Estamos vivendo um paradoxo quando o assunto é uso da inteligência artificial. Em qualquer conversa com lideranças é possível verificar que, sim, a IA é presença constante na rotina de grande parte dos profissionais. No entanto, poucos saem do campo operacional e menos empresas ainda atrelam a tecnologia ao propósito, com aplicação alinhada à estratégia de negócio, com padronização.
O Brasil é o terceiro país em volume de interações com plataformas de IA, com mais de 2 bilhões de interações diárias. Ao mesmo tempo, 72% das empresas brasileiras ainda estão nos estágios iniciante ou experimental de adoção, segundo levantamento da Abiacom. Uso pesado, maturidade baixa. Barulho alto, impacto pequeno.
Esse é o retrato honesto do mercado: há muito hype, pouca estratégia e isso é, em grande parte, responsabilidade da liderança.
A questão atual para o líder não é mais se a empresa vai adotar inteligência artificial. É quando e, essencialmente, de que forma para que ela gere valor real ao negócio.
Eu acredito que nos próximos três anos muitas funções operacionais deixarão de existir, porque serão substituídas por robôs autônomos que assumirão estas tarefas. E não porque as pessoas sejam dispensáveis, mas porque o trabalho de baixo valor será executado por sistemas mais rápidos, mais baratos e disponíveis 24 horas.
Para os profissionais, a pergunta certa em torno deste assunto não é: ‘a IA vai me substituir?’ É: ‘o que eu farei com o tempo que ela me devolve?’”
A McKinsey aponta que 88% das organizações globais já usam IA regularmente em pelo menos uma função de negócio. Mas apenas um terço saiu da fase piloto para a escala real. O que separa esse terço dos demais não é tecnologia. É liderança com visão estratégica.
Todo mundo quer “usar IA”. Poucos sabem para quê. E essa é a armadilha mais comum que vejo nas empresas: implementam uma ferramenta, treinam a equipe num workshop de tarde, comemoram no LinkedIn — e três meses depois o uso caiu, o time voltou para o Excel e a plataforma está gerando custo, não resultado.
O problema é que a adoção foi tratada como um projeto técnico quando, na verdade, é uma transformação cultural. A cultura não muda com ferramenta, mas sim com comportamento. Especialmente o comportamento de quem está no topo.
O executivo que fala de IA em todo painel mas nunca mostrou à equipe como usa a ferramenta no próprio trabalho não está liderando. Ele precisa mostrar valor e conduzir o time, quebrar resistência e ampliar a visão de quem vai seguir com a empresa.
Tem gente que enxerga a IA como ameaça ao emprego. Outros a veem como brinquedo. A função do líder é quebrar os dois extremos, mostrando que a tecnologia não substitui julgamento, contexto e relação humana, mas libera as pessoas para se concentrarem exatamente nisso.
IA com estratégia e impacto real começa com a liderança usando e dando o exemplo. Sem isso, é só mais uma linha no orçamento.
A pergunta prática que todo líder deve se fazer é justamente essa: de que forma estou conduzindo meu time para que possa performar, quebrar resistência e utilizar a IA de modo que gere valor ao meu negócio?
O líder deve ser o primeiro a abraçar a tecnologia, escalando-a para a análise de indicadores, preparação de reuniões, síntese de relatórios, antecipação de cenários. A IA não está aí só para economizar tempo em tarefas repetitivas. Ela pode entregar inteligência analítica, cruzar dados de diferentes áreas e gerar insights que antes levavam semanas para chegar à sua mesa.
Criar uma cultura onde o não uso da IA tenha custo também é um passo fundamental. Quando a liderança demonstra que a ferramenta é parte do trabalho e não um extra, as pessoas mudam de postura.
O ganho real e em longo prazo será da empresa cujo líder sabe o que fazer com a IA para além da simples automação. É preciso gerir uma organização que usa a tecnologia para pensar melhor, decidir mais rápido e entregar mais valor.
• Por: Manoel Victor, entusiasta de estudos com IA, fundador e CEO da Marvee, primeira plataforma de gestão IA first do Brasil.