grasiela-tesser2

06/10/2026

A maior distância entre Brasil e China talvez não seja tecnológica

Viajei para a China esperando voltar impressionada com a tecnologia. E voltei. Carros elétricos, robótica e inteligência artificial aplicada a situações concretas mostram um país que transforma inovação em parte da vida e dos negócios. Mas, depois de alguns dias, percebi que a tecnologia deixou de ser o que mais me chamava a atenção. O que realmente me impressionou foi a capacidade de transformar possibilidades em execução, com velocidade, escala e disciplina.

Há uma dimensão cultural e econômica nessa diferença. A China trabalha com horizontes longos de planejamento e uma capacidade de coordenação diferente da realidade brasileira. Não se trata de reproduzir esse modelo, mas de observar uma lógica que merece reflexão: planejar, fazer, medir, corrigir e continuar fazendo.

No varejo, essa percepção ficou evidente. Conheci um modelo que parte de milhares de ideias para chegar rapidamente a uma seleção de produtos, onde dados e inteligência artificial apoiam a gestão. O que mais me interessou foi encurtar a distância entre informação, decisão e execução.

Essa foi uma das principais reflexões que trouxe da viagem. Enquanto discutimos o potencial da inteligência artificial, na China a pergunta parece mais pragmática: o que podemos fazer melhor agora que temos IA? Quando olhamos pelo viés do problema, ela ocupa o lugar que deveria, de ampliar capacidades, melhorar decisões, reduzir desperdícios e tornar a operação mais eficiente.

Disciplina de execução, no entanto, não se compra como software. Essa constatação me fez olhar para o setor de TI. Durante anos, colocamos sistemas e plataformas no centro da conversa. Agora, fazemos o mesmo com a inteligência artificial. Mas clientes não acordam querendo tecnologia, eles têm operações para fazer funcionar, clientes para atender, margens para preservar.

A tecnologia relevante é a que entra nessa realidade e a torna melhor. A que encontra um problema relevante, integra-se à operação, amplia a capacidade das pessoas e pode ser medida pelo resultado que produz.

Fui a um dos lugares mais tecnológicos que já conheci e voltei pensando menos em tecnologia. Voltei pensando em execução.

• Por: Grasiela Tesser CEO da NL, especialista em tecnologia e inovação aplicada aos negócios.