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01/10/2026

Mercado de apostas, que Lula tanto odeia, crava a vitória de Flávio Bolsonaro

Mercados de apostas internacionais precificam virada de Flávio Bolsonaro no segundo turno, com 58% de probabilidade de vitória, apesar de Lula liderar em pesquisas o primeiro turno. A Faria Lima também reflete essa mudança.

Ironia do destino: no momento em que Lula restringe as bets no Brasil, o mercado internacional de apostas precifica uma virada de Flávio Bolsonaro no segundo turno e sua vitória na eleição presidencial. No Polymarket, o senador aparecia no dia 29 de setembro (quarta-feira), por volta das 18 horas, com 58% de probabilidade de chegar ao Palácio do Planalto, contra 42% de Lula. No Kalshi, o placar era quase idêntico: 56% a 43%. Há um mês, era rigorosamente o contrário. Em 30 de agosto, o Polymarket atribuía 55,5% de possibilidade de vitória ao presidente e apenas 41,1% a Flávio. No Kalshi, a fotografia mais próxima disponível, de 25 de agosto, era ainda mais favorável ao petista: 61,5% a 36,5%. Ou seja: no Polymarket, o diferencial entre os dois sofreu uma inversão de cerca de 31 pontos percentuais em apenas 30 dias. No Kalshi, a gangorra foi ainda maior, próxima de 38 pontos.

É importante não misturar alhos com bugalhos. Os 58% de Flávio no Polymarket ou os 56% do Kalshi não significam percentual estimado de votos. São probabilidades implícitas de vitória extraídas do preço pelo qual contratos são comprados e vendidos. Uma cota de Flávio negociada a US$ 0,58 paga US$ 1 se ele for eleito e zero se perder. Quem a compra aos preços atuais arrisca 58 centavos para receber um dólar em caso de vitória. É uma lógica mais próxima da negociação de um ativo binário do que de uma pesquisa de intenção de voto. Pesquisa pergunta ao eleitor em quem pretende votar. Mercado preditivo pergunta quanto alguém está disposto a arriscar para sustentar que determinado evento ocorrerá. A julgar pela abertura da boca do jacaré, nem dá para dizer que o investimento em Flávio é uma aposta de risco.

O mercado está precificando uma eleição em duas etapas. No Polymarket, Lula tem 75% de probabilidade de terminar o primeiro turno em primeiro lugar, contra apenas 26% de Flávio. Ao mesmo tempo, a possibilidade de ambos chegarem ao segundo turno é quase consensual: 98% para Flávio e entre 96% e 98% para Lula. No contrato da Presidência, porém, a ordem se inverte: 58% para Flávio e 42% para Lula. O Kalshi conta praticamente a mesma história. Lula tem aproximadamente três quartos das chances de terminar a primeira rodada na frente. No contrato sobre a margem do primeiro turno, 40% das apostas estão concentradas em uma vitória de Lula por até cinco pontos; outros 30% precificam uma vantagem petista entre cinco e dez pontos. A possibilidade de Flávio vencer a primeira rodada por até cinco pontos vale apenas 17%. No entanto, quando a pergunta muda de “quem chega na frente em 04 de outubro (domingo)?” para “quem será presidente?”, o senador passa para o primeiro lugar.

É uma aposta muito específica: Lula ganha o primeiro turno: Flávio, o segundo, — apesar de Flávio está em campanha pelo voto útil.

Os “mercados” convergem: a virada não ficou confinada às plataformas de previsão.

Enquanto o Polymarket trocava Lula por Flávio Bolsonaro, outra reprecificação acontecia na Faria Lima. O DI com vencimento em janeiro de 2031 saiu de 14,48% no fim de agosto para 13,925% em 25 de setembro, fechamento de 55,5 pontos-base. O Ibovespa partiu de 177.419 pontos em 31 de agosto e chegou a 187.423 no dia 22, alta de 5,6%. Mesmo depois de devolver parte do ganho, ainda acumulava avanço de aproximadamente 3,1% até o dia 28. Mais eloquente talvez seja o fluxo estrangeiro: a retirada de R$ 18,1 bilhões da Bolsa em agosto deu lugar a uma entrada de R$ 9,6 bilhões em setembro até o dia 22. Uma inversão de R$ 27,7 bilhões entre os dois períodos.

