“Vês alguma diferença entre cegos que seguem pelo caminho certo e aqueles que possuem uma opinião verdadeira a respeito de alguma coisa, mas sem ter a compreensão dessa mesma coisa? (Sócrates in A república de Platão).
Inteligência é capacidade só encontrada no organismo vivo, principalmente em razão da consciência ao lidar e se adaptar ao meio, como ocorrido com a humanidade, o que jamais poderá ser sentido, vivido ou reproduzido por sistemas. Capacidade que fez o ser humano criar e mantê-los e, em razão disso, dispõem de certas funções ou ações similares as humanas e de inegáveis valias, mas incapazes de gerar algo novo sem que atue o cérebro humano.
Transparece hoje ideia de que ignorância virou meta ou prêmio e, de modo inverso, busca por saber, por cultura está obsoleta. Vendem-se imagens, rótulos e produtos expondo ignomínias ou disseminando fatos ou ideias dissociados da realidade. Sistemas de redes sociais, por exemplo, têm criado gerações de incapazes de pensar e expor ideias próprias, que apenas copiam e colam ideias de outrem de forma célere, levando essas pessoas a confundir o real e fantasia ou fútil, inútil com o que realmente interessa aos demais e ao seu próprio engrandecimento como ser, para sua vida.
Não se propõe inutilizar ou abandonar sistemas ou equipamentos, seria estultice de minha parte pois, no presente, vali-me de editor de texto de inquestionáveis utilidades como a produção mais rápida, correção automática, layout etc. Mas é necessário falar de melhor uso de sistemas ou “inteligências”, atributo que, como já citado, aplica-se apenas a organismos vivos, criador e mantenedor daqueles que são meras bibliotecas de armazenamentos de informações gerais ou específicas que respondem a determinada demanda ou comando de um ser humano.
Houvesse sistema ao qual fosse confiado o destino da sociedade, certamente seria utilizado para largar de lado a própria ciência da qual se originou, ocupando-se, como ocorre no presente em relação a determinados sistemas, de assuntos os mais diversos, dentre os quais manipulatórios e desprovidos de fundamentos fáticos, dissociados da realidade sob os mais diversos e abjetos motivos ou argumentos. Submeter a sociedade a tutela ou poder é deixá-la vulnerável ao subjugo de pessoa, grupo ou grupos, refém da irracionalidade ou, em razão de indolência e inércia, ao abandono do poder cognitivo e do livre arbítrio.
Sistemas e algoritmos são preciosos instrumentos de promoção pessoal e empresarial, carregando incontestes benefícios, mas é, no mínimo, equivocado antropomorfizar máquinas ou sistemas. Uso indiscriminado tem levado à redução da capacidade de pensar das pessoas, desmotivando-as ao transferir seu esforço cerebral. Urge que o ser humano comum volte a pensar e utilizar a cognição que só ele dispõe, inclusive para que, ao utilizar sistemas e informações geradas, tenha discernimento de segregar o que é real do que não encontra qualquer ressonância na realidade, enfim, o pensar de verdade não é reduzível a algoritmos.
• Por: Menildo Jesus de Sousa Freitas, mestre em Contabilidade. Membro da Academia Mineira de Ciências Contábeis. Peito Contador aposentado do Ministério Público da União. Professor Universitário.