A valorização dos princípios como família, maternidade, casamento, feminilidade e fé são atribuições comuns a mulheres cristãs conservadoras. Mas, no filme Virtuosas, que chegou aos cinemas brasileiros, este perfil é retratado como uma ameaça. No longa-metragem, mulheres se unem pela fé numa espécie de retiro VIP para alcançar os valores da “mulher virtuosa” – uma atribuição à passagem bíblica encontrada em Provérbios 31 – e acabam transformando o ambiente num local de manipulação, violência e perigo.
Disfarçada de ficção cinematográfica, a trama é, na verdade, uma tentativa de construir um imaginário perverso de mulheres que fogem de pautas progressistas, enquadrando-as numa narrativa de terror. É lamentável que haja uma tentativa no âmbito cultural de transformar mulheres que vivenciam o propósito cristão em caricaturas.
Essa estratégia de associar a fé e a devoção a profanações e até a crimes já foi feito há dois mil anos. Infelizmente hoje se repete, mas sabemos que agora é alimentada por uma agenda ideológica que não interessa às mulheres cristãs.
Ressalto que o filme Virtuosas, é um modus operandi que tenta exatamente desarticular esse tipo de olhar sobre mulheres cristãs. Primeiro vem a caricatura, depois o ridículo. Depois disso, vem a associação ao atraso, ao fanatismo e, finalmente, ao perigo. Quando essas etapas se consolidam, as pessoas já não veem mais necessidade de discutir o que essas mulheres pensam.
Refletir sobre tudo isso, a meu ver, importa porque cultura não é apenas entretenimento. Cultura produz símbolos, que por sua vez produzem associações e imaginários. Esses imaginários interferem na maneira como pessoas reais passam a ser percebidas.
Então quando fé, feminilidade cristã, casamento, maternidade, submissão bíblica e conservadorismo são reunidos dentro da linguagem do terror, constrói-se uma representação específica desse universo.
Não tem como deixar de associar a estreia do filme com a contagem regressiva para as eleições. É uma forma de estigmatizar quem pensa diferente, quem se conduz pela fé ao invés de apoiar pautas esquerdistas.
• Por: Lia Noleto, advogada e cofundadora do Movimento Mulheres Reais do Brasil.