Na esteira ainda os novos hábitos, sobre isso e mais, a Peers Consulting + Technology analisa os resultados trimestrais do Grupo GPA, Assaí e Mateus.
O segundo trimestre de 2026 confirmou um padrão que já vinha se repetindo: a operação melhora, mas o resultado final ainda não acompanha. Com os três nomes deste report divulgados — GPA e Assaí primeiro, e o Grupo Mateus por último, em 13 de agosto (quinta-feira), — essa leitura se confirmou para o setor inteiro, analisa especialista da Peers Consulting + Technology.
O GPA levou a margem Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, sigla em inglês)ajustada a 10,6%, mesmo com receita 9,6% menor; o Assaí praticamente dobrou o lucro líquido contábil no ano; e o Grupo Mateus melhorou a rentabilidade na comparação trimestral, mas viu o lucro cair quase 40% na comparação anual. Nenhum dos três números conta a história completa: o GPA segue no vermelho e ainda está em recuperação extrajudicial, o salto de lucro do Assaí só existe porque o segundo trimestre de 2025 foi fraco, e a melhora do Mateus vem sobre uma base de custos que a própria empresa cortou à força, fechando lojas e demitindo milhares de funcionários. — Em todos os três, as vendas mesmas lojas ficaram estagnadas ou caíram, pressionadas por juros altos, alimentos ainda baratos e o avanço do GLP-1 sobre o consumo — e o Mateus foi quem sentiu isso de forma mais aguda, com SSS de -8,0% no trimestre—mensura a consultoria.
Desempenho dos principais players: Grupo Pão de Açúcar (GPA) — A receita líquida somou R$ 4,23 bilhões no segundo trimestre de 2026 (-9,6% a/a). A queda não é acidental, é fruto de uma escolha deliberada por rentabilidade acima de volume, com a descontinuação de canais menos rentáveis (caso do e-commerce de menor margem) e o fechamento de lojas deficitárias. As vendas em mesmas lojas (SSS), ainda assim, recuaram só 0,8% ajustado pelo efeito calendário. O Pão de Açúcar, voltado a um público de renda mais alta, mostrou mais resiliência que as bandeiras populares Mercado Extra e Mini Extra, que perderam força em maio e junho.
O Ebitda ajustado cresceu 7,3% a/a, para R$ 450 milhões, com a margem subindo 1,7 p.p., para 10,6%. O motor foi a redução de despesas administrativas, que mais que compensou a pressão pontual sobre a margem bruta. No semestre, a companhia já capturou R$ 244 milhões em cortes de custos e despesas, 58,9% da meta anual de R$ 415 milhões.
A melhora operacional, porém, não chegou à última linha, o prejuízo líquido consolidado subiu para R$ 252 milhões (R$ 217 milhões no segundo trimestre de 2025). Olhando só as operações continuadas, a perda atribuída aos controladores foi de R$ 204 milhões, pressionada por uma despesa financeira líquida de R$ 385 milhões (+26,4% a/a). O lado bom ficou no balanço, já que a administração apontou queda de mais de 50% na dívida bruta dentro da recuperação extrajudicial, e o capex caiu 52,5% no trimestre, preservando caixa enquanto o plano aguarda homologação judicial.
Assaí — A receita bruta somou R$ 21,4 bilhões no segundo trimestre de 2026 (+2,4% a/a) e a receita líquida atingiu R$ 19,2 bilhões (+0,9%), com vendas em mesmas lojas de +0,9%. O desempenho foi sustentado por um fluxo recorde de clientes (mais de 40 milhões por mês, +3,4% a/a) e por um ganho de 0,3 p.p. em participação de mercado, mesmo em um trimestre ainda marcado pela deflação de alimentos e pela Copa do Mundo, que reduziu o fluxo em dias de jogo (impacto de cerca de 1 p.p. no SSS, segundo a companhia).
A margem bruta avançou 0,4 p.p., para 17,1%, com lucro bruto de R$ 3,27 bilhões (+3,2% a/a). Já o Ebitda ajustado (pré-IFRS16) ficou praticamente estável, em R$ 1,07 bilhão, com margem de 5,6%, um recuo marginal de 0,1 p.p. ante o segundo trimestre de 2025. Isso reflete a maturação das lojas mais recentes e a expansão de serviços como açougue, padaria e a nova unidade de farmácia.
O lucro líquido contábil (pré-IFRS16) somou R$ 537 milhões, mais que dobrando (+103,4% a/a) sobre uma base de comparação fraca; em bases recorrentes, o avanço foi de 93,6%, para R$ 344 milhões. A alavancagem caiu para 2,37x dívida líquida mais recebíveis sobre Ebitda, o menor nível desde o terceiro trimestre de 2021, ante 3,17x um ano antes, com geração de caixa operacional de R$ 3,3 bilhões nos últimos 12 meses. A expansão da rede segue contida (313 lojas, estável no semestre), mas a companhia avança em novas frentes, como o piloto de farmácias dentro de lojas, a parceria com o Mercado Livre e um crescimento de 237% nas vendas via iFood.
Grupo Mateus — A receita líquida somou R$ 9,85 bilhões no segundo trimestre de 2026 (+12,2% a/a; +4,8% t/t), puxada pela consolidação plena do Novo Atacarejo, pelo crescimento do atacado B2B e pelo avanço do segmento Eletro. O SSS consolidado, que isola esse efeito de M&A, ficou negativo em 8,0% no trimestre (ante alta de 6,1% no segundo trimestre de 2025), o pior indicador entre os três players do setor neste trimestre, refletindo consumo pressionado, famílias endividadas e a redução das vendas no canal Balcão do atacarejo, movimento que já vinha do primeiro trimestre de 20. Por operação, o SSS foi de -6,0% no núcleo histórico (Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia) e de -13,6% nas operações herdadas do Novo Atacarejo (Pernambuco, Paraíba e Alagoas), sinal de que a integração ainda pesa mais nessa frente.
