embrapa-cultivares

15/09/2023

Cultivares de trigo tropical da Embrapa são apresentadas em Dia de Campo no DF

Os pesquisadores Julio Albrecht e Jorge Chagas apresentaram as características e as recomendações de manejo das cultivares de trigo tropical da Embrapa.

Responsável pelo desenvolvimento de variedades de trigo adaptadas ao Cerrado do Brasil Central e com elevado rendimento de grãos e qualidade industrial, a Embrapa participou do “Dia de Campo Trigo Irrigado 2023”, promovido no dia 12 de setembro pela Cooperativa Agropecuária da Região do Distrito Federal (Coopa-DF) em uma propriedade no Núcleo Rural Jardim, no PAD-DF, Distrito Federal. O evento contou com a participação de 170 produtores, consultores e extensionistas rurais.

Cultura em expansão na região, o trigo tem despertado o interesse de produtores devido aos benefícios proporcionados ao sistema de produção, como a quebra do ciclo de pragas e doenças e a melhoria da qualidade do solo, além de possíveis ganhos financeiros durante a entressafra do trigo do Sul do País.

—É uma cultura que abraçamos há algum tempo e com a qual já tempos alguma experiência. O Dia de Campo é uma oportunidade de compartilhar um pouco desse conhecimento. Temos empresas como a Embrapa, que é nossa parceira desde o início, com as cultivares BRS 264, BRS 254, BRS 404 e BRS 394, materiais que são diferenciais na triticultura aqui no Cerrado— afirmou o presidente da Coopa-DF, José Guilherme Brenner.

O chefe-adjunto de Transferência de Tecnologia da Embrapa Cerrados (DF), Fábio Faleiro, destacou que a pesquisa e a força do produtor rural transformaram não apenas a agricultura brasileira nas últimas décadas como o Brasil, e que o País hoje vivencia a tropicalização do trigo. —É um fato histórico. Em poucos anos, vamos atingir a autossuficiência não só na produção, mas também na qualidade. E o Cerrado tem um papel muito importante nisso, tanto com o trigo irrigado como com o trigo safrinha —comentou.

Trigos desenvolvidos no Cerrado para o Cerrado — O pesquisador Julio Albrecht, da Embrapa Cerrados, ressaltou a parceria histórica entre a Embrapa e a Coopa-DF e falou sobre as principais características das quatro cultivares de trigo tropical atualmente ofertadas para o Cerrado.

Cultivar de trigo irrigado mais plantada na região, a BRS 264 se destaca pela precocidade e pela alta produtividade, tendo alcançado o recorde mundial de produtividade média diária em 2021 — 80,92 kg/ha/dia com ciclo de 119 dias, totalizando 9630 kg/ha ou 160,5 sc/ha– na propriedade do produtor Paulo Bonato, em Cristalina (GO).

Apresenta qualidade industrial, com estabilidade de farinha de 24 minutos e força de glúten (W) superior a 250 x 10-4 J. Segundo o pesquisador, a variedade tem ótima aceitação pelos moinhos, o que possibilita uma boa liquidez na comercialização. —É um dos melhores materiais da região para a produção de farinha para panificação, com uma alta estabilidade e uma boa força de glúten. Em termos de qualidade industrial, é um trigo muito equilibrado—.

Outros fatores importantes de qualidade industrial apontados são o elevado rendimento de farinha (66,5% em média, com 14% de umidade) em comparação ao dos demais trigos da região (entre 58% e 60%); e o elevado peso hectolítrico (PH) (84), característica relacionada à densidade dos grãos e ao rendimento de farinha.

Albrecht acrescentou que a BRS 264 é plantada em sistema de sequeiro em algumas regiões, como o Sul de Minas Gerais, região mais fria e onde as chuvas se estendem um pouco mais ao longo do período chuvoso, o que favorece o cultivo. Porém, para o Brasil Central, não é recomendado o plantio em sequeiro devido ao risco de brusone, principal doença que acomete a cultura na região.

A produtividade média com a cultivar tem sido de cerca de 130 sc/ha no sistema irrigado, alcançando 70 sc/ha no sistema de sequeiro em regiões como o Sul mineiro. Além disso, é atualmente um dos materiais mais precoces do mundo (ciclo em torno de 107 dias), permitindo a economia de água e energia, bem como a colheita bem antes do início do período chuvoso no Cerrado.

O pesquisador destacou ainda o desempenho agronômico da cultivar apresentando dados de um estudo realizado em Luís Eduardo Magalhães (BA) que comparou diferentes materiais quanto à produtividade em função da dose de nitrogênio utilizado na adubação. A cultivar obteve a maior produtividade média (6077 kg/ha) entre as concorrentes. “A BRS 264 é uma cultivar excepcional em termos de produção e de qualidade, além de responder muito bem à tecnologia”, concluiu.

