Enquanto o mundo volta os olhos para a “COP das Florestas”, em Belém, cresce a expectativa de que a conferência traga avanços concretos na preservação dos ecossistemas e na implementação de metas climáticas. Mas há um tema que ainda recebe menos atenção do que merece, e que pode representar o maior impacto no curto prazo: o metano.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (AIE), o metano é responsável por cerca de 30% do aumento das temperaturas globais desde a Revolução Industrial. A concentração desse gás na atmosfera é hoje duas vezes e meia maior do que na era pré-industrial.
Diferente do CO₂, que permanece séculos na atmosfera, o metano tem vida curta ,mas seu potencial de aquecimento é oitenta vezes maior. Isso significa que ações rápidas e coordenadas para reduzi-lo podem frear o aquecimento global em questão de anos, não de décadas.
Grande parte dessas emissões vem de fontes conhecidas e controláveis, como a decomposição de resíduos orgânicos em aterros e lixões. É justamente aí que entra a circularidade: substituir o descarte pela regeneração.
Quando tratamos resíduos orgânicos por meio de compostagem, e biodigestão, evitamos a liberação de metano e devolvemos nutrientes ao solo. É a essência de uma economia que não gera passivos, mas sim recursos.
Circularidade não é apenas reciclagem, é uma nova lógica econômica, que valoriza o uso eficiente de materiais, energia e tempo. Essa visão transforma a gestão de resíduos em uma frente de mitigação climática de baixo custo e alto impacto, capaz de gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos.
Ela cria empregos locais, fortalece cooperativas, reduz a poluição urbana e promove soberania energética a partir de fontes limpas. Para escalar essa transição, precisamos de instrumentos econômicos que deem segurança ao investimento sustentável.
Um exemplo promissor é o AMC (Advanced Market Commitment), mecanismo de incentivo já usado para acelerar inovações em saúde e tecnologia climática.
Ele funciona como uma garantia de mercado futuro: governos, empresas e instituições assumem o compromisso de compra antecipada de soluções sustentáveis, reduzindo o risco e estimulando a produção em escala.
Modelos desse tipo já impulsionaram iniciativas como o Frontier Climate (para remoção de carbono), a Symbiosis Coalition (restauração de ecossistemas) e a Leaf Coalition (proteção florestal). Aplicar a mesma lógica ao combate ao metano e à circularidade poderia criar um ciclo virtuoso de inovação e impacto, onde o setor privado e os governos atuam de forma complementar.
O desafio climático exige velocidade. Reduzir o metano e outros superpoluentes é a estratégia mais eficaz para ganhar tempo enquanto descarbonizamos a economia em larga escala. Podemos, hoje, adotar medidas com impacto quase imediato na temperatura global, algo essencial para evitar que os efeitos extremos se tornem irreversíveis.
A boa notícia é que já temos as tecnologias de rastreamento, os dados e os modelos financeiros necessários. O que falta é vontade política e coordenação internacional para transformar boas práticas em políticas públicas e compromissos globais.
Se a COP das Florestas pretende realmente marcar uma virada de página, é hora de colocar os superpoluentes e a circularidade no centro do debate. O planeta não precisa apenas de promessas para 2050, mas de ações concretas agora, ações que reduzam o aquecimento, regenerem os ecossistemas e criem prosperidade compartilhada.
• Por: Ian McKee, CEO da Carrot.eco.