Nessa sexta, dia 12, terminou a 114ª Conferência da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em Genebra. Durante dias, representantes de 187 países discutiram temas fundamentais para o futuro do trabalho, como inteligência artificial, economia de plataforma, igualdade de gênero e proteção social. São debates necessários e urgentes. Mas, ao acompanhar as discussões, uma ausência me chamou a atenção: a de milhões de profissionais que hoje vivem uma pausa em suas carreiras.
Falo de quem interrompeu temporariamente sua trajetória para cuidar de familiares, enfrentar questões de saúde, buscar qualificação, lidar com o desemprego ou simplesmente reorganizar a própria vida. São trabalhadores que continuam se desenvolvendo e planejando seu retorno, mas raramente aparecem nas grandes mesas de decisão.
Em estudo realizado no ano passado pelo Instituto Entre Atos, os dados revelaram um padrão estrutural: as mulheres pausam principalmente para cuidar de outras pessoas, enquanto os homens costumam chegar à pausa por desemprego. Porém, nos dois casos, quando tentam retornar ao mercado, enfrentam períodos mais longos de afastamento e obstáculos significativamente maiores.
Enquanto os debates internacionais buscam compreender as transformações do trabalho, essas pessoas já vivem, na prática, uma das mudanças mais profundas do século XXI: o fim da ideia de que toda carreira precisa ser linear.
As pausas intencionais estão crescendo. Conceitos como mini-sabáticos e microaposentadorias ganham espaço entre profissionais mais jovens. Outras pesquisas apontam que a maioria das pessoas gostaria que as empresas reconhecessem formalmente períodos de pausa e criassem mecanismos estruturados para acolher quem retorna.
Esse movimento já está acontecendo em escala global. O comportamento dos trabalhadores mudou. As expectativas mudaram. As trajetórias mudaram. O que ainda não mudou na mesma velocidade é a capacidade das organizações de compreender essa nova realidade.
Reconhecer a pausa não significa incentivar a interrupção do trabalho. Significa aceitar que carreiras são feitas de ciclos, e que experiências de cuidado, recuperação, aprendizado ou reinvenção não diminuem o valor de um profissional.
Ao término da conferência em Genebra, recomendo uma reflexão. Entre todas as cadeiras ocupadas por governos, empregadores e trabalhadores, ainda existe uma cadeira vazia. Ela representa milhões de pessoas que estão temporariamente fora do mercado, mas cujo retorno depende de políticas que ainda não existem.
A pausa não é o fim de uma carreira. É apenas um espaço entre os atos dela. E nenhum intervalo deveria custar o espetáculo inteiro.
• Por: Tetê Baggio, fundadora do Instituto Entre Atos.