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23/10/2025

As desigualdades persistentes na inserção de pessoas trans no mercado formal de trabalho, diz IPEA

Metodologia inédita permite mapear pela primeira vez a presença da população trans em vínculos assalariados formais no Brasil.

Uma nova nota técnica do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) lança luz sobre a presença – ainda restrita e desigual – das pessoas trans no mercado formal de trabalho brasileiro. O estudo, elaborado pelos técnicos de planejamento e pesquisa Filipe Matheus Silva Cavalcanti, Felipe Vella Pateo e Alberto Luis Araújo Silva Filho, da Diretoria de Estudos e Políticas Sociais (Disoc/Ipea), apresenta uma metodologia inédita de identificação da população trans em registros administrativos oficiais, como o Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) e a Relação Anual de Informações Sociais (Rais).

O trabalho do Ipea traz dados sobre renda, ocupação e acesso a vínculos públicos. Intitulado A inserção e as características das pessoas trans no assalariamento formal, o texto integra o Boletim Mercado de Trabalho n° 80.

Segundo os autores, a pesquisa é um avanço importante para a formulação de políticas públicas. —A ausência de dados oficiais sobre identidade de gênero é um obstáculo central para compreender as desigualdades enfrentadas pela população trans e elaborar estratégias efetivas de inclusão —afirmam.

Identificação pioneira da população trans em registros oficiais — A metodologia desenvolvida pelo Ipea permitiu identificar 38,7 mil pessoas trans com idade entre 14 e 64 anos a partir de informações do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) da Receita Federal. Desse total, 47,6% realizaram alteração de nome e gênero entre 2023 e 2025, e 45,8% possuíam nome social registrado. Embora o número não represente o total da população trans no país, o estudo destaca a relevância do exercício para quantificar uma parcela historicamente invisibilizada nas estatísticas públicas.

Os pesquisadores apontam que a maior parte das pessoas trans identificadas está concentrada na faixa etária de 18 e 30 anos (59,8%), refletindo, em parte, mudanças culturais e maior reconhecimento social das identidades de gênero entre as gerações mais jovens. Geograficamente, a região Sudeste concentra mais da metade dos registros (51,1%), seguida do Sul (15,9%), enquanto as regiões Norte e Nordeste apresentam menor representatividade.

Apenas um quarto das pessoas trans têm emprego formal —Ao cruzar as informações do CPF com a Rais 2023, o Ipea identificou que apenas 25% das pessoas trans estavam empregadas formalmente naquele ano — uma taxa 6,8 pontos percentuais inferior à da população geral. As desigualdades são ainda mais expressivas entre mulheres trans, cuja taxa de participação é de 20,7%, frente a 31,1% entre homens trans.

A pesquisa também aponta diferenças regionais significativas. As menores taxas de inserção ocorrem nas regiões Nordeste (17,8%) e Centro-Oeste (24%), enquanto o Sul e o Sudeste apresentam índices mais elevados, embora ainda inferiores aos da população total. —Mesmo nas regiões com maior dinamismo econômico, as barreiras à contratação e à permanência de pessoas trans permanecem expressivas— observam os autores.

Rendimentos 32% menores e concentração em setores de menor prestígio — Além das menores taxas de participação, as pessoas trans inseridas no assalariamento formal recebem, em média, R$ 2.707 por mês, valor 32% inferior à média nacional (R$ 3.987). Essa diferença persiste mesmo quando controlada por escolaridade: pessoas trans com ensino superior completo ganham, em média, 27,6% menos que profissionais não trans com o mesmo nível educacional.

A desigualdade também se reflete na distribuição setorial. Mais da metade das pessoas trans empregadas formalmente está concentrada em três segmentos de atividade econômica: comércio, atividades administrativas e serviços complementares, e alojamento e alimentação. A participação no setor público é particularmente baixa — apenas 5,5% têm vínculos estatutários, proporção duas vezes menor que a da população total.

—Esses dados reforçam que as pessoas trans estão inseridas, majoritariamente, em ocupações de baixa remuneração e reduzida proteção trabalhista —explicam os autores. Entre as ocupações mais comuns estão funções administrativas, de vendas e de serviços, enquanto a presença é mínima em cargos de direção, técnicos ou de maior qualificação.

Desigualdades múltiplas e desafios futuros — O estudo mostra que as desigualdades de renda e acesso se agravam quando combinadas a outros marcadores sociais. Pessoas trans negras, pardas e indígenas têm rendimentos ainda menores — uma pessoa trans preta, por exemplo, ganha em média 80% do salário de uma pessoa trans branca e 26% a menos que uma pessoa preta na população geral.

Para os autores, os resultados evidenciam a necessidade de políticas públicas específicas e de avanços no registro de informações sobre identidade de gênero em bases administrativas. —A formalização da identidade nos registros oficiais é um passo essencial para que o Estado possa enxergar, compreender e enfrentar as desigualdades que afetam essa população— destacam Cavalcanti, Pateo e Silva Filho.

Eles ressaltam, porém, que os dados ainda captam apenas uma parte da realidade: pessoas que conseguiram realizar a retificação de nome e gênero. Pesquisas da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) indicam que mais de 60% das pessoas trans no país ainda não realizaram esse processo, muitas vezes devido a custos e burocracias. —É provável que as condições de emprego e renda desse grupo sejam ainda mais precárias —alertam.

Perspectivas para novas pesquisas e políticas públicas —A nota técnica encerra apontando caminhos para ampliar o conhecimento sobre a inserção laboral da população trans. Entre eles, os autores sugerem o uso de novas bases de dados, como os registros de Microempreendedores Individuais (MEIs) e o trabalho doméstico, além de estudos que avaliem diretamente os efeitos da discriminação sobre as oportunidades de emprego e progressão de carreira.

—O desafio agora é transformar evidências em ação: os dados são um primeiro passo para a tomada de consciência e mobilização de atores públicos e privados para reverter essas desigualdades— concluem os pesquisadores.