Já a cultivar BRS 394 é indicada para os sistemas irrigado e de sequeiro, também se destacando pela alta produtividade — médias de 120 sc/ha (irrigado) e 70 sc/ha (sequeiro) — e pela precocidade. Assim como a BRS 264, é um trigo classe pão, com estabilidade acima de 25 minutos, rendimento de farinha médio de 62,5% e força de glúten (W) média de 320 x 10-4 J, o que a torna, em determinadas situações, um trigo melhorador. —Isso para o moinho é uma grande vantagem, porque ele consegue usar a farinha da BRS 394 e da BRS 264 para melhorar a qualidade de farinhas de trigos de qualidade inferior, fazendo um blend— explicou Albrecht.

Indicada para o sistema irrigado, a BRS 254 é o material mais antigo dos quatro apresentados, mas que ainda se destaca pela elevada produtividade — média de 120 sc/ha, sendo que em 2017 o produtor Paulo Bonato obteve 139,8 sc/ha — e pelo fato de ser um trigo melhorador, característica de interesse industrial. É um material de ciclo médio e, por ser moderadamente suscetível ao acamamento, requer um manejo mais cuidadoso, sobretudo quanto à irrigação e à adubação nitrogenada – a dose total não dede ser superior a 120 kg de N/ha. —Mas também é um trigo que responde à tecnologia —ponderou o pesquisador.

A cultivar tem elevada força de glúten (W) (330 x 10-4 J). “Quanto maior a força de glúten, melhor para as padarias produzirem pães congelados”, observou o pesquisador. O rendimento de farinha médio é de 62,2% e o PH (82) é elevado.

Por fim, a BRS 404 é uma cultivar indicada para produção em sistema de sequeiro, mas também pode ser utilizada em sistema irrigado, principalmente em regiões mais quentes. A principal característica é a tolerância a calor e à seca, por isso a indicação para a safrinha.

A cultivar tem ciclo precoce e apresenta produtividades médias de 70 sc/ha em sistema de sequeiro em anos de chuvas bem distribuídas ao longo do ciclo da cultura e, no sistema irrigado, alcança 100 sc/ha. No ensaio de trigo safrinha realizado em 2021 pela Coopa-DF, a BRS 404 superou os demais materiais tanto em produtividade (59,47 sc/ha) como no PH (84), outra importante característica da cultivar. No ensaio deste ano, a cultivar novamente superou as demais (71,95 sc/ha), mantendo o PH elevado (84).

Segundo Albrecht, a BRS 404 é um material que, em anos mais quentes ou secos, consegue responder bem em termos de produtividade. E quanto ao PH, é atualmente um dos melhores materiais para a triticultura no Cerrado. “Normalmente, quando há alguma adversidade climática na fase de enchimento do grão ou na fase de maturação, os materiais tendem a reduzir o PH. Alguns chegam a ficar com PH abaixo de 78 (exigência mínima dos moinhos), o que proporciona um rendimento muito baixo de farinha. Nessa condição, os moinhos pagam um valor menor pela produção. Algumas vezes, nem compram o trigo”, comentou o pesquisador, recomendando cuidado na escolha da variedade em função do PH.

A BRS 404 tem excelente qualidade industrial para panificação, é classificada como trigo pão, apresenta estabilidade de farinha acima de 14 minutos e PH médio de 83, tendo também boa aceitação junto aos moinhos.

Manejo das cultivares no Cerrado — Jorge Chagas, pesquisador da Embrapa Trigo (RS), apresentou recomendações de manejo das cultivares da Embrapa. Ele abordou as medidas necessárias durante o planejamento da lavoura, a semeadura, o afilhamento e o alongamento das plantas, e comentou sobre o software gratuito Monitoramento de Irrigação no Cerrado.

Na fase de planejamento, o produtor deve ter conhecimento sobre rotação e sucessão de culturas para que tenha o pivô de irrigação liberado para a época adequada de semeadura do trigo. —O planejamento das safras anteriores para que o produtor consiga semear o trigo na época certa é importante, pois assim ele não ficará com o pivô parado nem plantará o trigo tardiamente —explicou.

Ele salientou a importância da aquisição de insumos como herbicidas e o regulador de crescimento com antecedência, bem como da escolha da cultivar, que deve considerar o rendimento, o ciclo (que influencia no custo com energia e água no sistema irrigado), o acamamento, a resistência a doenças, a qualidade de grãos e a aceitação pelo moinho, entre outros. —Cada cultivar vai gerar um manejo na propriedade, conforme suas características— lembrou o pesquisador.

Outro fator importante é a aquisição de sementes. —A partir da escolha da cultivar, o produtor deve verificar junto ao obtentor onde adquirir sementes, sempre de produtores idôneos —recomendou.

