O mercado nunca destinou tantos recursos às startups quanto agora. No primeiro semestre de 2026, o venture capital global atingiu um recorde de US$510 bilhões, superando sozinho todo o volume investido em 2025, de acordo com a Crunchbase. O dado poderia sugerir um ambiente de competição cada vez mais intenso entre investidores. O que se observa, porém, é o oposto. Justamente quando há mais capital disponível, cresce o número de rodadas estruturadas por múltiplos fundos de Corporate Venture Capital (CVC). O coinvestimento se tornou um reflexo de como a inovação passou a ser construída: de forma mais distribuída, complementar e colaborativa.
Esse movimento costuma ser interpretado como uma maneira de diminuir a exposição financeira. Embora essa leitura faça sentido, ela explica apenas parte da história. Se o objetivo fosse somente compartilhar risco, bastaria reduzir o tamanho dos cheques. O avanço do coinvestimento na verdade demonstra que as empresas passaram a reconhecer que a capacidade de desenvolver soluções com potencial de transformar mercados dificilmente estará concentrada em uma única organização.
Essa percepção é consequência da própria evolução das tecnologias que hoje atraem os maiores volumes de investimento. Inteligência artificial, biotecnologia, climate tech, infraestrutura de dados ou saúde digital não dependem apenas de capital para ganhar escala. São mercados que exigem conhecimento técnico, capacidade regulatória, acesso a clientes, infraestrutura operacional e conexões com diferentes cadeias produtivas. Em outras palavras, o sucesso de uma startup depende cada vez mais da qualidade do ecossistema que se forma ao seu redor.
É justamente nesse contexto que o coinvestimento ganha uma dimensão estratégica. Quando diferentes CVCs participam de uma mesma rodada, cada corporação leva para a mesa ativos distintos. Uma pode acelerar a validação comercial da solução, outra contribuir com conhecimento regulatório, enquanto uma terceira abre portas para novos mercados ou complementa capacidades tecnológicas. O investimento conjunto não representa apenas uma injeção de recursos, mas a conexão de competências que dificilmente estariam reunidas sob o mesmo teto.
Essa lógica também altera a forma como as corporações enxergam seus próprios programas de CVC. Durante muito tempo, havia um incentivo para liderar rodadas e estabelecer relações exclusivas com startups consideradas estratégicas. Hoje, a abordagem passa a ser participar dos negócios mais promissores ao lado dos parceiros capazes de potencializar seu desenvolvimento. Em muitos casos, abrir espaço para outros investidores aumenta as chances de sucesso da empresa e, consequentemente, do próprio investimento.
Para as startups, essa mudança representa um ganho igualmente importante. Em vez de acessar apenas uma grande corporação, elas passam a construir relacionamento com organizações que oferecem benefícios complementares. Isso amplia oportunidades comerciais, acelera processos de validação e reduz barreiras para expansão. O capital continua essencial, mas passa a ser acompanhado por ativos que, muitas vezes, são ainda mais difíceis de obter.
Naturalmente, esse modelo exige um nível maior de coordenação entre os investidores. Compartilhar uma rodada significa alinhar expectativas, estabelecer mecanismos claros de governança e preservar a autonomia da startup mesmo diante de interesses corporativos distintos. Esse equilíbrio não é simples, e tende a se tornar uma competência cada vez mais importante para os fundos que pretendem ampliar sua influência no ecossistema de inovação.
Nesta estratégia, a competição continua existindo, mas deixa de acontecer na origem do investimento e passa a se concentrar na capacidade de transformar tecnologia em valor para o mercado. À medida que os desafios se tornam mais complexos e interdependentes, a principal vantagem de uma corporação não está em liderar uma rodada sozinha, e sim na habilidade de reunir os parceiros certos em torno de uma mesma tese.
• Por: Guilherme Skaf Amorim, diretor de Corporate Venture Capital do Grupo Marista.