O Relatório Reservado cruzou as cotações do Polymarket com Ibovespa, dólar e DI jan/31 em 14 observações sincronizadas de setembro. A conexão mais forte aparece justamente no preço do dinheiro. A correlação entre a probabilidade atribuída a Flávio e a taxa do DI foi de aproximadamente -0,79. Com o Ibovespa, +0,53. Com o dólar, apenas +0,25. É uma fotografia de tendência, não uma relação de causa e efeito. Quando o cálculo é feito sobre as variações entre uma observação e outra, em vez dos níveis, as correlações caem respectivamente para -0,04, +0,22 e -0,09.

Alguns pregões, contudo, parecem fotografias tiradas simultaneamente dos dois mercados. Em 8 de setembro, Flávio ganhou 4,4 pontos no Polymarket, chegando a 43,85%. Na B3, o Ibovespa avançou 1,2%, o dólar caiu 0,79% e o DI janeiro/31 fechou 18 pontos-base, de 14,085% para 13,905%. Dois dias depois veio a primeira ultrapassagem: Flávio saltou para 52,85%, contra 43,5% de Lula. Naquele pregão, o Ibovespa subiu 1,42% e o DI jan/31 recuou outros nove pontos-base. A leitura dos operadores registrada pela Reuters associou parte da valorização dos ativos à maior competitividade eleitoral de Flávio e à expectativa de uma política fiscal diferente.

O movimento reapareceu em 21 de setembro. Flávio chegou a 60,9% no fechamento acompanhado pelo Polymarket, abrindo 22,4 pontos sobre Lula. O DI jan/31 caiu 14 pontos-base naquele dia, para 13,88%; o Ibovespa ganhou 0,74%; e o dólar recuou aproximadamente 0,6%.

Os dados e o dinheiro rolam — A dimensão financeira dessa corrida já é considerável. O mercado da eleição presidencial brasileira no Polymarket acumula US$ 157 milhões em negociações. Esta é a soma do volume negociado em relação a todos os candidatos ao longo da disputa, inclusive aqueles que saíram do radar. Tarcísio de Freitas, por exemplo, acumulou mais de US$ 14 milhões em negócios antes de sua cotação praticamente zerar. Nos contratos individuais dos dois atuais protagonistas, Flávio já movimentou aproximadamente US$ 12 milhões e Lula, igual valor. As cifras indicam uma diferença gritante quando comparada à última eleição brasileira. O mercado presidencial do Polymarket em 2022 movimentou apenas US$ 333,6 mil, contra os US$ 157 milhões da atual eleição, e ainda faltam mais de três semanas para o segundo turno. Em quatro anos, o volume nominal da eleição brasileira dentro da plataforma foi multiplicado por mais de 460 vezes.

A radiografia das carteiras mostra que o Polymarket está longe de ser apenas uma arquibancada eleitoral. Uma das posições públicas mais expressivas encontradas pelo RR pertence à conta ScottyNooo. Em uma fotografia recente da plataforma, a carteira carregava 310.008 contratos favoráveis a Lula, adquiridos a preço médio de 51,3 centavos, e, simultaneamente, 97.193 contratos de Flávio, comprados a 32,5 centavos. Naquele momento, o primeiro lote valia US$ 134,9 mil e registrava perda não realizada de US$ 24,1 mil. O segundo estava avaliado em US$ 50,6 mil e acumulava ganho de aproximadamente US$ 19 mil.

O quanto a eleição brasileira já rendeu — Um mesmo operador pode carregar posições simultaneamente em candidatos diferentes, reduzir uma exposição, aumentar outra ou usar um lado da aposta como proteção contra o outro. O objetivo não é necessariamente acertar o vencedor por convicção política, mas capturar uma diferença entre o preço atual do contrato e a probabilidade que o operador atribui ao evento. O torcedor escolhe uma camisa. O trader escolhe um preço.

O RR mergulhou nas contas do Polymarket para mapear como essa dinâmica funciona na prática. Uma das carteiras públicas que melhor ilustra o movimento desse mercado é a identificada como gopfan2. O operador comprou 79.082 contratos favoráveis a Flávio Bolsonaro a um preço médio de 25,9 centavos de dólar. Na prática, pagou US$ 0,259 por um contrato que valeria US$ 1 caso Flávio fosse eleito. Com a cotação atual na faixa de 58 centavos, essa posição vale aproximadamente US$ 45,9 mil e acumula ganho não realizado de cerca de US$ 25,4 mil, uma valorização de 124% sobre o capital investido. A conta registra US$ 70,4 milhões em volume negociado, 2.046 previsões realizadas e lucro acumulado de aproximadamente US$ 1,6 milhão no histórico do Polymarket.

