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23/12/2025

Da regulamentação à revolução no ecossistema das deep techs no Brasil

Nos últimos anos, temos acompanhado um avanço significativo na criação de políticas públicas voltadas à ciência e tecnologia no Brasil. Mas, quando falamos de deep techs, empresas que nascem a partir de ciência e tecnologia de ponta, o desafio é mais complexo. Isso porque não basta replicar modelos que funcionam para startups digitais. É preciso criar um ambiente regulatório específico, que compreenda a natureza dessas empresas e suas necessidades únicas.

É nesse território desafiador que atuamos, como referência nacional, articulando soluções. Na Wylinka, nossa missão é clara: transformar ciência em impacto. Fazemos isso aproximando ciência e mercado, conectando pesquisadores, empreendedores e investidores, e liderando agendas que reposicionam o Brasil no cenário global da inovação. E nesse caminho, esbarramos constantemente em entraves burocráticos, jurídicos e institucionais que atrasam ou até inviabilizam a transformação do conhecimento em soluções concretas.

Hoje, o Brasil já ocupa uma posição de destaque na América Latina e está entre os países latino-americanos com o maior número de pesquisadores. Isso mostra que talento e produção científica nós temos. Falta um ambiente regulatório que permita a essas inovações florescerem.

Ainda enfrentamos, por exemplo, longos trâmites para formalizar acordos entre universidades e empresas, processos de licenciamento de patentes pouco ágeis, dificuldades na importação de insumos para pesquisa e a ausência de instrumentos jurídicos sob medida para parcerias público-privadas no setor científico. Além disso, muitas deep techs nascem com um pé no laboratório e o outro no mercado, e esse tipo de origem híbrida ainda demanda um olhar mais atento, que precisa evoluir para acompanhar essa nova dinâmica.

Alguns passos importantes estão sendo dados. O Projeto de Lei 2338/2023, que propõe um marco regulatório para a inteligência artificial, é um exemplo de avanço importante na construção de um ambiente mais moderno e seguro para tecnologias emergentes. Mas ainda falta uma agenda nacional dedicada às deep techs como estratégia de desenvolvimento.

A boa notícia é que essa construção já começou. Em parceria com governos locais, instituições de pesquisa e atores do ecossistema, temos cocriado soluções para acelerar esse processo. No Fórum Brasileiro de Deep Techs, nos reunimos para alinhar agendas, compartilhar evidências e articular políticas que realmente funcionem.

Se quisermos transformar o conhecimento que está nas nossas universidades em soluções que gerem impacto em áreas como saúde, energia, alimentos e meio ambiente, precisamos ser ousados. Precisamos criar políticas públicas desenhadas para a realidade das deep techs, com menos burocracia, mais segurança jurídica e, acima de tudo, com visão de longo prazo.

Afinal, a transição da regulamentação para a revolução exige compromisso, articulação e coragem. Acreditamos que essa é uma oportunidade histórica para transformar ciência em progresso, inovação em soberania e o Brasil em protagonista da nova economia do conhecimento.

Por: Ana Calçado, CEO e presidente da Wylinka, organização sem fins lucrativos que transforma o conhecimento científico em soluções e negócios que melhoram o dia a dia das pessoas e fomentam o desenvolvimento econômico, social e sustentável do Brasil. Pós graduada em Gestão de Negócios pela Fundação Dom Cabral, com estudos de pós graduação em Inovação pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT – professional education), mestre em Ciências de Alimentos pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e graduada em Bioquímica pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Ana também é doutoranda pela USP em Administração e pesquisadora em Inovação e Gestão Tecnológica.