protese-quadril

29/06/2026

Envelhecimento aumenta busca por prótese de quadril, mas acesso ainda é desigual

País registrou mais de 250 mil artroplastias de quadril em uma década, com forte concentração regional, enquanto a população idosa cresce em ritmo acelerado.

O Brasil envelhece mais rápido do que sua rede de saúde consegue acompanhar. A população com 60 anos ou mais saltou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024, um avanço de 53,3% em pouco mais de uma década, segundo a Síntese de Indicadores Sociais divulgada pelo IBGE. No mesmo intervalo, a fatia de idosos na população passou de 11,3% para 16,1%.

Esse novo perfil etário pressiona um tipo específico de atendimento ortopédico: a cirurgia de quadril. Com o avanço da idade, aumenta a incidência de artrose na articulação e de fraturas do fêmur proximal, dois quadros que costumam terminar na indicação de prótese. A conta demográfica ajuda a entender por que a procura tende a subir nos próximos anos.

Os números do Sistema Único de Saúde já mostram a dimensão dessa demanda e também revelam um desequilíbrio que pesa sobre quem precisa do procedimento longe dos grandes centros.

Uma década e mais de 250 mil cirurgias — Levantamento com base no DATASUS aponta que, entre 2012 e 2021, o SUS registrou 251.413 procedimentos de artroplastia de quadril em todo o país. O dado dá uma medida do volume de pessoas que chegaram ao estágio em que a substituição da articulação se tornou o caminho indicado pelo ortopedista.

A técnica mais empregada no período foi a artroplastia total não cimentada, responsável por 33,1% dos casos, seguida da artroplastia parcial, com 29,2%. A escolha entre os métodos depende da idade do paciente, da qualidade do osso e do motivo que levou à cirurgia, se uma artrose avançada ou uma fratura recente.

O cálculo do SUS cobre apenas a rede pública. Quando se somam os procedimentos realizados na saúde suplementar e na rede particular, o total de cirurgias de quadril feitas no país no mesmo período é maior, ainda que parte desses registros não esteja consolidada em uma base única.

O envelhecimento por trás da demanda — A pressão sobre esse tipo de cirurgia acompanha a mudança na pirâmide etária brasileira. Pelas Tábuas de Mortalidade de 2024, do IBGE, quem chega aos 60 anos vive, em média, mais 22,6 anos.

Em 1940, esse número era de 13,2 anos. O ganho de quase uma década de vida após os 60 significa mais tempo de uso das articulações e mais anos em que a artrose pode evoluir.

As projeções reforçam a tendência. Pela revisão de 2024 das Projeções da População do IBGE, cerca de 37,8% dos brasileiros terão 60 anos ou mais em 2070. O país caminha para uma estrutura em que o público potencial para tratamentos ortopédicos ligados ao desgaste articular será bem maior do que o atual.

A esperança de vida ao nascer no Brasil chegou a 76,6 anos em 2024, ante 71,1 anos em 2000, conforme dados do IBGE. O ganho de longevidade carrega um efeito menos comentado: condições associadas ao desgaste do corpo, antes restritas a uma parcela menor da população, passam a atingir um número maior de pessoas que vivem mais e querem manter autonomia e movimento por mais tempo.

De acordo com o time médico do COE, clínica especializada em ortopedia em Goiânia, a artrose de quadril é a principal porta de entrada para a prótese. A doença desgasta a cartilagem que reveste a articulação e provoca dor na virilha, na lateral do quadril e na coxa, além de rigidez e perda progressiva de movimento.

Em fases iniciais, o tratamento é conservador. Quando a cartilagem se esgota e a dor passa a limitar tarefas simples, como calçar um sapato ou subir escadas, a cirurgia entra em discussão.

Quando a dor no quadril precisa de avaliação especializada Parte do problema está no tempo que separa os primeiros sintomas do diagnóstico correto. A dor da artrose de quadril costuma ser atribuída a esforço muscular, a problemas de coluna ou ao próprio envelhecimento, o que adia a investigação. Quanto mais tarde o quadro é identificado, maior a perda de função e menor o leque de tratamentos disponíveis.

