A analista de Macroeconomia do escritório InvestSmart XP, Sara Paixão, comentou sobre os impactos do novo programa de recompra de títulos de longo prazo, anunciado pelo Tesouro Norte-americano esta semana, sobre o mercado. A especialista analisou, ainda, os impactos da medida para o mercado brasileiro.
— O Tesouro dos Estados Unidos anunciou esta semana um programa de recompra de títulos de longo prazo, com vencimentos entre 10 e 30 anos, com o objetivo de aumentar a liquidez no mercado de Treasuries, após os rendimentos desses papéis atingirem o maior patamar desde 2007. O anúncio contribuiu para aliviar as taxas dos títulos de 10 anos, que passaram de 4,71%, antes da intervenção, para 4,64%. A medida começa efetivamente no dia 9 de setembro. O resultado também contribuiu para desvalorizar o dólar contra as demais moedas e aumentar a atratividade de comodities metálicas e criptoativos. Apesar do efeito imediato sobre os rendimentos, o movimento acendeu alguns alertas entre os participantes do mercado.
A divulgação do programa ocorre em um momento em que a dívida pública americana atingiu aproximadamente US$ 40 trilhões. Trata-se de um volume expressivo de endividamento, que precisa ser continuamente refinanciado a um custo significativamente superior ao observado nas últimas décadas, quando os juros americanos permaneceram, em grande parte do período, próximos de 0% a 2% ao ano. Além disso, o anúncio da recompra altera a dinâmica esperada de emissão de Treasuries e levanta questionamentos sobre a composição da dívida americana.
Isso porque, para recomprar títulos de prazo mais longo, o Tesouro precisa, realizar novas emissões para financiar a operação. Caso essas emissões se concentrem em vencimentos mais curtos, há um encurtamento do prazo médio da dívida, aumentando a sensibilidade do custo de financiamento do governo à trajetória dos juros de curto prazo. Com isso, a dívida pública americana se torna mais dependente da dinâmica de política monetária do Federal Reserve.
Esse ponto ganha relevância diante da possibilidade de o FED precisar manter uma política monetária restritiva por mais tempo. Parte do mercado, inclusive, considera a possibilidade de novas altas dos juros de curto prazo caso a inflação permaneça pressionada. Mesmo em um cenário sem novas elevações, a precificação de juros elevados por um período prolongado já representa um risco para o custo de refinanciamento da dívida americana.
Na prática, portanto, a recompra de Treasuries pode melhorar a liquidez e aliviar pontualmente os rendimentos dos títulos longos, mas não altera os fatores estruturais que contribuíram para a elevação do prêmio de risco de longo prazo.
Entre esses fatores está, em primeiro lugar, o elevado nível de endividamento do governo americano e a necessidade de rolagem de um estoque cada vez maior de dívida em um ambiente de juros mais altos. Soma-se a isso o aumento das emissões de dívida por grandes empresas de tecnologia, que passaram a disputar espaço na carteira dos investidores com os Treasuries, movimento que tem alguma semelhança com a competição observada no Brasil entre títulos públicos e instrumentos de crédito isentos de imposto, por exemplo. Outro fator relevante é a mudança na dinâmica do mercado japonês. O Japão é um dos principais investidores estrangeiros em Treasuries e, com a elevação dos juros domésticos, os ativos japoneses passam a oferecer uma alternativa mais atrativa aos investidores locais.
Para o Brasil, esse movimento também contribuiu para aliviar a curva de juros no dia do anúncio e a redução dos títulos de longo prazo do tesouro americano e elevação da liquidez do mercado tendem a serem positivos para os ativos de risco de risco de países emergentes— conclui o comenta´rio Sara Paixão, analista de Macroeconomia da InvestSmart XP.