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10/08/2023

Análise do perfil molecular do câncer de pulmão promove uma revolução no tratamento

Que ainda é acessível a poucos.

Além de classificar os subtipos de câncer de pulmão, atualmente também é possível definir os diferentes perfis moleculares e, com isso, saber se o paciente poderá se beneficiar de determinado medicamento especialmente desenhado para as características da doença. Porém, alerta o Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), a chamada Oncologia de Precisão ainda é pouco acessível na Saúde Suplementar e no Sistema Único de Saúde (SUS)

Com o avanço da ciência proporcionado pela revolução genômica, não é suficiente hoje saber que um determinado paciente tem um tumor maligno diagnosticado no pulmão. É fundamental definir a classificação molecular da doença, ou seja, se este tumor é, por exemplo, um adenocarcinoma pulmonar com mutação no gene EGFR. Esta informação, é essencial para se oferecer ao paciente um acompanhamento individualizado e tratamento personalizado. É a chamada Oncologia de Precisão, que tem no câncer de pulmão o exemplo mais efetivo de evidências consolidadas, que alteraram a história natural da doença.

O Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT), em alusão ao “Agosto Branco” — mês de conscientização sobre câncer de pulmão — alerta para a necessidade de ampliação do acesso dos pacientes à Oncologia de Precisão, em especial aos medicamentos especialmente desenhados para agir em mecanismo moleculares específicos. Na prática, o diagnóstico molecular consiste em se identificar mutações genéticas específicas presentes nas células cancerígenas, permitindo um tratamento personalizado e mais eficaz para os pacientes.

O GBOT, que lança a campanha “Perfil Molecular em Câncer de Pulmão”, reforça que Instituições de saúde, governos e organizações da sociedade civil devem unir esforços para promover a capacitação de profissionais de saúde, aprimoramento da infraestrutura e conscientização da sociedade, garantindo que cada vez mais pacientes possam se beneficiar do diagnóstico molecular no tratamento do câncer de pulmão. Essa informação, aliada ao perfil clínico do paciente, grau de agressividade e extensão da doença, permitem a acurácia diagnóstica e o mais adequado planejamento terapêutico.

Um exemplo de terapia-alvo da Era da Oncologia de Precisão é o alectinibe, medicamento incluído somente em 2021 no Rol de procedimentos obrigatórios da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e que agora está em fase de consulta pública para recomendação na Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec). É um tratamento de primeira linha para pacientes adultos com câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC) avançado e com mutação no gene ALK. Este medicamento inibe uma enzima produzida pela fusão dos genes ALK e EML4, que favorece a multiplicação das células tumorais no pulmão. Ao inibir essa enzima, o alectinibe dificulta o desenvolvimento e a sobrevivência das células cancerígenas, que deixam de progredir ou passam a regredir. Antes do Brasil, mais de 80 países já haviam aprovado esta droga. Outro exemplo é o osimertinibe, uma molécula desenvolvida para atacar o câncer de pulmão de não pequenas células que apresenta, especificamente, uma mutação no gene EGFR, que recentemente mostrou benefício para pacientes que foram operados.

—Com o diagnóstico molecular, podemos selecionar as terapias direcionadas e inovadoras, aumentando as chances de sucesso e melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Essas terapias personalizadas aumentaram a sobrevida dos pacientes com câncer de pulmão na última década— ressalta a oncologista clínica Clarissa Baldotto, presidente do Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica (GBOT) e diretora do Núcleo de Integração Oncológica da Oncologia D’Or. Em linhas gerais, o painel de genes investigados em Oncologia de Precisão para câncer de pulmão inclui, atualmente, EGFR, KRAS, BRAF V600E, ALK, ROS1, RET, MET, HER2, NTRK1, NTRK2 e NTRK3

Apesar deste conhecimento e dos benefícios em ganho de sobrevida e melhora de outros desfechos para os pacientes, o acesso a essa tecnologia ainda enfrenta desafios no Brasil, tanto na esfera pública quanto na privada. Questões relacionadas à infraestrutura laboratorial, disponibilidade de recursos, financiamento e capacitação profissional são alguns dos obstáculos que precisam ser superados para democratizar o acesso, em todo o país, a abordagem. —Há evidências de que menos da metade dos pacientes brasileiros com câncer de pulmão recebem o diagnóstico molecular adequado. E a utilização do medicamento adequado depende dos testes— lamenta o oncologista clínico Vladmir Cordeiro de Lima, vice-presidente do GBOT e titular do A.C.Camargo Cancer Center.