Diante de uma dor persistente na virilha ou na lateral do quadril que atrapalha caminhar, dormir ou agachar, ortopedistas recomendam não esperar o agravamento para conversar com um cirurgião de quadril, já que a avaliação precoce amplia as opções de tratamento e pode adiar ou evitar a cirurgia.

A consulta especializada permite distinguir a artrose de outras causas de dor na região, como tendinites, bursites e o impacto femoroacetabular, condição que atinge adultos mais jovens e que, sem tratamento, acelera o desgaste da articulação. O exame físico detalhado e a leitura de imagens definem o estágio do problema e orientam a conduta.

A desigualdade regional concentra o acesso — Se a demanda é nacional, o acesso não é. O mesmo levantamento do DATASUS mostra que a região Sudeste concentrou 50,8% das artroplastias de quadril feitas no SUS entre 2012 e 2021. As regiões Norte e Nordeste responderam por 1,8% e 13,7%, respectivamente, percentuais muito abaixo do peso dessas populações no total do país.

A concentração tem efeitos práticos. Pacientes de regiões com menor oferta de serviços especializados acabam viajando para outros estados ou aguardando longos períodos na fila, enquanto a doença avança. Em uma articulação que perde função de forma progressiva, o tempo de espera tem custo clínico real.

Essa lógica ajuda a explicar a importância dos centros de referência fora do eixo Rio-São Paulo. O Centro-Oeste, por exemplo, firmou polos de atendimento ortopédico que recebem pacientes de cidades vizinhas e de outros estados, reduzindo o deslocamento de quem precisa de avaliação e cirurgia de quadril.

Da avaliação à decisão pela prótese A indicação da prótese não é automática. Conforme ortopedistas de quadril em Goiânia, a decisão pela cirurgia só é tomada depois de esgotadas as alternativas conservadoras, como fisioterapia, controle de peso, fortalecimento muscular e uso de medicação para dor e inflamação.

A prótese entra em cena quando a dor se torna constante, resiste ao tratamento clínico e compromete a rotina. Nesses casos, a substituição da articulação por um implante alivia a dor e devolve mobilidade. A evolução dos materiais e das técnicas nas últimas décadas ampliou a durabilidade dos implantes e tornou comum a recuperação funcional após o procedimento.

“A reabilitação começa ainda nos primeiros dias após a cirurgia, com fisioterapia voltada a recuperar a força e a amplitude de movimento”, destaca Dr. Tiago Bernardes, médico de quadril referência em Goiânia.

O tempo de retorno às atividades varia conforme a idade, o tipo de implante e a condição física prévia do paciente, mas boa parte das pessoas operadas volta a caminhar sem dor e retoma tarefas que havia abandonado por causa do desgaste da articulação. O acompanhamento periódico com o ortopedista segue por anos, para monitorar o desempenho do implante ao longo do tempo.

A experiência internacional dá a medida do crescimento esperado. Nos Estados Unidos, estimativas citadas em estudos da área projetam que o número anual de artroplastias totais de quadril pode ultrapassar 635 mil até 2030, ante cerca de 193 mil registradas em 2005. O Brasil, com envelhecimento acelerado, segue a mesma direção, ainda que em escala e ritmo próprios.

O que está em jogo para a próxima década — O encontro entre uma população que envelhece depressa e uma rede de atendimento concentrada em poucas regiões define o cenário da cirurgia de quadril no Brasil. De um lado, mais pessoas vivendo mais tempo e chegando à idade em que a artrose se manifesta. De outro, um acesso que ainda depende muito de onde o paciente mora.

O diagnóstico precoce continua sendo o ponto que mais altera o resultado. Identificar a artrose antes que a cartilagem se esgote permite tratar com medidas conservadoras por mais tempo e, quando a cirurgia se torna necessária, chegar a ela em melhores condições.

Para um país que terá mais de um terço da população na faixa idosa nas próximas décadas, organizar essa porta de entrada deixou de ser questão de futuro e passou a ser tarefa do presente.