Envelhecimento da população e avanço da osteoartrite elevam o número de cirurgias de substituição articular no Brasil, segundo dados do SUS.
A dor que começa ao subir escadas e termina impedindo uma caminhada simples tem levado mais brasileiros à sala de cirurgia. A artroplastia de joelho, conhecida pelo público como prótese, deixou de ser um procedimento reservado a poucos casos e passou a figurar entre as cirurgias ortopédicas mais realizadas no país.
Levantamentos publicados no Brazilian Journal of Health Review, que analisaram registros do DATASUS entre 2014 e 2023, identificaram um crescimento de 52% no volume de artroplastias de joelho no período pós-pandemia, depois de uma queda de 32% durante o isolamento social.
Parte do salto se explica pelo represamento de cirurgias eletivas. A outra parte tem causa mais profunda: o envelhecimento da população e o avanço da artrose acima dos 60 anos.
A doença que desgasta a articulação aos poucos — A artrose, também chamada de osteoartrite, é uma doença degenerativa que provoca o desgaste progressivo da cartilagem que reveste as articulações. O joelho está entre as regiões mais atingidas por uma razão mecânica simples. Ele sustenta boa parte do peso do corpo e absorve impacto a cada passo, cada degrau e cada agachamento.
A relação com a idade é direta. Estimativas da Organização Mundial da Saúde apontam que cerca de 60% das pessoas acima de 50 anos já apresentam algum grau de degeneração articular, percentual que sobe para 80% entre quem passou dos 70.
No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam que mais de 15 milhões de pessoas convivem com algum grau de artrose, com forte concentração entre os idosos.
O peso corporal pesa nessa conta de forma literal. Cada quilo extra acrescenta cerca de quatro quilos de carga sobre o joelho durante a caminhada. Por isso a obesidade entra na lista dos fatores que aceleram o desgaste, ao lado de lesões antigas de menisco e ligamentos, fraturas mal consolidadas e desvios no eixo da perna.
Por que o número de cirurgias subiu — O aumento das artroplastias não é um fenômeno apenas brasileiro. A literatura ortopédica internacional mostra que as cirurgias de joelho crescem em ritmo maior do que as de quadril, movidas pelo envelhecimento populacional e pela obesidade.
No Brasil, estima-se que sejam feitas cerca de 70 mil artroplastias de joelho por ano, número que tende a subir conforme a pirâmide etária se inverte.
Há também um componente social. O acesso mais amplo aos serviços de saúde nas últimas décadas trouxe à fila pacientes que antes conviviam com a dor sem tratamento.
Soma-se a isso o desejo de manter qualidade de vida e atividade física depois dos 60 anos, algo que a geração anterior aceitava perder com mais resignação.
O peso econômico de um procedimento que se multiplica — A escala do procedimento explica por que ele virou tema de estudos socioeconômicos. Nos Estados Unidos, somente em 2005, cerca de 500 mil próteses de joelho consumiram aproximadamente US$ 11 bilhões.
Na Austrália, o mesmo tipo de cirurgia custou um bilhão de dólares australianos em 2015. São números que ajudam a dimensionar o que um país com população envelhecendo passa a gastar com substituição articular.
No Brasil, o Sistema Único de Saúde concentra boa parte dessa demanda, e a distribuição é desigual. Estudos com base em dados do Ministério da Saúde apontam que as regiões Sul e Sudeste registram a melhor relação assistencial em artroplastias por habitante, enquanto outras áreas ficam para trás.
O recado para gestores e para o setor privado de saúde é claro: a pressão por essas cirurgias deve crescer na próxima década.
Quando o tratamento conservador deixa de bastar — A prótese não costuma ser o primeiro passo. Diante de uma artrose inicial ou moderada, o tratamento começa por medidas conservadoras: controle de peso, fisioterapia para fortalecer a musculatura ao redor do joelho, medicação para dor e, em alguns casos, infiltração de ácido hialurônico para lubrificar a articulação.
Esse arsenal funciona por um tempo. O problema aparece quando a cartilagem já se desgastou a ponto de osso roçar contra osso, situação em que a dor passa a limitar tarefas básicas e o sono.
Procurar a orientação de um médico de joelho logo nos primeiros sinais ajuda a estender a fase conservadora e a adiar a cirurgia, ainda que não a evite para sempre quando o desgaste é severo.
É justamente nos quadros de artrose avançada que a substituição da articulação ganha espaço. Quando o tratamento clínico se esgota, a prótese deixa de ser uma escolha entre alternativas e passa a ser a via que devolve mobilidade e alívio da dor ao paciente.
A técnica que evoluiu nas últimas décadas — A primeira artroplastia total de joelho foi realizada em 1974. De lá para cá, o procedimento mudou bastante. A cirurgia consiste em substituir a articulação desgastada por componentes de metal e polietileno que reproduzem o movimento natural do joelho. O ganho recente está na precisão.
Tecnologias como a navegação por computador e os sistemas robóticos colaborativos permitem ao cirurgião planejar o corte ósseo e posicionar o implante com margem de erro menor. Esse refinamento técnico melhora o alinhamento, fator que influencia diretamente a durabilidade do implante e a recuperação de quem opera.
Os resultados acompanham essa evolução. Estudos da literatura ortopédica mostram que cerca de 90% das próteses de joelho duram mais de 20 anos, com índices altos de satisfação e retorno a atividades como caminhar, dirigir e viajar.
Em Goiânia, que se firmou como um dos polos de saúde do país, o ortopedista Dr. Ulbiramar Correia é um dos profissionais que adotam navegação computadorizada e cirurgia robótica na substituição da articulação, técnicas voltadas a aumentar a previsibilidade do resultado.
O preparo que define o resultado — Especialistas chamam atenção para um ponto pouco discutido: a prótese não deve ser decidida na pressa, no meio de uma crise aguda de dor. O paciente que chega à cirurgia bem preparado, com peso sob controle e musculatura preservada, tem recuperação mais rápida e desfecho melhor.
Esse preparo envolve fisioterapia pré-operatória, ajuste de doenças associadas como diabetes e hipertensão e, quando necessário, perda de peso antes do procedimento. A pressa em operar sem essa preparação costuma cobrar o preço na reabilitação, que se torna mais longa e dolorosa.
O que considerar antes da decisão — A indicação cirúrgica leva em conta o grau de desgaste visto em exames de imagem, a intensidade da dor, a limitação funcional e a resposta aos tratamentos anteriores.
Não existe idade fixa para operar, embora a maioria dos casos se concentre acima dos 60 anos. O que pesa é o quanto a artrose interfere na rotina e a falência das medidas conservadoras.
Outro fator é a escolha da equipe e do serviço. A decisão por uma prótese de joelho costuma passar por uma conversa franca sobre expectativas, tempo de reabilitação e tipo de implante, já que o resultado depende tanto da técnica cirúrgica quanto do empenho do paciente na recuperação.
Próteses customizadas para a anatomia de cada pessoa também entraram no leque de opções, exigindo planejamento prévio da cirurgia.
O caminho mais seguro continua sendo o tempo — O crescimento das próteses de joelho no Brasil reflete uma combinação de população que envelhece, artrose que avança e técnica cirúrgica que amadureceu.
Para quem convive com a dor, o percurso mais seguro segue o mesmo de sempre: diagnóstico precoce, tratamento conservador bem conduzido e, quando ele se esgota, uma decisão tomada com calma e preparo, longe do auge da crise.
A cirurgia, hoje, oferece bons resultados a quem chega até ela no momento certo e com as expectativas no lugar.