suinocultura

13/03/2026

Vacinas combinadas e o equilíbrio entre imunidade, desempenho e bem-estar na suinocultura moderna

A busca por eficiência produtiva na suinocultura moderna passa pelo controle sanitário de agentes respiratórios de alta relevância econômica. Entre eles, Mycoplasma hyopneumoniae (M. hyo) e o circovírus suíno tipo 2 (PCV2) destacam-se pela ampla distribuição e pelo impacto conjunto sobre o desempenho e o bem-estar dos animais. A presença de ambos agrava quadros clínicos e subclínicos, contribuindo para a manifestação do Complexo de Doenças Respiratórias dos Suínos (CDRS).

O M. hyo é reconhecido como o agente primário da pneumonia enzoótica. A infecção leva à perda da integridade dos cílios brônquicos, inflamação persistente e comprometimento da troca gasosa, com reflexos diretos sobre a conversão alimentar e o ganho médio de peso diário. Já o PCV2, particularmente em sua variante genotípica d, atualmente predominante em rebanhos comerciais, exerce efeito imunossupressor significativo. Essa característica favorece infecções secundárias e amplifica os efeitos deletérios de coinfecções respiratórias. A concomitância desses agentes na granja representa não apenas uma ameaça sanitária, mas também um fator de comprometimento do bem-estar fisiológico e comportamental dos suínos.

Diante desse quadro, torna-se essencial adotar estratégias preventivas que reduzam a pressão infecciosa sem comprometer o equilíbrio fisiológico dos animais. É nesse contexto que o avanço da imunoprofilaxia, nas últimas duas décadas, consolidou a vacinação como o principal pilar de controle das enfermidades na granja. Ainda assim, o sucesso dessa prática depende de um manejo vacinal cuidadoso, capaz de equilibrar a eficácia imunológica e o bem-estar dos animais. Contenções repetidas e manipulações intensas elevam os níveis plasmáticos de cortisol, hormônio associado à resposta ao estresse, o que inibe a atividade de linfócitos e compromete a eficiência da resposta vacinal. Por essa razão, a simplificação dos protocolos, por meio de formulações combinadas e de dose única, não apenas reduz o estresse físico e comportamental, mas também potencializa a eficácia imunológica.

Nesse cenário de aprimoramento contínuo, a evolução recente da tecnologia vacinal introduziu um novo paradigma: a vacinação combinada, que reúne antígenos contra M. hyo e PCV2 em uma única formulação. Essa abordagem vai além da conveniência operacional, refletindo uma compreensão mais integrada da imunidade, da fisiologia e do comportamento animal. Do ponto de vista imunológico, a combinação de antígenos exige formulações cuidadosamente elaboradas. O desafio técnico está em garantir que a resposta imune contra um agente não interfira na do outro, mantendo níveis adequados de soroconversão, duração de imunidade e proteção tecidual.

Estudos recentes demonstram que vacinas desenvolvidas sob esse princípio atingiram resultados expressivos. Em pesquisa publicada por Sagrera et al. (2025), leitões vacinados com uma formulação combinada apresentaram soroconversão mais precoce e consistente, mesmo na presença de anticorpos maternos, além de redução quase total da viremia e da excreção viral fecal. Também foi observada menor incidência e gravidade de lesões pulmonares, evidenciando controle eficaz sobre ambos os patógenos em nível clínico e subclínico.

Outros estudos, conduzidos por Trampe et al. (2025) e Krejci et al. (2025), reforçaram essas conclusões ao demonstrar proteção cruzada frente aos principais genótipos de PCV2 (a, b e d) e redução significativa nas cargas virais em órgãos linfóides e pulmonares. Além disso, foi confirmada proteção duradoura de até 23 semanas, um diferencial relevante para cobrir o ciclo produtivo completo, especialmente em sistemas de terminação prolongada.

Esses resultados comprovam que a associação de antígenos atualizados, como o PCV2d, e cepas de M. hyo de alta imunogenicidade pode gerar imunidade robusta e duradoura sem comprometer a resposta individual a cada agente. Sob a ótica produtiva, o uso de vacinas combinadas também contribui para o bem-estar animal. Ao permitir a proteção simultânea contra diferentes agentes em uma única aplicação, essas soluções reduzem o número de intervenções no manejo, diminuindo o estresse dos animais. Como resultado, observam-se efeitos positivos no desempenho produtivo, como melhor ganho de peso, maior uniformidade dos lotes e respostas imunológicas mais consistentes, especialmente quando a proteção contra Mycoplasma hyopneumoniae é efetiva.

Sob a perspectiva das boas práticas de produção, a vacinação combinada contribui ainda para a segurança operacional. A simplificação dos protocolos reduz o risco de erros na preparação ou aplicação de doses, assegura maior padronização e permite que a equipe de manejo direcione mais tempo a atividades preventivas e de monitoramento. Em um cenário de crescente demanda por sistemas produtivos sustentáveis, a eficiência sanitária aliada à redução do estresse animal traduz-se em ganhos econômicos e éticos.

A integração de antígenos atualizados, especialmente o PCV2d, hoje predominante em granjas comerciais, amplia o espectro de proteção e confere às vacinas combinadas relevância epidemiológica imediata. Essa evolução tecnológica permite respostas imunológicas mais adequadas à realidade de campo, considerando as pressões infecciosas e a diversidade genética dos agentes circulantes. A consistência observada nas respostas sorológicas e nos parâmetros produtivos indica que a vacinação combinada não apenas substitui esquemas anteriores, mas estabelece um novo padrão de equilíbrio entre imunidade, desempenho e bem-estar animal.

A trajetória da imunização contra M. hyopneumoniae e PCV2 ilustra como a inovação científica pode transformar o conceito de prevenção em uma estratégia integrada de produção. As vacinas combinadas representam, portanto, mais do que uma ferramenta técnica: são a expressão de uma suinocultura orientada por ciência, responsabilidade sanitária e respeito ao bem-estar animal. |.Equipe Técnica da Ceva Saúde Animal.

Referências: Calveyra et al. Prevalence of Porcine Circovirus genotypes in samples from Brazilian farms analyzed between 2020 and 2024. ESPHM, 2025; Krejci, R. et al. Cross-protection and long-term immunity of a novel combined PCV2d and M. hyopneumoniae vaccine. Veterinární Medicína, 2025; MAES, D. et al. Update on Mycoplasma hyopneumoniae infections in pigs: knowledge gaps for improved disease control. Transboundary and Emerging Diseases, 2018; Sagrera, et al. Evaluation of immune response and viral shedding in piglets vaccinated with a combined PCV2d–M. hyopneumoniae vaccine. 2025; Segalés, J.; Sibila, M. Understanding PCV2-associated diseases and control strategies. Porcine Health Management, 2022; Trampe, A. et al. Experimental comparison of combined PCV2d–M. hyopneumoniae vaccines in pigs. Viruses, 2025.