Especialistas explicam como o sono, estresse e alimentação podem estar conectados.
Acordar com dor ou tensão na mandíbula, ter dores de cabeça, apresentar um sono não reparador e, ao mesmo tempo, conviver com refluxo, distensão abdominal ou alterações no funcionamento do intestino são situações que podem parecer desconectadas. No entanto, cada vez mais estudos investigam como o sono, o estresse, o sistema gastrointestinal, a microbiota e os mecanismos de dor se comunicam e podem influenciar diferentes aspectos da saúde.
É nesse contexto que as especialistas, Simone Levy, cirurgiã-dentista e Leticia Machado, nutricionista funcional vêm discutindo a possível relação entre bruxismo, intestino e nutrição. A conexão, no entanto, não significa que problemas intestinais causem bruxismo, ato involuntário de ranger ou apertar dos dentes. A literatura disponível ainda não permite estabelecer essa relação de causa e efeito. O que existe são evidências de que esses fatores podem compartilhar mecanismos relacionados ao sono, estresse, inflamação e percepção da dor.
— O bruxismo é uma condição multifatorial e não deve ser analisado de forma isolada. Existe uma hipótese, ainda em investigação, de que alterações da microbiota intestinal possam participar de mecanismos relacionados ao bruxismo por meio do eixo intestino-cérebro, influenciando fatores como estresse, inflamação e sono. Entretanto, ainda não temos evidências clínicas suficientes para afirmar que a disbiose cause bruxismo ou que seu tratamento seja, por si só, uma terapia comprovada para o problema— explica a cirurgiã-dentista e membro da Sociedade Internacional de Bruxismo Simone Levy.
Quando o bruxismo vem acompanhado de outros sinais — O bruxismo pode ocorrer durante o sono ou em vigília e está associado a diferentes fatores. No caso do bruxismo do sono, estudos apontam alterações na arquitetura do sono e maior frequência de microdespertares. Na prática, isso pode fazer com que uma pessoa durma por várias horas, mas ainda assim acorde cansada, apresente sonolência durante o dia ou sinta tensão e dor ao despertar.
De acordo com a nutricionista Leticia Machado, é comum encontrar pacientes que chegam ao consultório inicialmente por queixas gastrointestinais, estresse ou alterações relacionadas ao sono e que também apresentam sinais sugestivos de bruxismo.
—Na minha prática clínica, alguns pacientes chegam com queixas de refluxo, distensão abdominal, gases, alterações do hábito intestinal, estresse crônico ou sono não reparador e, durante a avaliação, relatam ou apresentam sinais que podem estar associados ao bruxismo. Isso não significa que uma condição esteja necessariamente causando a outra, mas mostra a importância de olhar para o paciente de forma integrada e, quando necessário, encaminhá-lo para uma avaliação odontológica— afirma Leticia.
Segundo a nutricionista, o objetivo não é encontrar uma suposta “causa intestinal” para o bruxismo, mas entender se existe um conjunto de fatores que pode estar contribuindo para o quadro.
— Quando avalio um paciente com bruxismo, não olho apenas para o que ele come. Procuro entender como está o sono, o funcionamento intestinal, a presença de refluxo, a diversidade alimentar, o consumo de fibras, a ingestão de cafeína, os horários das refeições, o nível de estresse e a presença de dor. A partir desse conjunto de informações, conseguimos identificar quais fatores merecem atenção e podem ser modulados de acordo com as necessidades individuais —explica.
A importância do olhar multidisciplinar — Para as especialistas, o principal ponto dessa discussão é evitar uma visão fragmentada do paciente. Uma pessoa com bruxismo pode precisar de avaliação odontológica, investigação do sono, de hábitos alimentares e comportamentais, acompanhamento médico, psicológico e, quando houver associação entre o bruxismo, queixas gastrointestinais e outros sinais e sintomas clínicos como cansaço ou dificuldade de concentração, pode se fazer necessário um acompanhamento nutricional.
— O tratamento do bruxismo não deve ser reduzido a uma única causa ou a uma única abordagem. O papel do dentista é fundamental no diagnóstico e no acompanhamento odontológico, mas podemos precisar conversar com outros profissionais quando existem fatores relacionados ao sono, estresse, alimentação ou saúde gastrointestinal. O mais importante é não transformar uma associação em causalidade, mas também não ignorar os sinais que o paciente apresenta —afirma Simone.
Para Leticia, a lógica é semelhante: —Não estamos falando simplesmente de bruxismo causado por disbiose. Estamos falando de uma rede em que sono, estresse, intestino, microbiota, inflamação e dor podem se comunicar. A alimentação é um dos elementos que podemos utilizar para modular parte desse sistema, quando isso faz sentido para aquele indivíduo —conclui.