tokenizacao

11/08/2026

Tokenização cresce 122% no Brasil, mas o capital continua em casa

Mercado de ativos tokenizados duplica de valor, mas não indica mudança real de mentalidade do investidor brasileiro.

O mercado brasileiro de tokenização encerrou o primeiro semestre de 2026 com R$4,84 bilhões em emissões, alta superior a 122% sobre os R$2,17 bilhões do mesmo período de 2025, segundo o RWA Monitor. As captações também avançaram, de R$1,60 bilhão para R$3,00 bilhões.

Tokenizar é transformar um ativo em representação digital. Um imóvel de R$1 milhão pode ser dividido em 100 registros de R$10 mil, permitindo que vários investidores participem da renda de aluguel e negociem suas frações. A tecnologia reduz o tamanho mínimo do cheque e acelera a liquidação.

O crescimento, porém, é quase todo doméstico. Ainda segundo a pesquisa, o volume se concentra em operações sob as resoluções CVM 88 e CVM 160, majoritariamente crédito e recebíveis denominados em reais. Isso indica que, mesmo com a evolução da infraestrutura, o destino do capital segue estagnado.

Para Cristiano Maschio, especialista em patrimônio global, mercados privados e diversificação internacional, o descompasso revela uma questão de mentalidade, não de tecnologia. —O Brasil tem mercado de capitais mais profundo que o mexicano e um investidor mais escolarizado em produto financeiro. Mesmo assim está atrás em dolarização de patrimônio. A diferença não é técnica, é de repertório. O México conviveu com o dólar por vizinhança e por remessa, durante décadas. O Brasil conviveu com juro alto, que sempre ofereceu um motivo aparentemente racional para não sair de casa—diz.

A comparação com o vizinho latino-americano expõe uma inversão. O país com o mercado financeiro mais desenvolvido da região é também o mais concentrado. —O investidor mexicano já resolveu internamente a questão da moeda. Quando ele avalia um ativo americano, a pergunta é sobre o ativo: onde fica, quem ocupa, qual o prazo do contrato. No Brasil, a mesma conversa começa três passos atrás, explicando por que faz sentido ter patrimônio fora— explica.

Segundo o especialista, o efeito da taxa de juros brasileira sobre o comportamento do investidor costuma ser mal interpretado. O que pode parecer conservadorismo, proveniente do juro alto, demonstra, na verdade, uma tendência à concentração de capital e dificuldade em desenvolver ativos internacionais.

O cenário, no entanto, está mudando. —O que mudou não foi o apetite do investidor brasileiro. Foi o custo de entrada. Diversificação internacional deixou de ser conversa exclusiva de family office e virou decisão de alocação disponível para quem tem disciplina e informação de qualidade—conclui.