Nas últimas semanas, uma discussão pouco provável ganhou força dentro da indústria de inteligência artificial. Dario Amodei, CEO da Anthropic, empresa responsável pelo desenvolvimento dos sistemas Claude, defendeu que o avanço das tecnologias mais sofisticadas seja desacelerado para que mecanismos de segurança e controle consigam acompanhar sua evolução. O debate ganhou força diante de episódios envolvendo agentes capazes de acessar a internet e realizar ações para as quais não haviam sido originalmente projetados. Ao mesmo tempo, a expansão desses sistemas esbarra em desafios cada vez mais concretos, que vão da capacidade de supervisão à infraestrutura necessária para sustentar seu crescimento. A questão que se coloca é simples: o que acontece quando a capacidade de um sistema cresce mais rápido do que nossa capacidade de supervisioná-lo?
Isso não significa frear a adoção da IA. O mercado digital não pode abrir mão da experimentação, dos ganhos de produtividade e das novas possibilidades criativas que a tecnologia oferece. Mas precisa desenvolver maturidade para entender seus limites, estabelecer critérios de uso e avaliar onde a autonomia da IA realmente faz sentido.
Essa discussão também precisa ser ampliada para uma questão estratégica: quem desenvolve a tecnologia que estamos incorporando e qual papel o Brasil quer ocupar nessa indústria? Grande parte das ferramentas e modelos utilizados pelas empresas brasileiras é desenvolvida por grandes companhias estrangeiras. O acesso a essas tecnologias é fundamental, mas a dependência de plataformas, modelos e infraestrutura externos também coloca em discussão a capacidade brasileira de desenvolver conhecimento e tecnologia próprios.
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA) reconhece essa dimensão ao estabelecer entre seus objetivos o desenvolvimento de infraestrutura, modelos em português, formação de profissionais e fortalecimento da capacidade nacional em IA. Movimentos recentes de investimento público reforçam essa agenda. Finep e BNDES, por exemplo, avançaram na estruturação de um fundo que poderá mobilizar cerca de R$ 500 milhões para apoiar empresas brasileiras de inteligência artificial.
Soberania tecnológica não significa isolamento nem menor acesso às tecnologias globais. Significa ampliar a capacidade de o país desenvolver, adaptar e participar da construção das tecnologias que terão impacto crescente sobre sua economia. E essa é uma discussão que precisa envolver não apenas governo e empresas de tecnologia, mas todo o ecossistema digital.
No dia a dia das agências, isso significa avançar com critério. Testar uma ferramenta que gera textos, imagens ou análises é diferente de colocar um agente para executar tarefas, acessar sistemas e tomar decisões intermediárias. Quanto maior a autonomia, maior precisa ser a clareza sobre limites, supervisão e responsabilidade.
Essa discussão já faz parte da atuação da Abradi. O GuIA, Guia de Inteligência Artificial para Marketing Digital, lançado em parceria com a ABRIA e atualizado em 2026, reúne conteúdos sobre aplicações práticas, tendências, ética, privacidade e governança. A associação pode contribuir justamente aproximando esse debate da realidade de empresas que já utilizam IA diariamente e compartilhando experiências sobre o que funciona, onde estão os riscos e quais controles são efetivamente úteis.
É possível, portanto, defender duas coisas ao mesmo tempo: que o mercado continue experimentando e que a experimentação seja acompanhada de responsabilidade; que o Brasil amplie o acesso à inovação global e, ao mesmo tempo, desenvolva capacidade própria. Para uma entidade que representa empresas na linha de frente da transformação digital, essa é uma discussão central.
Porque a velocidade da tecnologia não é o único indicador de inovação. A capacidade de usá-la bem, entender seus limites e construir competências próprias também faz parte da maturidade de um mercado.
• Por: Lucas Garcia, presidente nacional da Associação Brasileira de Agentes Digitais (Abradi).