Especialista em comércio exterior Jackson Campos analisa os dois blocos e vê desgaste francês perante outros países europeus.
O acordo entre União Europeia e Mercosul vai sair do papel após 26 anos de negociação. A Itália, país considerado chave na votação do parlamento do velho continente, ficou favorável ao acordo após aprovação das ultimas salvaguardas e deixou a França isolada como maior oposição ao livre comércio entre os blocos econômicos.
Com tantos adiamentos na assinatura, a negociação gerou um grande desgaste no parlamento europeu, o que pode dificultar futuras negociações do bloco. Para o especialista em comércio exterior, Jackson Campos, a França sai como perdedora não somente por ser contrária ao acordo, mas também por todas as intensas movimentações que fez.
—Apesar de outros países como Polônia, Hungria e Irlanda terem manifestado sua contrariedade ao acordo, os franceses devem sair com a imagem arranhada por conta das movimentações mais incisivas que fez, isolando politicamente o país dentro do parlamento europeu e gerando um desgaste institucional desproporcional ao seu peso histórico nas negociações comerciais do bloco. Ao esticar o conflito em torno do acordo, Paris acabou transformando uma divergência setorial em um problema de governança interna, o que enfraqueceu sua capacidade de articulação junto aos demais membros. Esse imbróglio todo só piorou a situação de um continente que está estremecido—explica Campos.
Depois de aprovarem diversas salvaguardas e conseguirem adiar a assinatura, os franceses suspenderam a importação de produtos agrícolas que utilizem agrotóxicos proibidos na Europa, deixando clara a insatisfação dos agricultores com o acordo. O parlamento europeu ainda não se posicionou sobre o tema, mas é mais um momento de estresse entre os países.
Extremamente pressionado pelo agronegócio, o primeiro -ministro Emmanuel Macron deve anunciar medidas que acalmem os animos do setor, que se vê extremamente ameaçado com a possível entrada em massa de produtos sul-americanos no país, diminuindo a competitividade do produtor local.
—Esse movimento da França vai além de uma disputa comercial pontual e revela uma estratégia política para ganhar tempo e reforçar posições internas antes de qualquer avanço do acordo. Ao usar critérios ambientais como instrumento de pressão, Paris sinaliza que o debate não será apenas tarifário, mas regulatório e político, além de reforçar como questões sanitárias, ambientais e de soberania produtiva passaram a ser usadas como elementos centrais de barganha nas negociações comerciais com a União Europeia— avalia Jackson Campos.
O outro lado da moeda — Já para o Mercosul, a assinatura será recebida com bons olhos e abrirá oportunidade para que países sul-americanos tenham acesso a mercados e setores antes muito restritos e até mesmo pouco explorados. Mesmo com todas as salvaguardas propostas pelo parlamento europeu, o especialista acredita que o bloco liderado pelo Brasil deve aceitar as condições impostas pela UE.
—Não vejo muitas chances do Mercosul barrar os pedidos da Europa, mesmo que alguns tragam desvantagens para nós. É um acordo benéfico e que deve proporcionar para setores, como o farmacêutico e de automobilistico, o acesso a novas tecnologias e um avanço muito importante —afirma Campos.
No médio prazo, a conclusão do acordo também tende a reposicionar o bloco sulamericano no tabuleiro do comércio internacional, especialmente em um contexto de fragmentação das cadeias globais e de revisão das parcerias estratégicas da União Europeia. Com a desaceleração econômica do bloco europeu e a busca por novos fornecedores e mercados consumidores, a aproximação com a América do Sul ganha peso não apenas comercial, mas geopolítico.
—Para a UE, fechar esse acordo é uma forma de diversificar riscos e reduzir dependências em um cenário global cada vez mais instável. Já para o Mercosul, é uma chance de ganhar previsibilidade e relevância estratégica, ainda que isso venha acompanhado de concessões duras. É vantajoso para os dois lados, especialmente quando se analisa o momento atual das negociações globais—conclui Jackson Campos.
Saiba mais sobre Jackson Campos: atua com comércio exterior e relações governamentais há anos, o que o coloca em posição de destaque para abordar quaisquer desdobramentos relacionados à importação, exportação e comércio exterior. Campos também é embaixador da Logcomex, além de professor de logística internacional e produtor de conteúdo para o mercado de comércio exterior. O especialista possui facilidade em explicar todos os processos e etapas que fazem parte do ciclo de vida de um determinado produto, desvendando dados, estatísticas e revelando os percalços do comércio exterior. | www.jacksoncampos.com.br