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
—O setor de serviços recuou 0,1% em agosto, mas os serviços prestados às famílias cresceram 2,1%, mostrando que o consumo de lazer e alimentação mantém força mesmo com juros elevados. Uma eventual redução da jornada de 44 para 40 horas poderia ampliar essa demanda, mas também elevaria em 10% o custo da hora trabalhada, caso os salários fossem mantidos. Em uma simulação com folha equivalente a 30% das despesas, a recomposição integral das horas poderia elevar os custos totais em cerca de 3%, podendo superar esse percentual diante da necessidade de novas contratações, horas extras e de um possível efeito em cadeia sobre os custos de fornecedores e insumos, já que a mudança também afetaria outras empresas da cadeia produtiva. Esse aumento das despesas operacionais pode pressionar as margens e levar ao repasse de parte dos custos aos preços finais de produtos e serviços, contribuindo para a inflação. Com o IPCA em 4,58% em 12 meses, uma pressão adicional sobre os preços, especialmente no setor de serviços, poderia dificultar a desaceleração inflacionária e limitar a velocidade dos cortes da Selic. O equilíbrio entre custos trabalhistas, produtividade e capacidade de repasse aos preços será decisivo para o consumo, as contratações e os investimentos— indica Gustavo Assis, CEO da Asset.
— A estabilidade dos serviços em agosto, mesmo com o crescimento dos segmentos voltados às famílias, mostra que o consumo ainda não sustenta uma expansão generalizada do setor. Na minha avaliação, o fim da escala 6×1 pode beneficiar lazer e turismo, mas o aumento dos custos tende a ser mais imediato do que o crescimento da demanda. O problema é que mais tempo livre não significa mais dinheiro para consumir. Acredito que grandes empresas terão melhores condições de contratar e investir, enquanto pequenos negócios enfrentarão maior pressão sobre suas margens. O risco é transformar parte desse aumento de custos em inflação de serviços, justamente um dos componentes mais resistentes da inflação brasileira. Isso dificultaria a queda dos juros e exigiria maior seletividade nos investimentos, privilegiando empresas com produtividade elevada e capacidade de repassar preços — continuaSidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.
— O avanço de 2,1% dos serviços prestados às famílias, enquanto os serviços profissionais e administrativos recuaram 0,2%, revela que o consumo está crescendo mais rapidamente que algumas atividades empresariais. A possível redução da escala 6×1 pode intensificar esse movimento, ampliando a procura por lazer e turismo e exigindo reorganização das equipes. A passagem de 44 para 40 horas reduz a jornada em 9,1%, tornando produtividade, treinamento e gestão comercial ainda mais importantes. Em operações bem estruturadas, o faturamento poderia aumentar entre 4% e 6%, com custos avançando de 2% a 3%. O movimento tende a favorecer contratações e investimentos em tecnologia, desde que as empresas consigam transformar demanda em atendimento efetivo. Caso a produtividade não acompanhe o consumo, parte do crescimento será repassada aos preços, dificultando a desaceleração da inflação e a queda dos juros. O diferencial estará na capacidade de vender mais por hora trabalhada — sugere Caio Mazzuchelli, CEO da You Lead.
— O resultado de agosto mostra um setor de serviços praticamente estável, mas com comportamentos bastante diferentes entre os segmentos. O avanço dos serviços prestados às famílias é importante porque atividades como alimentação, hospedagem, turismo e lazer são bastante sensíveis à renda disponível, ao emprego e também ao tempo livre das famílias. Uma eventual mudança da escala 6×1 poderia, portanto, ter um efeito positivo sobre a demanda desses setores. Mais tempo disponível tende a aumentar o consumo de restaurantes, entretenimento, turismo e serviços pessoais. Por outro lado, são justamente atividades intensivas em mão de obra e que precisam funcionar à noite, nos fins de semana e feriados. Se houver redução da jornada sem redução proporcional dos salários, o custo por hora trabalhada aumenta. Dependendo do formato da mudança e da capacidade de reorganização das escalas, estimamos que o impacto efetivo sobre os custos de pessoal das empresas mais expostas possa ficar aproximadamente entre 3% e 8%. Ao mesmo tempo, o aumento do consumo poderia acrescentar algo como 2% a 5% ao faturamento de alguns segmentos de lazer, alimentação e turismo. São intervalos de cenário, e não uma projeção única para todo o setor. O saldo dependerá principalmente do ganho de produtividade. Empresas maiores provavelmente terão maior capacidade de reorganizar equipes, automatizar processos e absorver parte desse custo. Já pequenos restaurantes, hotéis e empresas de serviços podem precisar contratar mais funcionários ou repassar parte do aumento para os preços. Isso pode gerar novas contratações e estimular investimentos em tecnologia e produtividade, o que é positivo para a atividade. Mas, se o aumento dos custos superar os ganhos de produtividade e de faturamento, teremos uma pressão adicional sobre os preços de serviços. Esse último ponto é particularmente relevante para a política monetária, porque a inflação de serviços costuma ser mais resistente. Portanto, uma mudança muito rápida e sem período adequado de adaptação poderia dificultar marginalmente o processo de queda da inflação e, consequentemente, limitar a velocidade dos cortes de juros. Em resumo, a redução da jornada pode estimular consumo e qualidade de vida, mas o efeito econômico não será uniforme. Para que o saldo seja positivo, é fundamental que a transição permita às empresas reorganizar escalas, investir em produtividade e evitar que o aumento do custo trabalhista simplesmente seja transferido para os preços — calcula André Luiz Haas Caruso, CEO da Pilar Capital.
