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21/08/2026

SLC Agrícola registra R$ 245,1 milhões no 2T26

Alta de 75,3% ante o mesmo período em 2025.

A safra finalmente chegou ao resultado: a SLC Agrícola encerrou o segundo trimestre de 2026 com receita líquida de R$ 2,18 bilhões, alta de 16,8% a/a e recorde para um segundo trimestre, sustentada pelo maior volume comercializado (806,1 mil toneladas, +14,4% a/a) em algodão, soja e, principalmente, milho segunda safra, cujas vendas saltaram 69,5%. O lucro bruto avançou 43,5% a/a, para R$ 941,2 milhões, levando a margem bruta a 43,3% (+8,1 p.p.), expansão que a própria companhia atribui a custo unitário mais baixo e a um mix de fazendas mais favorável, não a preço, que ficou praticamente estável nas principais culturas.

O lucro líquido saltou 75,3% a/a, para R$ 245,1 milhões, bem acima da mediana de mercado de R$ 191,8 milhões compilada pela LSEG. Mas o ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, sigla em inglês) ajustado conta uma história mais morna: R$ 580,6 milhões, alta de apenas 4,3% a/a, com margem Ebitda recuando 3,2 p.p., para 26,7%, e

ficando cerca de 18% abaixo do consenso. O motivo do descolamento entre lucro bruto e ebitda é técnico: a marcação a valor justo do ativo biológico contribuiu com R$ 278 milhões desse lucro bruto, quase o triplo do ano anterior, e esse ganho contábil não passa pelo Ebitda ajustado, ao mesmo tempo, despesas de venda com frete e armazenagem cresceram 61% a/a, refletindo o custo de escoar uma safra maior.

O ponto que concentrou a atenção dos analistas não foi o resultado, foi o caixa: o fluxo de caixa livre ficou negativo em R$ 805,3 milhões no trimestre, piora de 28,6% a/a, e a alavancagem subiu para 4,2x Ebitda. BTG, XP e Itaú BBA mantiveram recomendação de compra, mas todos destacaram a queima de caixa como o principal risco de curto prazo, sobretudo em um cenário de El Niño que já pressionou a produtividade do milho segunda safra (corte de 11% na estimativa), compensado, por ora, pela revisão positiva do algodão (produtividade revista para cima em 7% na primeira safra e 4% na segunda).

A companhia também acelerou seu movimento de certificação no trimestre: a área certificada em agricultura regenerativa (regenagri) cresceu 79% a/a e a certificação de rastreabilidade da soja (Origins) avançou 85% a/a, ritmo que sugere resposta a exigência de compradores internacionais, não apenas manutenção de um selo já consolidado desde 2021.

Raízen — O trimestre trouxe alívio operacional, mas não resultado: a Raízen reportou, em 13 de agosto, o trimestre equivalente ao segundo trimestre de 2026 (1º do ano-safra 2026/2027) com receita líquida de R$ 51,46 bilhões (+4,0% a/a) e Ebitda ajustado que mais que dobrou, para R$ 3,85 bilhões, puxado pela distribuição de combustíveis no Brasil (Ebitda ajustado +269% a/a, para R$ 3,54 bilhões, com margem por m³ saltando de R$ 142 para R$ 493). Na contramão, o EAB (Etanol, Açúcar e Bioenergia) sentiu o mesmo El Niño do milho da SLC: moagem de cana -2,0% a/a e Ebitda Do segmento em R$ 300,8 milhões, -63,1% a/a.

Mesmo com a melhora operacional, o resultado final segue no vermelho: prejuízo líquido de R$ 1,64 bilhão (-11% a/a), pressionado por um resultado financeiro negativo de R$ 2,97 bilhões (+42,4% a/a), já maior que o próprio Ebitda do trimestre, e pela recuperação extrajudicial, homologada em 30 de julho. A alavancagem ficou em 4,8x Ebitda, recuando ante 5,2x no trimestre anterior mas acima das 4,5x de um ano atrás; do lado positivo, capex -32,6% a/a e fluxo de caixa operacional saindo de consumo para geração de R$ 3,56 bilhões.

Para onde o setor caminha? . Ganho de margem bruta não é sinônimo de ganho de caixa. O segundo trimestre de 2026 da SLC é o retrato mais claro dessa dissociação no setor: margem bruta recorde conta caminhando junto com queima de caixa e alavancagem em alta. Para produtoras de commodities agrícolas, o timing entre reconhecimento contábil da safra (via ativo biológico) e o efetivo recebimento em caixa continua sendo a variável que separa o resultado percebido do resultado sentido pelo caixa.

. Disciplina de capital virou tema central, ainda que por caminhos opostos: a Raízen reduziu capex em 32,6% a/a e voltou a gerar caixa operacional após a homologação da recuperação extrajudicial, enquanto a SLC viu sua alavancagem subir para 4,2x Ebitda mesmo com lucro recorde. O setor entra na próxima safra sob pressão para equilibrar crescimento e geração de caixa, não apenas resultado contábil.

. El Niño e clima seguem como o principal risco de revisão de guidance no curto prazo. A SLC já revisou a produtividade do milho segunda safra para baixo por plantio fora da janela ideal e chuva insuficiente, ao mesmo tempo em que revisou o algodão para cima. Esse tipo de compensação cruzada entre culturas tende a se repetir no setor à medida que o El Niño avança pela safra 2026/2027.

. Na SLC, rastreabilidade e agricultura regenerativa migraram de diferencial para requisito comercial: a aceleração das certificações regenagri (+79% de área) e Origins (+85% a/a) mostra a companhia respondendo a uma exigência de mercado, não apenas mantendo uma política já vigente desde 2021. O mesmo movimento se estende ao restante do setor pela via da EUDR, que impõe comprovação de rastreabilidade também a exportadores de proteína animal, o que deve alcançar a Raízen indiretamente à medida que a regulação entra em vigor.