Para o Rio Fashion Week, a Normando apresentou a “Natureza Morta”, coleção inédita com 35 looks femininos e masculinos desenvolvidos a partir de técnicas manuais complexas e do uso de materiais como lã, seda, algodão pima, liocel e látex, em um desfile com styling de Guilherme Alef, direção de Ed Benini e casting com nomes como Julia Barucci, Marcelle Bittar e Carol Ribeiro.
A natureza sempre encontra seu lugar de volta.
Toda natureza morta é, no fundo, uma natureza que aguarda. Os frutos pintados e postos sobre a mesa não estão parados, estão em processo. O que esse gênero artístico trás e o que a pintura capturou não foi um instante fixo, foi o momento exato em que a matéria orgânica lembra ao observador que ela não pertence à tela, mas que ela pertence ao ciclo.
E no contexto amazônico, essa frase é quase um fato geológico. A floresta já esteve onde estão as cidades. Ela se lembra e com a paciência de quem tem raízes, ela vai voltando pela fresta do muro, pelo telhado abandonado, pela semente que o vento deixou no canto da calçada, centímetro a centímetro, sem pressa ela retoma seu espaço, sem negociação.
Nessa coleção objetos, elementos carregados de símbolos e significados tomam o palco, como o matapi: armadilha de pesca — próprio para pegar camarão nos rios amazônicos— trançada em palha pelos povos indígenas da Amazônia, é talvez o objeto mais rigorosamente geométrico já produzido manualmente neste continente. Sua espiral não decorou nenhum salão. Ela capturou o sustento de gerações. Mas olhe para ela com atenção: ela é o módulo que o Art Déco nativista brasileiro passou décadas tentando reinventar.
As folhas do açaizeiro, aqui emaranhadas sobre blazers, vestidos e saia, são um tratado sobre o ritmo. Cada pina disposta ao longo do ráquis repete e varia, repete e varia; Como uma música que só tem dois acordes. O Tambatajá e Tajá, aqui como camisaria, com sua folha larga e nervurada que cresce às margens dos rios e que os povos indígenas usam para embrulhar, cobrir e transportar, é ao mesmo tempo plano e volume, superfície e abrigo, carregadas de misticismos.
A cuia indígena, tornada à geometria pela mão que a escava, reaparece nesta coleção como o recipiente que é, mas também como a pergunta mais antiga da Natureza Morta: oque o objeto contém quando está vazio? O que significa dispor uma cuia sobre uma superfície e olhar para ela até que ela deixe de ser utensílio e se torne forma pura?
O látex que escorreu das seringueiras amazônicas no ciclo da borracha, construiu fortunas e destruiu povos. Nesta coleção, ele reaparece não como matéria inocente, mas como matéria com memória. A floresta sangrou e coagulado se tornou aqui indumentárias.
Ferreira Gullar colocou bananas podres dentro de um poema e o poema não apodreceu. Fez o inverso: ficou mais vivo. As bananas podres que Ferreira Gullar convocou em sua poesia concreta não estavam sendo cruéis com a fruta. Estavam sendo honestas com o tempo. A Natureza Morta sempre soube que sua tarefa não é preservar, mas sim testemunhar. O apodrecimento não é falha da representação; é o tema. A banana que apodrece nas telas é a mesma que irá apodrecer na cesta e aqui trazemos essa estampa de cascas de bananas podres, assim como ela materializada em uma das peças do desfile, essa equivalência entre estamparia, pintura, simulação do real e processo biológico é uma afirmação sobre o que significa representar e re significar um alimento e elemento tão banal e cotidiano quanto a Banana.

O bronze oxidado é comumente visto em obras que ornamentam edifícios de caráter Art Deco pelo Rio de Janeiro assim como monumentos imponentes, aqui não foi escolhido pela nobreza do metal. Foi escolhido pela ação do tempo, a pátina, o verdigris, que cobre de memória e que se desenvolve quando a umidade decide que já chega de escultura e que a natureza vai retomar o que lhe pertence. Não há gesto mais eloquente sobre o tempo do que uma estátua sendo lentamente consumida pelo ar que a cerca. o bronze oxidado fecha o ciclo como imagem de uma floresta que não aceita ser decoração passiva ela reage, ela toma de volta. O bronze oxidado é a natureza morta que respira. É a Natureza Morta recusando seu próprio nome.
Este desfile dispõe sobre a passarela o matapi, o tambatajá e tajá, a cuia, o látex da Amazônia que aparece ora na sua forma mais simples, ora simulando as folhas do açaizeiro, o bronze oxidado que a floresta está tomando de volta, e a banana preta de
Gullar como lembretes: de que beleza e decomposição são os mesmos processos vistos de ângulos diferentes e que a natureza não negocia o tempo. Não é um inventário. É uma mesa posta. | Vídeo do desfile: https://shre.ink/LQjc
Perfil — Normando é uma marca brasileira, com origem na Amazônia, que produz coleções prontas para vestir, acessórios e peças sob medida, desenhadas pelo estilista Marco Normando, diretor criativo da marca. Graduado em Moda pela Universidade da Amazônia e com dez anos de experiência no mercado de moda, Marco Normando trabalhou no estilo de grandes nomes da moda nacional antes de abrir a Normando, locais em que aprendeu muito sobre técnicas de alfaiataria e acabamentos. Junto a Marco, trabalha o artista visual e publicitário Emídio Contente, também formado pela Universidade da Amazônia e sócio da marca, que realiza trabalho de pesquisa desde a concepção de coleção até a maneira como as peças são apresentadas ao público. Marco Normando e Emídio Contente são de Belém do Pará, no coração da Amazônia. E É da Amazônia que a dupla traz de suas vivências, referências para as peças e coleções, assim como matéria-prima sustentável vinda da floresta, como o látex amazônico, como substituto ao couro animal e a jarina, uma semente da floresta que é esculpida e substituta ao marfim animal. Em 2022, Normando foi uma das marcas brasileiras celebradas na primeira edição do “Vogue Celebra” promovido pela Vogue Brasil/Globo Condé Nast.