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18/03/2026

Obesidade como questão de Estado: para além da responsabilidade individual

A obesidade nos encontra em uma encruzilhada civilizatória. O que antes era tratado de forma simplista como uma “falha de vontade individual” consolidou‑se como o maior desafio de saúde pública da década. As evidências atuais são claras: a obesidade é uma doença crônica, complexa, de curso recorrente, resultante da interação entre genética, biologia, ambiente, fatores socioeconômicos e determinantes culturais, e não uma simples questão de “força de vontade”. Dados recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do sistema Vigitel revelam que não estamos apenas diante de uma questão de estética ou bem‑estar, mas de uma emergência econômica e social.

Globalmente, o cenário é de proporções colossais: mais de 1 bilhão de pessoas vivem com obesidade, e cerca de 2,5 bilhões têm excesso de peso. O World Obesity Atlas 2025 projeta que, até 2030, aproximadamente metade da população adulta do planeta terá sobrepeso ou obesidade, o que significa que o mundo está fora da trajetória para cumprir as metas globais de controle das doenças crônicas não transmissíveis. No entanto, é o recorte brasileiro que deve acender o sinal de alerta máximo em nossos gestores públicos e na sociedade civil.

Segundo o último balanço do sistema Vigitel, fechado no segundo semestre de 2025, o Brasil atingiu o recorde de 24,8% de sua população adulta com obesidade, enquanto 61,4% vivem com excesso de peso. Em menos de duas décadas, a obesidade praticamente dobrou entre adultos brasileiros, e a proporção de pessoas com obesidade grave cresce ainda mais rápido que a obesidade “moderada”. Esses números colocam a obesidade no centro da carga de doenças crônicas no país, com impacto direto em diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e vários tipos de câncer.

O dado mais perturbador de 2026, contudo, é o perfil geracional desse avanço. Pela primeira vez na série histórica, a faixa etária entre 18 e 24 anos registrou o maior crescimento percentual anual de novos casos de obesidade, sinalizando que estamos “aposentando” a saúde de nossos jovens precocemente. A causa passa por uma tempestade perfeita: a onipresença de alimentos ultraprocessados, a banalização do consumo de bebidas açucaradas e snacks de baixo valor nutricional e um ambiente urbano que desestimula a vida ativa. Estudo nacional já havia demonstrado que mais de um quarto do aumento da obesidade no Brasil entre 2002 e 2009 pode ser atribuído à expansão dos ultraprocessados na dieta, o que mostra que o problema está muito mais nas prateleiras e nas telas do que no “prato individual”.

Estigma da rede social — É aqui que precisamos enfrentar uma narrativa perigosa, amplificada diariamente nas redes sociais: a ideia de que obesidade seria, basicamente, uma “escolha individual” de quem não adere a hábitos saudáveis. Essa visão é cientificamente equivocada e eticamente injusta. Revisões recentes mostram que tratar a obesidade como falta de disciplina alimenta estigma, preconceito e até piores desfechos de saúde, inclusive maior risco de depressão, ansiedade e até ganho adicional de peso, em um círculo vicioso. Há evidências robustas de que o estigma do peso não melhora a saúde de ninguém; ao contrário, está associado a maior mortalidade, pior controle de doenças crônicas e menor adesão aos próprios serviços de saúde.

Obesidade não é uma escolha, assim como câncer ou demência não são escolhas. Pessoas vivendo com obesidade carregam uma combinação de fatores genéticos, epigenéticos, hormonais e ambientais que alteram o controle da fome, da saciedade e do gasto energético, tornando a perda e, principalmente, a manutenção do peso um desafio biológico e não apenas comportamental. Reduzir isso à narrativa “basta fechar a boca e ir à academia” não apenas ignora a ciência, como transfere para o indivíduo a culpa por uma doença que é produzida, em grande parte, por um ambiente obesogênico construído por decisões políticas, econômicas e regulatórias.

Farmacologia em alta — É inegável que vivemos a “era de ouro” da farmacologia, com medicamentos modernos que mimetizam os hormônios intestinais e prometem perdas de peso significativas. Esses tratamentos são um avanço importante para casos clínicos graves e devem ser incluídos, de forma responsável e equitativa, no arsenal terapêutico do SUS. Mas a tecnologia médica, embora essencial, não pode ser a única resposta do Estado. O custo global da obesidade ultrapassou os 3 trilhões de dólares anuais em 2025, somando gastos diretos em saúde e perda de produtividade, e nenhum sistema — nem mesmo o robusto SUS — suportará, sozinho, a conta de tratar as complicações de uma epidemia que continua sendo alimentada diariamente pelo ambiente em que vivemos.

Se aceitarmos que obesidade é uma doença crônica, precisamos dar o próximo passo lógico: tratá‑la como tal nas políticas públicas. A OMS e diversos organismos internacionais já defendem abordagens integrais que combinem prevenção e cuidado, incluindo regulação de oferta e marketing de alimentos, criação de ambientes que favoreçam atividade física e ampliação do acesso a serviços especializados em manejo da obesidade. No Brasil, isso significa coragem política para avançar na regulação de publicidade infantil, especialmente de ultraprocessados; na tributação mais severa de bebidas açucaradas e produtos com excesso de sal, açúcar e gorduras; e no subsídio real ao alimento in natura e minimamente processado.

Ambiente desfavorável — Combater a obesidade não é apontar o dedo para o indivíduo, mas oferecer a ele opções reais de escolha. Hoje, as escolhas “saudáveis” são, muitas vezes, as mais caras, as menos acessíveis e as menos disponíveis nos territórios de maior vulnerabilidade social, enquanto as calorias baratas, ultraprocessadas e ubíquas são a norma. Quando o ambiente conspira contra o corpo, falar em “responsabilidade individual” isoladamente beira a crueldade. A responsabilidade que falta não é a do cidadão comum, mas a de governos, formuladores de políticas e da indústria em reconhecerem que obesidade é uma doença e que precisa ser tratada como tal.

O desafio que se impõe ao Brasil é transformar os recordes negativos de 2025 em políticas públicas de impacto em 2026. Isso inclui integrar metas de prevenção e cuidado da obesidade em planos nacionais de saúde, incorporar linhas de cuidado específicas na atenção primária e na saúde ocupacional, garantir acesso a tratamento multidisciplinar e incluir, de maneira regulada e justa, terapias farmacológicas e cirúrgicas quando indicadas. A saúde de uma nação se mede também pela cintura de seu povo, e o Brasil, infelizmente, está ficando sem fôlego. Não porque “falta esforço individual”, mas porque ainda falta reconhecer, de forma efetiva, que obesidade é doença, é questão de direitos humanos e é, sobretudo, um problema de Estado.

Por: Verônica El Afiouni Endocrinologista e Metabologista. Ela é médica especialista em Endocrinologia e Metabologia, integrando o time do INKI — plataforma de consultas médicas particulares de excelência. Atua como professora de pós-graduação na Universidade Cruzeiro do Sul e possui formações em Nutrologia, Psicanálise e Mindfulness, além de estar cursando pós-graduação em Transtornos Alimentares. Sua trajetória inclui cursos em Harvard e Yale, evidenciando seu compromisso com uma medicina atual, humana e baseada em evidências.