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23/09/2026

IA, inovação e responsabilidade no mercado digital

Nas últimas semanas, uma discussão pouco provável ganhou força dentro da indústria de inteligência artificial. Dario Amodei, CEO da Anthropic, empresa responsável pelo desenvolvimento dos sistemas Claude, defendeu que o avanço das tecnologias mais sofisticadas seja desacelerado para que mecanismos de segurança e controle consigam acompanhar sua evolução. O debate ganhou força diante de episódios envolvendo agentes capazes de acessar a internet e realizar ações para as quais não haviam sido originalmente projetados. Ao mesmo tempo, a expansão desses sistemas esbarra em desafios cada vez mais concretos, que vão da capacidade de supervisão à infraestrutura necessária para sustentar seu crescimento. A questão que se coloca é simples: o que acontece quando a capacidade de um sistema cresce mais rápido do que nossa capacidade de supervisioná-lo?

Isso não significa frear a adoção da IA. O mercado digital não pode abrir mão da experimentação, dos ganhos de produtividade e das novas possibilidades criativas que a tecnologia oferece. Mas precisa desenvolver maturidade para entender seus limites, estabelecer critérios de uso e avaliar onde a autonomia da IA realmente faz sentido.

Essa discussão também precisa ser ampliada para uma questão estratégica: quem desenvolve a tecnologia que estamos incorporando e qual papel o Brasil quer ocupar nessa indústria? Grande parte das ferramentas e modelos utilizados pelas empresas brasileiras é desenvolvida por grandes companhias estrangeiras. O acesso a essas tecnologias é fundamental, mas a dependência de plataformas, modelos e infraestrutura externos também coloca em discussão a capacidade brasileira de desenvolver conhecimento e tecnologia próprios.

O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) reconhece essa dimensão ao estabelecer entre seus objetivos o desenvolvimento de infraestrutura, modelos em português, formação de profissionais e fortalecimento da capacidade nacional em IA. Movimentos recentes de investimento público reforçam essa agenda. Finep e BNDES, por exemplo, avançaram na estruturação de um fundo que poderá mobilizar cerca de R$ 500 milhões para apoiar empresas brasileiras de inteligência artificial.

Soberania tecnológica não significa isolamento nem menor acesso às tecnologias globais. Significa ampliar a capacidade de o país desenvolver, adaptar e participar da construção das tecnologias que terão impacto crescente sobre sua economia. E essa é uma discussão que precisa envolver não apenas governo e empresas de tecnologia, mas todo o ecossistema digital.

No dia a dia das agências, isso significa avançar com critério. Testar uma ferramenta que gera textos, imagens ou análises é diferente de colocar um agente para executar tarefas, acessar sistemas e tomar decisões intermediárias. Quanto maior a autonomia, maior precisa ser a clareza sobre limites, supervisão e responsabilidade.

Essa discussão já faz parte da atuação da Abradi. O GuIA, Guia de Inteligência Artificial para Marketing Digital, lançado em parceria com a ABRIA e atualizado em 2026, reúne conteúdos sobre aplicações práticas, tendências, ética, privacidade e governança. A associação pode contribuir justamente aproximando esse debate da realidade de empresas que já utilizam IA diariamente e compartilhando experiências sobre o que funciona, onde estão os riscos e quais controles são efetivamente úteis.

É possível, portanto, defender duas coisas ao mesmo tempo: que o mercado continue experimentando e que a experimentação seja acompanhada de responsabilidade; que o Brasil amplie o acesso à inovação global e, ao mesmo tempo, desenvolva capacidade própria. Para uma entidade que representa empresas na linha de frente da transformação digital, essa é uma discussão central.

Porque a velocidade da tecnologia não é o único indicador de inovação. A capacidade de usá-la bem, entender seus limites e construir competências próprias também faz parte da maturidade de um mercado.

Por: Lucas Garcia, presidente nacional da Associação Brasileira de Agentes Digitais (Abradi).