A China comprou US$ 99,9 bilhões em produtos brasileiros em 2025, o equivalente a 28,6% de tudo o que o país exportou no ano. Os Estados Unidos, segundo destino, ficaram com US$ 37,7 bilhões, ou 10,8%. A demanda chinesa foi decisiva para a expansão das exportações brasileiras, mas a distância entre os dois mercados também revela uma fragilidade que recebe menos atenção do que deveria.
O principal risco está na concentração da pauta exportadora, já que soja em grão, petróleo bruto e minério de ferro somaram cerca de US$ 74 bilhões em vendas à China no ano passado, quase três quartos do total exportado para aquele mercado e mais de um quinto de tudo o que o Brasil vendeu ao mundo. Uma fatia dessa dimensão, apoiada em três commodities e em um único comprador, deixa o país exposto às oscilações de preços e às escolhas de Pequim.
Esse quadro ganha importância porque o modelo de crescimento chinês está em transição. O setor imobiliário, que por décadas sustentou parte relevante da demanda por matérias-primas como o minério de ferro, perdeu dinamismo, enquanto investimentos e políticas públicas passaram a se concentrar em setores como veículos elétricos, baterias, energia renovável, inteligência artificial e manufatura avançada. Paralelamente, a China vem reforçando políticas de segurança econômica e de maior autossuficiência em áreas estratégicas, entre elas alimentos, energia e tecnologia.
Nada disso indica que a China deixará de comprar do Brasil tão cedo, já que a dimensão daquele mercado e a competitividade do agronegócio e da mineração brasileiros tornam uma retração abrupta pouco provável. Mas ganhos de produtividade no campo chinês, ajustes na política industrial ou uma nova estratégia de segurança alimentar podem, ao longo dos anos, alterar o volume e o perfil dessas compras.
Mais do que reduzir o comércio com seu principal parceiro, o Brasil precisa diversificar produtos e mercados e aproveitar o investimento chinês para ampliar sua participação em atividades de maior valor agregado, como insumos, componentes e bens industriais ligados às novas cadeias produtivas priorizadas pela própria China. É uma agenda antiga, que a transformação em curso na economia chinesa tornou mais urgente.
• Por: Francisca Grostein, professora de comércio exterior do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas (CCSA) da Universidade Presbiteriana Mackenzie e membro do Núcleo de Estudos sobre a China (NECH).|*O conteúdo dos artigos assinados não representa necessariamente a opinião do Mackenzie. | Universidade Presbiteriana Mackenzie — A Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM) foi eleita como a melhor instituição de educação privada do Estado de São Paulo em 2025, de acordo com o Ranking Universitário Folha 2025 (RUF). Segundo o ranking QS Latin America & The Caribbean Ranking, o Guia da Faculdade Quero Educação e Estadão, é também reconhecida entre as melhores instituições de ensino da América do Sul. Com mais de 70 anos, a UPM possui três campi no estado de São Paulo, em Higienópolis, Alphaville e Campinas. Os cursos oferecidos pela UPM contemplam Graduação, Pós-Graduação, Mestrado e Doutorado, Extensão, EaD, Cursos In Company e Centro de Línguas Estrangeiras.