O petróleo em patamar elevado e a perspectiva de um El Niño muito forte já influenciam o planejamento da indústria de alimentos para o próximo ano. Os efeitos devem chegar ao frete, à embalagem e à matéria-prima nos próximos meses, mas a indústria dispõe de alternativas concretas para atravessar esse ciclo com margens preservadas e presença consolidada no varejo.
Em 17 de setembro, a Petrobras reajustou o diesel em R$ 1 por litro, aumento que não chegou às distribuidoras porque foi compensado por uma subvenção federal de mesmo valor, com prazo inicial de 30 dias. Na prática, o custo foi adiado. No clima, a NOAA [agência norte-americana de oceanos e atmosfera] estima em mais de 90% a probabilidade de um El Niño muito forte entre a primavera de 2026 e o verão de 2027. Como nenhum desses fatores chegou ainda ao preço final, indústria e varejo contam com uma janela valiosa para se planejar.
A alta do Brent após o conflito no Irã encarece tanto o diesel que move o frete quanto as resinas plásticas utilizadas nas embalagens. O barril superou os US$ 100 em setembro e fechou o dia 23 a US$ 99,31. As resinas acumularam altas de 70% a 80% entre o fim de fevereiro e o início de abril, segundo a Abiplast, associação que representa a indústria do plástico.
O milho permanece estável, mas o mercado futuro já incorpora o risco do próximo ano. No fim de setembro, o contrato com vencimento em março de 2027 era negociado na B3 a R$ 81,02 a saca, cerca de 17% acima dos R$ 69,48 registrados pelo indicador Cepea/Esalq. É nesse ponto que a antecipação faz diferença, pois as empresas que deixarem a compra de milho para o momento da necessidade tendem a pagar o preço de 2027.
Em snacks, esse efeito é mais expressivo do que na média dos alimentos, uma vez que o produto é leve e tem preço unitário baixo. Em um pacote de poucos reais e poucas gramas, a embalagem deixa de ser um detalhe e passa a disputar espaço com o próprio alimento na composição do custo.
Consumidor atento ao preço — Do outro lado da gôndola, o consumidor opera com pouca folga no orçamento. O consumo nos lares cresceu 2,49% no primeiro semestre, segundo a Abras, e o varejo já respondeu com sortimento orientado pelo giro e mais espaço para marcas próprias. Nas 52 semanas encerradas em junho, as marcas próprias cresceram 10,9% em volume, contra 0,7% das marcas tradicionais, de acordo com a NielsenIQ.
Nesse cenário, repassar integralmente o aumento de custo ao preço final não é uma boa alternativa. Quando o produto chega até a gôndola, o consumidor, de olho no limite do orçamento, pode aderir à opção mais barata ou reduzir a quantidade de itens que leva para casa, e o varejista, atento ao giro, tende a diminuir o espaço dos itens que deixam de vender. A indústria preserva a margem de cada pacote, mas vende menos pacotes, e com menor volume os custos fixos da fábrica passam a pesar mais sobre cada unidade produzida, o que acaba corroendo a própria margem que o repasse pretendia proteger.
O caminho mais sustentável é compensar parte da alta com eficiência, e reservar o repasse para o que não pode ser absorvido. A marca segue competitiva no mercado quando o consumidor reconhece nela uma qualidade comparável à dos líderes da categoria por um preço que considera justo, e quando encontra esse produto sempre disponível no canal em que costuma comprar, seja o supermercado, o atacarejo ou o pequeno varejo de bairro.
O que o investidor deve observar — A inflação de alimentos também tem reflexo sobre os juros. O Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano em setembro, mas registrou em ata que as expectativas de inflação seguem acima da meta em todos os horizontes analisados. Uma nova pressão sobre a cesta pode tornar mais lento o ciclo de cortes e comprimir as margens do varejo e da indústria, efeito que tende a aparecer nos balanços das companhias de alimentos e de varejo listadas na bolsa.
Quatro frentes de antecipação — Indústria e varejo precisam negociar desde já o abastecimento de 2027, com contratos que distribuam o risco e embalagens adequadas a cada canal. Existem quatro frentes principais para quem pretende chegar ao próximo ano com gôndola abastecida e margem preservada.
A primeira é comprar cedo, de forma escalonada e com base em dados. A programação de compra de insumos deve partir das informações de giro por região e da previsão de produção, garantindo parte do volume de 2027.
A segunda estratégia é encurtar a distância até o ponto de venda. Distribuidores regionais com exclusividade por área conhecem o mercado local, repõem com mais agilidade e reduzem a dependência de poucas grandes redes, o que amplia os canais de escoamento quando os custos sobem.
A terceira medida é diversificar o portfólio com produtos de maior valor agregado, pois o lançamento de linhas inovadoras permite à indústria ocupar faixas de preço em que o consumidor aceita pagar mais por atributos que reconhece – como ingredientes, apelo nutricional ou experiência de consumo diferenciada. A estratégia de upselling funciona bem nesse sentido, pois a aquisição do produto de entrada abre caminho para as versões de maior valor da mesma marca. Um portfólio mais amplo também fortalece a negociação com o varejo, que passa a encontrar, em um único fornecedor, opções para diferentes perfis de cliente e faixas de preço.
A quarta frente é investir em tecnologia e gestão dentro e fora da fábrica. Na produção, a automação das linhas reduz a variabilidade do processo e o consumo de energia e de matéria-prima por unidade, enquanto o acompanhamento de indicadores de perda em cada etapa, do recebimento do milho à embalagem final, permite corrigir o desvio em dias, e não apenas no fechamento do trimestre.
Na logística, onde o diesel pesa diretamente, a gestão do frete ganha papel central. A roteirização das entregas, a consolidação de cargas e a negociação antecipada com transportadoras ajudam a conter o impacto de um eventual fim da subvenção ao diesel. A rede de distribuidores regionais contribui também nesse ponto, porque encurta o trajeto entre a fábrica e o ponto de venda e dilui o custo de transporte em rotas que o distribuidor já opera. Fora da fábrica, é importante ouvir o consumidor antes de definir preço e formato, com análise dos dados dos pontos de vendas e pesquisas de opinião.
Essas estratégias, porém, só se convertem em resultado quando acompanhadas de método. A combinação entre processos bem definidos, acompanhamento próximo das margens e revisões rápidas permite atravessar um ano de custos altos com crescimento significativo, ocupando espaços deixados por concorrentes que demoraram a reagir. Os custos de 2027 chegarão para toda a indústria, mas o impacto sobre cada empresa dependerá das decisões tomadas agora. Quem se antecipar terá condições de encerrar o ciclo com uma operação ainda mais eficiente do que a que tinha ao entrar nele.
• Por: Pedro Rodrigues, diretor-executivo da Milho de Ouro, indústria brasileira de snacks.| Milho de Ouro — Fundada em 1992 em Amparo (SP) pelo casal Spencer e Darlene Rodrigues, a Milho de Ouro é uma indústria brasileira de snacks com duas fábricas em Embu das Artes (SP) e produção de 700 toneladas por mês, sobre capacidade instalada de 1.400 toneladas. A companhia atende 20 mil pontos de venda em 14 estados, têm mais de 220 colaboradores e certificação IFS Global Markets.