Por trás de muitos comportamentos existem dores emocionais silenciosas. Aquilo que parece simples e comum para muitos pode ser devastador para outros, representando sofrimento e angústia. É o caso da rotina de higiene que realizamos diariamente ao tomar banho ou, até mesmo, simplesmente lavar as mãos. Esse contato com a água, para quem sofre com um transtorno chamado Ablutofobia, representa um verdadeiro pavor. A água pode provocar ansiedade, medo, pânico e sensação de invasão e insegurança.
Esse tipo de situação pode parecer familiar quando lembramos da infância e revivemos um personagem da Cascão. Ele poderia ser, perfeitamente, um forte candidato a manifestar a ablutofobia, devido ao seu medo intenso da água. Mas essa disfunção mental é mais comum do que imaginamos. Muitas pessoas sofrem apenas por enfrentar o chuveiro. Esse medo invisível e silencioso afeta o corpo, a mente e a autoestima.
Muitas pessoas que convivem com esse transtorno podem apresentar sintomas apenas ao pensar ou imaginar o contato com a água, tais como: angústia, irritabilidade, culpa, vergonha, medo, sensação de desespero, ansiedade extrema, sudorese intensa, taquicardia, tremores, tontura, falta de ar e náuseas. Do ponto de vista comportamental, o isolamento social e o sofrimento antecipatório são consequências reais para aqueles que evitam tomar banho, lavar as mãos, escovar os dentes, lavar o cabelo ou até mesmo praticar o autocuidado.
Não existe uma causa específica. Cada pessoa pode desenvolver a ablutofobia por um ou mais fatores associados. É comum que o sofrimento mental esteja relacionado a fatores emocionais e experiências traumáticas vividas, como afogamentos, violência na infância, abusos físicos, sexuais ou psicológicos durante o banho, experiências de humilhação, criação rígida, transtornos de ansiedade ou Transtorno obsessivo-compulsivo. Além disso, a textura da água também pode ser um fator relevante, principalmente em pacientes hipersensíveis ou com questões relacionadas a estímulos sensoriais.
A ablutofobia pode atingir qualquer pessoa, em qualquer idade. Porém, é mais evidente em crianças, pessoas neurodivergentes, indivíduos com transtornos de ansiedade e idosos com histórico de experiências traumáticas. Esse sofrimento psíquico, sem dúvida, pode afetar o comportamento e as relações do indivíduo, trazendo consequências como necessidade de isolamento, vergonha social, baixa autoestima, dificuldade nos relacionamentos e agravamento de sintomas depressivos.
A terapia é o principal tratamento, aliada a técnicas de relaxamento. Em casos mais graves, pode ser necessária a administração medicamentosa adequada. Por meio do autoconhecimento e da intervenção terapêutica correta, é possível identificar as causas, mapear gatilhos e estabelecer estratégias para minimizar o medo, reduzir a ansiedade e devolver qualidade de vida ao indivíduo.
Portanto, é fundamental compreender que comportamentos disfuncionais associados à dor emocional contínua precisam ser investigados para minimizar e cessar o desequilíbrio mental. A ablutofobia é um dos transtornos psicológicos que reforçam que gestos cotidianos podem esconder sofrimentos profundos. Nem todo medo é visível, mas todo sofrimento merece acolhimento. Toda fobia carrega uma história emocional que precisa ser ouvida, e o julgamento apenas afasta e impede que percebamos que o corpo evita aquilo que a mente associa à dor.
• Por: Dra. Andréa Ladislau, psicanalista.