O degelo das relações entre o Brasil e os Estados Unidos para a negociação das tarifas impostas pelos Estados Unidos se deu no final de outubro. O governo apresentou uma proposta no início de novembro, o chanceler Mauro Vieira encontrou a sua contraparte em 13 de novembro (quinta-feira), mas não foram anunciadas medidas sobre a negociação. Estados Unidos já fecharam acordos com Malásia, Camboja, Tailândia, Vietnã, Coreia do Sul, Japão, Suíça, União Europeia, El Salvador, Guatemala, Equador e Argentina. Os termos dos acordos variam, mas todos tratam de conceder maior acesso dos produtos e serviços dos Estados Unidos em seus mercados. Em alguns casos, como no Vietnã, o grau de abertura foi pleno. Compromissos em relação a não tributação de plataformas digitais, proteção à propriedade intelectual, terras raras, investimentos em solo dos Estados Unidos, segurança econômica entendida como não fazer acordos com terceiros países que ameacem os interesses dos Estados Unidos estão entre os termos dos acordos.
No dia 14 de novembro, o governo dos Estados Unidos anunciou a isenção das tarifas recíprocas de 10% sobre 238 produtos agrícolas. Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria, 80 produtos brasileiros são cobertos, no entanto, somente paratrês tipos de sucos de laranjas e castanha do Pará, as tarifas voltarão aos níveis anteriores ao do anúncio das tarifas recíprocas, pois estavam na lista de isenção do tarifaço de 40% anunciada em julho. Para os outros produtos cai os 10%, mas se mantém os 40%, como é o caso do café e da carne bovina, por exemplo, que estão entre os principais produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos.
Se o acordo entre Estados Unidos e União Europeia já tinha enfraquecido o argumento que as grandes economias com maior poder de barganha iriam resistir às imposições de Trump, para o Brasil, o aumento dos acordos assinados, em especial, com a Argentina, impõe que as negociações se acelerem. Primeiro, seria importante que o governo brasileiro conseguisse a trégua da suspensão do tarifaço de 40% durante as negociações, o que fez com outros países. É diferente sentar-se na mesa para negociar a partir de 40% do que os 10% adicionais da tarifa de reciprocidade. Segundo, a medida que os países vão aceitando temas da segurança econômica, abertura de mercados e outros compromissos, diminui a margem para o Brasil do escopo da agenda negociadora.
Na edição do Icomex de outubro mostram os o efeito do tarifaço sobre os principais produtos de exportação do Brasil. Muitos registraram queda nas exportações para os Estados Unidos, mas aumentaram suas exportações para terceiros mercados. Em artigo no Valor Econômico (11 de novembro 2025), Marta Watanabe mostra que as perdas brasileiras têm sido compensadas no agregado com ganhos para outros mercados. Isso não exclui, como comentamos, colocar o mercado dos Estados Unidos em segundo plano. O país é o maior importador mundial e há limites para o crescimento para outros mercados.
Nessa edição, apresentamos a comparação da variação em valor das exportações brasileiras para os Estados Unidos e para o resto do mundo. Mostramos, também, a comparação do volume, mas nesse caso não retiramos os Estados Unidos.
Dos setores apresentados, todos registraram queda no valor exportado para os Estados Unidos, entre o acumulado de agosto a outubro de 2024 em relação a igual período de 2025, exceto os setores de produtos químicos e farmacêuticos e os produtos de borracha e plástico. Entretanto, esses representaram 1,7% do total exportado para os Estados Unidos. Para o resto do mundo, as quedas foram para os setores de produtos florestais, têxteis, produtos de couro, celulose, derivados de petróleo e outros produtos de transporte.
Em termos de volume, os setores com variação positiva nos Estados Unidos foram: borracha (24,2%); químicos e fármacos (8,0%); couro (0,7%); e, produtos de petróleo (1,8%).
Os 15 setores ressaltados em vermelho correspondem aos que registraram queda em valor para os Estados Unidos, aumento para o resto do mundo, e que caíram em volume para os Estados Unidos, mas aumentaram para o mundo. Seriam setores que indicariam compensação em outros mercados.
Os dados continuam confirmando que o efeito do tarifaço no curto prazo não comprometeu as exportações totais do Brasil. Nesse período (agosto-outubro), as exportações totais do Brasil aumentaram em 6,4% e para os Estados Unidos recuaram em 24,9%.
Como ressaltamos antes, porém, isso não se traduz na hipótese que o mercado dos Estados Unidos não continue sendo relevante para o Brasil e o mundo. Em adição, à medida que os Estados Unidos estão avançando com novos acordos, as margens de preferências do Brasil tendem a cair em terceiros mercados.
A Balança Comercial de outubro.: Destaques: 1. Na era do tarifaço, as exportações para os Estados Unidos caem e as importações aumentam;
2. O saldo de petróleo ultrapassa o dos “demais produtos” no acumulado de janeiro a outubro e, mesmo incluindo os derivados, o saldo do setor de petróleo é próximo ao dos demais produtos;
3. Em um momento em que se discute a questão da transição energética, é preciso ter uma estratégia de longo prazo para assegurar uma pauta de exportação “sustentável”.
A balança comercial de outubro registrou um superávit de US$ 7,0 bilhões, um aumento de US$ 2,9 bilhões em relação a outubro de 2024. Em valor, as exportações aumentaram +9,1% e as importações recuaram em -0,8%. Na comparação do acumulado do ano até outubro, o saldo foi de US$ 52,4 bilhões, um recuo de US$ 10,4 bilhões em relação a igual período de 2024. As exportações cresceram em valor +1,9% e as importações +7,1%, na comparação dos acumulados do ano. No primeiro semestre, o ritmo de crescimento das exportações era inferior ao das importações, o que começou a mudar a partir de julho, com uma exceção em setembro.