— A redução da escala 6×1 pode provocar uma mudança importante na distribuição do consumo, ampliando o movimento em restaurantes, turismo e entretenimento em diferentes dias da semana. O avanço de 2,1% dos serviços às famílias em agosto já indica força nessas atividades, mesmo com o setor agregado praticamente estável. Empresas que combinarem gestão de escalas, pagamentos digitais, fidelização e melhor controle dos recebíveis poderão aproveitar essa demanda com maior eficiência. Em um cenário de adaptação, o faturamento poderia crescer entre 4% e 6%, enquanto os custos avançariam de 2% a 3,5%. A expansão favoreceria contratações e investimentos em tecnologia, mas o impacto sobre a inflação dependerá da produtividade. Quanto maior a capacidade de atendimento sem reajustes de preços, menor a pressão sobre a política monetária e maior o espaço para cortes da Selic — indica Leticia Moschioni, sócia da Finscale.
— O aumento de 2,1% dos serviços às famílias mostra que o consumo presencial ainda encontra espaço para crescer, mas a redução da escala 6×1 pode criar um desafio de capacidade. Hotéis e restaurantes não conseguem ampliar sua estrutura imediatamente, mesmo diante de uma procura maior. Um estabelecimento que registre crescimento potencial de 5% na demanda pode converter apenas 2% a 3% em faturamento se já operar próximo do limite, enquanto seus custos poderiam subir de 3% a 4%. Com investimentos antecipados em equipamentos, instalações e equipes, a receita poderia avançar de 4% a 6%, com maior capacidade de absorver as despesas. Isso favoreceria emprego e atividade econômica. O crédito planejado será importante para financiar essa expansão, pois, sem aumento de oferta, a demanda adicional tende a pressionar preços, dificultando a desaceleração da inflação e a redução dos juros — avalia Alberto Friggi, CEO da Friggi & Secco.
— Os números de agosto mostram uma economia que perdeu fôlego, mas com o consumo das famílias ainda resistente. O volume de serviços caiu 0,1% em relação a julho, enquanto os serviços prestados às famílias, que incluem hotéis, bares, restaurantes e lazer, cresceram 2,1% no mês e 4,2% sobre agosto do ano passado. O fim da escala 6×1 pode aumentar o tempo livre e o consumo de lazer e turismo. Só que esses são justamente os setores que mais dependem de mão de obra e que funcionam aos fins de semana. Para atender mais clientes com uma jornada menor, eles vão precisar contratar. O custo dessa mudança já foi estimado: segundo o Ipea, reduzir a jornada para 40 horas aumentaria em 7,84% o custo de cada trabalhador com carteira assinada. Na indústria e no comércio, o impacto no custo total ficaria abaixo de 1%, mas chegaria a 6,5% em serviços como vigilância e limpeza. Já o ganho de faturamento ainda não foi medido por ninguém, e por isso o saldo não está garantido. Se o consumo extra não compensar, parte desse custo deve ir para os preços dos serviços. Isso acontece num momento em que o mercado já projeta inflação de 5,22% para 2026, acima do teto da meta. A medida pode gerar contratações no curto prazo, mas, sem ganho de produtividade, o risco maior é de preços mais altos e juros caindo mais devagar — examina André Matos, CEO da MA7 Capital.
“O resultado de agosto mostra uma economia em duas velocidades: o setor de serviços recuou 0,1%, enquanto as atividades voltadas às famílias cresceram 2,1%. Uma jornada menor poderia estimular viagens e lazer, mas a capacidade de atendimento dependerá de contratações, produtividade e investimentos, também influenciados pelo cenário internacional. Juros elevados nos Estados Unidos e oscilações cambiais podem encarecer equipamentos importados e limitar o espaço para cortes mais rápidos da Selic. Em um cenário de aumento de 3% a 5% no faturamento dos serviços beneficiados, os custos poderiam crescer entre 2% e 4%. Se a demanda avançar sem expansão da oferta, haverá maior pressão inflacionária; com investimentos e produtividade, o efeito sobre emprego e crescimento poderá ser mais favorável. Para os investidores, a combinação entre câmbio, juros brasileiros e política monetária americana reforça a importância da diversificação internacional e da proteção patrimonial — sustenta Fábio Murad, consultor da Wiser Asset.