O momento da entrada é o dado mais relevante. Quando esse operador comprou Flávio a 25,9 centavos, o mercado atribuía ao senador uma probabilidade próxima de apenas uma em quatro de chegar à Presidência. A cotação mais que dobrou desde então. Parte do dinheiro que hoje aparece acompanhando o favorito entrou quando ele ainda era visto como uma aposta de menor probabilidade.

A análise de uma amostra maior de carteiras reforça essa leitura. A Cohven acompanhou 47 grandes operadores com posições abertas no mercado presidencial brasileiro. Nove deles estavam comprados em Flávio, com preço médio de entrada de 33 centavos e valor nocional total de US$ 72,1 mil. No lado oposto, apenas três carteiras tinham posições contrárias à vitória do senador, somando US$ 20,9 mil.

No caso de Lula, oito carteiras monitoradas mantinham posições favoráveis ao presidente, com entrada média de 56 centavos e US$ 61,8 mil em valor nocional. Outras três estavam posicionadas contra sua vitória, totalizando US$ 17,6 mil. Considerando apenas essa amostra de grandes operadores, havia aproximadamente US$ 3,40 posicionados a favor de Flávio para cada dólar colocado contra sua vitória.

O track record joga a favor de Flávio: resta saber quanto vale, de fato, a inteligência produzida por esse dinheiro.

Os próprios números do Polymarket são impressionantes. Segundo a estatística divulgada pela plataforma para o conjunto de mercados já encerrados, o resultado que aparecia como favorito um mês antes da resolução acabou ocorrendo em 90,2% dos casos. Quatro horas antes do desfecho, o índice sobe para 98,5%.

A Kalshi produziu um levantamento ainda maior sobre seu próprio histórico. Foram examinados 2,24 milhões de mercados resolvidos desde 2021 até meados deste ano. A taxa simples de acerto foi de 88,3% três meses antes da resolução e chegou a 97,2% no fechamento dos contratos.

Um estudo de Joshua Clinton e TzuFeng Huang, pesquisadores da Vanderbilt University, nos Estados Unidos, analisou quase 2.200 mercados políticos e mais de US$ 3,2 bilhões em volume durante as nove semanas finais da eleição presidencial norte-americana de 2024. No conjunto, 86% dos mercados ativamente negociados tiveram desempenho superior a uma escolha aleatória. Entre contratos que, na véspera da eleição, já estavam abaixo de 20 centavos ou acima de 80, o lado favorito prevaleceu em 96% dos casos.

A eleição norte-americana de 2024 oferece, ainda assim, um caso emblemático a favor desses mercados. Na véspera da votação, enquanto as pesquisas descreviam Donald Trump e Kamala Harris em disputa apertada, o Polymarket dava aproximadamente 57% de probabilidade a Trump, contra 43% para Harris. O Kalshi estava mais cauteloso: 51% a 49%. Trump venceu. O contrato presidencial do Polymarket movimentou cerca de US$ 3,1 bilhões; o Kalshi, quase US$ 197 milhões.

O histórico brasileiro também oferece um precedente. Em 2022, o Polymarket manteve Lula do lado vencedor do contrato presidencial, que acabou resolvido corretamente. Às vésperas do segundo turno, uma cesta de seis mercados de apostas pesquisada pela Veja atribuía, em média, 65,1% de probabilidade de vitória a Lula e 35,2% a Jair Bolsonaro. Lula venceu por uma margem estreita, 50,9% a 49,1%.

Lula pode ter fechado as portas do Brasil às plataformas de apostas. Não conseguiu impedir que, do lado de fora, milhões de dólares continuassem tentando colocar preço na sua permanência ou saída do Palácio do Planalto. E dentro da ironia há outra ironia: muito antes de Betano, Superbet e suas congêneres serem banidas do país, Polymarket e Kalshi já tinham ido para o cadafalso. Desde abril, as duas plataformas estão proibidas de operar no Brasil, por determinação do governo federal. | Relatório Reservado.