A margem bruta ficou em 23,5% (+0,6 p.p. t/t), com lucro bruto de R$ 2,31 bilhões (+10,4% a/a). As despesas operacionais caíram 1,3% na comparação trimestral e recuaram de 17,4% para 16,4% da receita líquida, reflexo direto da reestruturação que fechou 28 lojas e cortou cerca de 6,6 mil postos de trabalho entre o fim de 2025 e o primeiro trimestre de 20. Com isso, o Ebitda (pós-IFRS16) saltou 25,5% na comparação trimestral, para R$ 681,6 milhões, com margem de 6,9% (+1,1 p.p. t/t), ainda assim, 1,9 p.p. abaixo do segundo trimestre de 2025, o que mostra que a base de comparação anual segue dura.
O lucro líquido atribuído ao Grupo Mateus somou R$ 236,8 milhões, alta de 11,2% t/t, mas queda de 39,3% a/a, com margem líquida de 2,4%. O resultado também foi pressionado por uma despesa não recorrente de R$ 35 milhões ligada a um pagamento de ICMS de períodos anteriores. Do lado positivo, a companhia reduziu o ritmo de capex (R$ 162,2 milhões, -36,5% a/a) e melhorou o ciclo de conversão de caixa para 42 dias (-15 dias a/a), terminando o trimestre com dívida líquida de R$ 1,09 bilhão e alavancagem de 0,51x Ebitda ajustado (pré-IFRS16), patamar ainda confortável. A expansão seguiu seletiva: 313 unidades em operação (+7 no trimestre), incluindo a estreia no varejo farmacêutico com a primeira loja da bandeira Mix Toureiro Farma, em parceria com a ASJ Holding.
Perspectivas e Tendências para o Setor — Eficiência operacional segue descolada da linha de receita. Os três players mostraram que, mesmo com vendas fracas ou em queda, é possível expandir margem via disciplina de custos, mix de canais e maturação de lojas. O Grupo Mateus é talvez o exemplo mais didático do trimestre: cortou cerca de 6,6 mil postos de trabalho e fechou 28 lojas deficitárias entre o fim de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, e já colhe parte do resultado disso, com o Ebitda subindo 25,5% na comparação trimestral mesmo com o SSS ainda em queda. Essa dinâmica deve continuar enquanto a demanda do consumidor de menor renda permanecer pressionada por juros e endividamento.
Diversificação de serviços dentro da loja ganha tração, e já começa a ganhar preço, e agora reúne os três grandes nomes do setor. O Assaí Farma, que abriu a primeira unidade em julho e projeta mais de 250 farmácias até 2028, já é avaliado pelo Itaú BBA em um VPL de aproximadamente R$ 650 milhões, com TIR estimada de 45% por loja madura. O GPA segue em direção parecida com formatos de proximidade e retail media, cujos aplicativos de fidelidade somam hoje 82% de penetração entre os clientes das lojas. E o Grupo Mateus entrou na mesma corrida em junho, com a estreia da bandeira Mix Toureiro Farma em parceria com a ASJ Holding. O crescimento futuro do setor deve vir cada vez mais de serviços agregados ao ponto de venda, com o varejo farmacêutico virando disputa direta entre as três maiores redes do país.
No GPA, o desfecho da recuperação extrajudicial continua sendo o catalisador a observar, e o caminho ficou um pouco mais acidentado nas últimas semanas. O plano já tem adesão de 57,5% dos créditos sujeitos, cerca de R$ 4,6 bilhões, mas seis credores apresentaram impugnações à Justiça de São Paulo, alegando conflito de interesse na relação do GPA com o Itaú Unibanco e questionando o prazo único definido para adesão e contestação. A companhia nega irregularidades e diz manter confiança na homologação, porém o mérito das impugnações só será julgado junto com a própria homologação do plano, o que preserva alguma incerteza sobre o timing da desalavancagem projetada pela administração.
Desafios e Oportunidades (Visão Macro) — Oportunidades: a conclusão bem-sucedida da recuperação extrajudicial do GPA eliminaria a principal fonte de incerteza sobre a companhia, ainda que as impugnações recentes sugiram um caminho menos linear do que o cronograma original indicava. A diversificação de receita via farmácias, serviços financeiros e marca própria oferece uma rota de expansão de margem menos dependente do ciclo de commodities, e agora conta com os três players remando na mesma direção, já que o Grupo Mateus também estreou no varejo farmacêutico neste trimestre. O ganho de eficiência operacional observado nas três companhias, por fim, cria um colchão de rentabilidade para quando a demanda voltar a acelerar.
Desafios: os juros elevados seguem como o principal obstáculo, tanto para o consumidor endividado, que reduz o ticket médio, quanto para as próprias companhias, cujo resultado financeiro negativo consome parte relevante do Ebitda. A retomada do crescimento de vendas em bases mais fortes ainda não apareceu de forma consistente em nenhuma das três companhias. O Grupo Mateus, que reportou por último, confirmou ser o mais pressionado do trio: SSS de -8,0% no trimestre (o pior entre os três) e lucro líquido 39,3% menor na comparação anual, mesmo com a melhora sequencial de rentabilidade. A origem do problema é dupla, consumo mais fraco nas regiões Norte e Nordeste e a integração ainda incompleta do Novo Atacarejo, cujas operações em Pernambuco, Paraíba e Alagoas registraram SSS de -13,6% no trimestre, quase o dobro da queda do núcleo histórico da companhia.