Na comparação da variação dos índices de preços e volume, como mostra o Gráfico 1, em outubro, a variação das exportações em volume foi de +11,3% e das importações, um recuo de -2,5%. No acumulado, porém, o aumento das exportações foi de +4,3% e das importações de +8,0%. O recuo no preço exportado foi maior tanto em outubro quanto no acumulado em comparação com o das importações. Em outubro, as importações registraram aumento de preços em 1,9%.
A queda no saldo da balança comercial no acumulado do ano até outubro está relacionada à redução do superávit com a China de US$ 30,4 bilhões, em 2024, para US$ 24,9 bilhões, em 2025, diferença de US$ 5,5 bilhões. Aumento de US$ 5,4 bilhões do déficit com os Estados Unidos, passando de um déficit de US$ 1,4 bilhões para US$ 6,8 bilhões. Na Argentina, o déficit de US$ 4,7 bilhões passou para um superávit de US$ 5,1 bilhões, um ganho de US$ 9,8 bilhões que não compensa as perdas em dólares do saldo com os Estados Unidos e a China, no valor de US$ 10,9 bilhões. Para explicar o recuo no saldo total, outros países/blocos também registraram piora nos saldos comerciais, como o caso da União Europeia (Gráfico 2).
O comportamento das exportações e importações, em termos de volume, nos principais parceiros comerciais do Brasil está descrito no Gráfico 3. Em outubro, a China liderou as exportações (+32,8%) e, para os Estados Unidos, a queda foi de 35,9%. Na comparação do acumulado, a liderança era da Argentina (+43,0%), mas a partir do segundo semestre foi observada uma desaceleração nas exportações, que na comparação de outubro foi de 3,7%. Resultado inverso ao da China que acelerou as exportações no segundo semestre e, no acumulado, a variação foi de +8,1%. Para a União Europeia, as exportações aumentaram +2,9% e no acumulado do ano, em +0,7%. Para os Estados Unidos, na comparação do acumulado, a queda foi de -4,7%.
Nas importações, a liderança em outubro foi dos Estados Unidos (+7,5%), ao mesmo tempo em que caiu para a China (-0,4%), Argentina (-11,3%) e União Europeia (-0,9%). Na era do tarifaço, as exportações para os Estados Unidos caem e as importações aumentam.
No Gráfico 4 é descrita a evolução da variação mensal do volume exportado para a China, Estados Unidos e Argentina, onde se observa a queda contínua das exportações para os Estados Unidos, a partir de agosto. A partir de setembro, uma desaceleração mais acentuada das exportações para a Argentina e aceleração para a China. Até o final do ano, essas variações não devem mudar suas tendências, mas é possível que o crescimento da China desacelere.
Uma característica do ano de 2025 foi o melhor desempenho das não commodities, aumento de 8,1% na comparação dos acumulados do ano até outubro, em relação às commodities (+2,8%). Com a aceleração do aumento das exportações para a China a partir de meados do ano, crescem as vendas das commodities. Em outubro, as commodities aumentam em volume, 13,5% e as não commodities, 6,3%. Os preços das commodities registraram recuo nas duas bases de comparação: -2,7% (outubro) e -4,6% (acumulado no ano).
Os índices de volume por setor de atividade refletem, em parte, o desempenho das commodities agrícolas. Na comparação do acumulado do ano, as variações foram: agropecuária (+1,1%); extrativa (+6,5%); e, transformação (+5,2%). Em outubro, a agropecuária cresce 17,9%, extrativa, +21,1% e transformação, +6,1%. A indústria extrativa lidera as exportações brasileiras.
Os principais produtos exportados em outubro foram: petróleo, com aumento em valor de 9,0%; minério de ferro, +29,5%, soja, +42,7%, carne bovina, +40,9%, açúcares e melaços, -5,8% e café, +16%. Todos os produtos registraram aumento no volume exportado, menos café. Queda de preços foi registrada para o petróleo, soja e açucares, mas o aumento do volume compensou essa queda e o valor registrou variação positiva nos dois primeiros. Observa-se, portanto, que o aumento no valor exportado do café foi liderado pelo preço (+38,9%) e a queda do valor exportado do açúcar pelo recuo do preço em -16,5%.
Em outubro, as importações de bens de capital na indústria aumentaram em 5,4% e na agropecuária em 22,5%. No acumulado do ano, essas variações foram 21,9%, para a indústria e 7,4%, na agropecuária. Essas diferenças, no caso da agropecuária, é em parte sazonal e para a indústria pode estar refletindo que os investimentos se concentraram no primeiro semestre. Compras de bens intermediários recuaram na indústria e na agropecuária em outubro. Se esse é entendido como um indicador de nível de atividade, ambos estariam com expectativas mais desfavoráveis.
A importância do setor de petróleo na pauta de comércio exterior do Brasil é destacada. O Quadro 1 mostra o saldo comercial do petróleo bruto, dos derivados de petróleo, demais produtos e o total. O Brasil é superavitário em petróleo e deficitário em derivados. Nota-se que o saldo de petróleo ultrapassa o dos “demais produtos” no acumulado de janeiro a outubro de 2025 e, mesmo incluindo os derivados, o saldo do setor de petróleo é próximo ao dos demais produtos.
O Gráfico 8 mostra os índices de preços e volume das exportações de petróleo e derivados. Os volumes exportados aumentam, os importados caem, e os preços dos dois fluxos recuam, na base de comparação mensal e do acumulado.
Em um momento em que se discute a questão da transição energética, é preciso ter uma estratégia de longo prazo para assegurar uma pauta de exportação “sustentável”.