O que a ciência sabe hoje sobre câncer de pulmão — São duas as categorias principais de câncer de pulmão. A mais comum é a de não pequenas células (NSCLC), que responde por cerca de 85% dos casos de câncer de pulmão. Há vários subtipos de câncer de pulmão de não pequenas células que levam em consideração o tipo de célula epitelial onde a doença começa, incluindo o adenocarcinoma, carcinoma de células escamosas e carcinoma de grandes células. A segunda, que responde pelos outros cerca de 15% dos cânceres de pulmão, são do tipo de células pequenas (SCLC), doença que geralmente cresce e se espalha rapidamente para outras partes do corpo, incluindo os gânglios linfáticos.

O estágio do câncer no momento do diagnóstico é um dos determinantes para a eficácia das opções de tratamento. De acordo com o levantamento SEERs, do National Cancer Institute, dos Estados Unidos, quando o câncer de pulmão está restrito ao órgão (estadio 1) as chances de cura (o paciente estar vivo cinco anos após o tratamento, supera os 60%). Em casos de metástase (estádio 4), as chances de cura são inferiores a 10%.

Câncer de pulmão em número: comum e o mais letal no mundo — No Brasil, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA) o câncer de pulmão é o terceiro mais frequente entre homens e o quarto mais comum entre as mulheres, com estimativas de 32.560 novos casos em 2023, sendo 18.020 entre homens e 14.540 em mulheres. De acordo com o Atlas de Mortalidade por Câncer – SIM, em 2020 foram registradas 28.620 mortes por câncer de pulmão no Brasil. No mundo, são 1,8 milhão de mortes anuais (o mais letal de todos, respondendo por 18,4% de todas as mortes por câncer), segundo o levantamento Globocan, da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde (IARC/OMS).

Fatores de risco – Os principais fatores de risco para o câncer de pulmão são: História ou uso atual de tabaco; Exposição ao fumo passivo; Exposição a amianto, arsênico, cromo ou outros produtos químicos; Viver em uma área com poluição do ar; História familiar de câncer de pulmão; Infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV).

Sintomas — Os sintomas do câncer de pulmão variam de pessoa para pessoa. Muitas vezes, os sintomas são facilmente confundidos com doenças respiratórias comuns, como bronquite ou pneumonia, atrasando um diagnóstico preciso. Os sintomas mais comuns do câncer de pulmão incluem: Tosse que não desaparece e piora com o tempo; Dor no peito constante e muitas vezes agravada pela respiração profunda, tosse ou riso; Dor no braço ou ombro; Tosse com sangue ou catarro cor de ferrugem; Falta de ar; Chiado; Rouquidão; Infecções como pneumonia ou bronquite que não desaparecem ou voltam com frequência; Inchaço do pescoço e rosto; Perda de apetite e/ou perda de peso; Sentir-se fraco ou cansado; Alargamento das pontas dos dedos e leito ungueal também conhecido como “baqueteamento digital”.

Se o câncer de pulmão se espalhar para outras partes do corpo, pode causar: Dor no osso; Fraqueza no Braço ou dormência na perna; Dor de cabeça, tontura ou convulsão; Problemas de equilíbrio ou uma marcha instável; Icterícia (coloração amarela) da pele e dos olhos; Gânglios linfáticos inchados no pescoço ou ombro.

GBOT — O Grupo Brasileiro de Oncologia Torácica foi idealizado por médicos oncologistas, clínicos e cirurgiões, com reconhecida expertise nessa área de atuação. Sua missão é produzir conhecimento científico na área da pesquisa clínica oncológica. Ao mesmo tempo, estimular os processos de educação na área do câncer e a geração de informações epidemiológicas que auxiliem na compreensão da realidade brasileira nesta área, possibilitando o desenvolvimento de estratégias que resultem numa melhoria dos resultados para a sociedade como um todo. | www.gbot.med.br