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13/03/2026

Petróleo a US$ 80 pode levar inflação de 3,4% para 5% em 2026, aponta estudo do Daycoval

Um estudo autoral do DPEc do Banco Daycoval propõe que choque no petróleo pode elevar inflação com pressão maior em preços administrados no curto prazo e em preços de serviços no médio prazo.

—Atual choque nos preços do petróleo possui efeitos importantes sobre as projeções de inflação e mais importante do que o tamanho do choque é qual patamar/trajetória o preço do petróleo vai assumir após o período do conflito.

Ao utilizar versão do modelo de projeções do BC e considerar o preço do petróleo em US$ 80, as projeções de inflação se elevam de 3,4% para 5,0% em 2026 e de 3,2% para 3,7% no 3° tri de 2027 (atual horizonte relevante – HR – para a política monetária).

⁠No curto prazo (2026), o aumento dos preços administrados é o principal canal de pressão sobre o IPCA, em especial devido aos efeitos sobre os combustíveis. No médio prazo (HR), o aumento em serviços é o destaque. Via inércia, o principal canal de transmissão é a inflação total mais elevada.

Caso os preços do petróleo subam para US$ 80 e retornem aos níveis pré-conflito após seis meses do início do choque, os efeitos sobre o HR podem ser até baixistas.

Na última reunião de política monetária do Banco Central (Copom), a avaliação do comitê era de que embora existam desafios para a convergência da inflação, como o mercado de trabalho apertado, a inflação corrente tem apresentado surpresas benignas e, portanto, o grau de aperto poderia começar a ser reduzido na reunião de março. Ou seja, o BC sinalizou o início de cortes de juros. Com o conflito no Oriente Médio, os preços do barril do petróleo se elevaram drasticamente, saindo de cerca de 60 dólares no início de janeiro e superando os 100 dólares nos primeiros 10 dias de março. Na margem, com as declarações de que o conflito poderia chegar ao fim em breve, houve alguma melhora, mas ainda permanecendo em patamar elevado. Não há clareza de fato quando o conflito se encerrará e se as incertezas diminuirão de modo à permitir que o preço do petróleo retorne ao nível pré-conflito.

Dado que a desinflação tem ocorrido fundamentalmente devido ao comportamento benigno dos preços em reais das commodities, a elevação do preço do petróleo aumenta as dúvidas quanto a trajetória de inflação à frente.

Ao utilizar versão do modelo de projeções do BC, busca-se entender quais são os impactos sobre a inflação para este ano e para o horizonte relevante (HR) para a política monetária (3° tri de 2027), com especial atenção para a composição da inflação nesses períodos. Verifica-se que as projeções de inflação antes do conflito (petróleo em torno de 60 dólares) estavam em 3,4% e 3,2% para 2026 e no 3° tri de 27, respectivamente. Considerando o preço do barril de petróleo no patamar de 80 dólares, a projeção de inflação deste ano salta para 5% e para o HR para 3,7%, distanciando-se da meta de 3%. Supondo taxa de câmbio mais apreciada (R$/US$ 5,10), as projeções de inflação, ainda que em menor magnitude, se elevam.

É interessante notar que no curto prazo (2026), o principal canal de transmissão desse choque ocorre principalmente pelos preços administrados, em especial pelos seus efeitos sobre os combustíveis como a gasolina. Sendo assim, vale destacar que admite-se aqui que os aumentos do preço do petróleo sejam repassados integralmente, o que pode não ocorrer de imediato ou na mesma intensidade. De todo modo, o impacto potencial para este ano sobre administrados pode ser muito elevado e dado a menor persistência do choque ao longo do tempo, possui menor efeito no HR. Com petróleo acima de 100 dólares, o efeito é ainda mais expressivo.

Já os preços da alimentação no domicílio, embora também se elevem tanto este ano quanto no HR, os efeitos são mais modestos. Diferente da guerra na Ucrânia que ocasionou na restrição de oferta de produtos agropecuários importantes como o milho, agora a oferta agro global pode ser menos impactada. Contudo, este grupo tende a ser afetado pelos preços dos fertilizantes e fretes, o que por sua vez podem espelhar os efeitos adicionais do conflito, como a interrupção da rota de comércio na região.

Os bens industriais, por outro lado, tendem a sofrer impacto relevante nos dois períodos analisados. Em linhas gerais, a produção de bens tende a depender mais de energia, sendo mais sensível aos aumentos do preço do petróleo. Desde o ano passado os bem industriais tem mantido variação de preços mais comportada e, conjuntamente com os preços dos alimentos, são os destaques para a desinflação observada. Com esse choque altista de custos, a reversão desta melhora entra no radar.

Por fim, as projeção de serviços pode subir de 4,5% para 6,4% este ano e de 3,7% para 5,8% no horizonte relevante caso o preço do barril de petróleo passe a situar em 80 dólares. Fica nítido que os efeitos no médio prazo (HR) são ligeiramente maiores do que no curto prazo (2026). O principal canal de transmissão é a inflação total mais elevada que afeta, via inércia, os preços dos serviços.

Do ponto de vista da política monetária, embora esses efeitos devessem ter impactos mais limitados sobre o núcleo de inflação, a inflação potencialmente mais elevada traz desafios adicionais para o BC, sobretudo num ambiente com economia aquecida (hiato do produto em terreno positivo) e expectativas de inflação desancoradas em um ano eleitoral, cuja volatilidade da taxa de câmbio tende a aumentar. Um ponto importante, contudo, precisa ser feito. Em geral, após o fim do evento causador do choque, ou seja, com o fim do conflito, o preço do petróleo tende a retornar para sua trajetória antes do choque.

Caso isso ocorra, os efeitos sobre o curto prazo permanecem elevados, mas os efeitos sobre o HR tendem a ser mais limitados. Inclusive, dependendo da trajetória de retorno dos preços do petróleo ao patamar pré-conflito, a projeção de inflação no HR pode ficar abaixo da projeção antes do choque, dado o efeito rebote mais próximo ao HR.

Neste sentido, o atual choque nos preços do petróleo possui efeitos importantes sobre as projeções de inflação e mais importante do que o tamanho do choque é qual patamar/trajetória o preço do petróleo vai assumir após o período do conflito— conclui Daycoval.