A semeadura do trigo pode ser feita a lanço ou, preferencialmente, em linha, pois a técnica posiciona as sementes na profundidade ideal, permite o uso eficiente de fertilizantes e garante um arranjo de plantas uniforme, o que favorecerá a eficiência do uso do redutor de crescimento. —O plantio a lanço é uma alternativa para quem deseja testar a cultura e ainda não quer investir numa semeadora —observou.

Para a região do Cerrado do Brasil Central, os pesquisadores têm indicado a época de semeadura do trigo irrigado entre os dias 5 e 20 de maio para melhor exploração do potencial produtivo e, principalmente, para escapar da ocorrência de brusone. Para a semeadura tardia, são indicadas a BRS 394 ou a BRS 254, por serem mais tolerantes à chuva na colheita.

Quanto à densidade de semeadura, Chagas salientou a importância de se observar o peso de mil sementes (PMS) da cultivar, que pode variar muito conforme o sistema em que a semente foi produzida (sequeiro ou irrigado); a quantidade necessária de sementes; a germinação do lote e a plantabilidade, ou seja, a quantidade de plantas que de fato nascem no campo. —É importante que o produtor veja o quanto ele planta e o quanto realmente germina no campo para que determine as populações de plantas ideais de cada material —explicou.

O pesquisador mostrou dados de ensaios realizados em Cristalina e Unaí (MG) com densidades de semeadura das cultivares da Embrapa, seguindo as recomendações de manejo para a região. Com 400 a 450 sementes viáveis/m2 da BRS 264, foram obtidas 68 a 77 plantas viáveis/metro de linha, com espaçamento de 17 cm; com 350 a 400 sementes viáveis/m2 da BRS 394, foram obtidas 60 a 68 plantas viáveis/metro de linha, com espaçamento de 17 cm. As cultivares BRS 254 (330 a 380 sementes viáveis/m2 e 56 a 65 plantas/metro de linha com espaçamento de 17 cm) e BRS 404 em sistema irrigado (300 a 350 sementes viáveis/m2 e 51 a 60 plantas/metro de linha com espaçamento de 17 cm), por serem mais perfilhadoras, apresentaram menores respostas à densidade de semeadura.

Ele apontou que quando a população de plantas está acima da indicada, há uma propensão ao acamamento. —Se você começar com uma densidade de semeadura alta, terá que reduzir a dose de nitrogênio ou, no final do ciclo, terá que reduzir a quantidade de água. Não dá para resolver isso confiando apenas no regulador de crescimento, querendo que ele faça milagre. Tanto o excesso de plantas como o excesso de nitrogênio diminuem a eficiência do regulador de crescimento em reduzir o acamamento —alertou.

Com relação à adubação de plantio, Chagas lembrou a importância de um solo equilibrado, com os nutrientes em níveis adequados e o alumínio neutralizado com calcário e gesso agrícola, condição que pode ser verificada na análise laboratorial de solo. Com os nutrientes em níveis adequados no solo, recomenda-se a adubação de manutenção com fósforo (80 a 100 kg/ha), potássio (40 a 60 kg/ha), dando preferência a adubos com boro e zinco na composição, além de cálcio e enxofre. Já o nitrogênio deve ser aplicado (20 a 40 kg/ha) na semeadura.

Na adubação em cobertura, o nitrogênio deve ser aplicado do plantio até 15 dias após a germinação. “Isso porque até 30 a 35 dias após a germinação, o potencial do trigo estará praticamente definido, a planta já terá a espigueta praticamente formada”, justificou o pesquisador. A aplicação tardia do nitrogênio, por outro lado, não é indicada, a não ser que a lavoura apresente problemas com perda de área foliar ou deficiência de nitrogênio.

—Se for aplicado mais nitrogênio que o indicado, a lavoura estará sujeita ao acamamento. Se a densidade for alta ou houver excesso de nutrientes, você terá que reduzir a quantidade de nitrogênio —disse, apresentando as doses médias recomendadas de nitrogênio para adubação em cobertura de cada cultivar da Embrapa.

Ao final da apresentação, ele apresentou o software Monitoramento de Irrigação no Cerrado, disponível gratuitamente na página da Embrapa Cerrados na internet. O programa disponibiliza informações para a irrigação de culturas anuais (trigo, cevada, feijão, arroz e milho) e café.

No caso do trigo, a opção “Embrapa 42” corresponde às cultivares BRS 394 e BRS 264, enquanto “Embrapa 22” corresponde à BRS 254 e à BRS 404, em função do ciclo. Também é possível selecionar o tipo de solo e informar a data de emergência das plantas. A partir dessas informações, o programa fornece o número de dias dos turnos de rega e a lâmina líquida a ser aplicada.

—Todas essas recomendações são de manejo básico para que cada produtor as aplique conforme a sua realidade. Elas são um norte a ser seguido para obtermos produtividades satisfatórias e começarmos a pensar em aumentar o nível de rendimento do trigo aqui na região —concluiu Chagas.