O bug do milênio mobilizou empresas durante anos porque havia uma data e, na virada de 1999 para 2000, os profissionais de tecnologia sabiam exatamente quando o problema poderia aparecer. Com a computação quântica, trabalhamos com estimativas, que estão cada vez mais perto, e isso muda a forma como as empresas precisam se preparar.
O NIST (National Institute of Standards and Technology) já mantém padrões de criptografia pós-quântica prontos para implementação, enquanto o NCSC (National Cyber Security Centre), no Reino Unido, trabalha com uma jornada de migração que começa pelo inventário e planejamento até 2028. Ainda não sabemos quando a capacidade quântica colocará parte da criptografia atual em risco, mas esses movimentos deixam uma coisa clara: a preparação já começou.
A computação quântica vai obrigar as empresas a rever algoritmos e padrões de proteção, mas antes de qualquer troca a empresa precisa saber o que existe dentro de casa. Esse inventário passa por entender onde a criptografia está presente e como ela sustenta a operação, uma dificuldade antiga para muitas organizações e que ganha outro peso diante de uma mudança capaz de alcançar estruturas construídas ao longo de décadas.
Parte do que a empresa precisa conhecer sobre esse ambiente está nas pessoas que acompanham a operação no dia a dia e conhecem suas dependências. Levar esse conhecimento para o inventário ajuda a empresa a entender a própria exposição e a definir por onde a transição deve começar.
Não dá para esperar a ameaça chegar — É um erro tratar computação quântica como um problema restrito a bancos, big techs ou grandes corporações. Toda empresa administra informações e utiliza sistemas apoiados, em algum nível, em proteção criptográfica, e o porte pode mudar a complexidade da preparação, mas não elimina a necessidade de olhar para o tema.
No bug do milênio, o mercado conhecia o prazo. Agora, ninguém consegue afirmar quando uma capacidade quântica suficientemente acessível e poderosa estará disponível. E se essa capacidade surgir antes do previsto, o que acontece com as empresas que ainda estiverem tentando entender o próprio ambiente?
A adequação precisa acompanhar a velocidade desse avanço. Ambientes construídos ao longo de anos levam tempo para ser reorganizados e, quando esse trabalho começa tarde, o tempo de resposta passa a fazer parte do próprio risco, exatamente como acontece com empresas que descobrem suas dependências mais críticas somente quando precisam agir.
Quando o conhecimento necessário para conduzir a transição fica concentrado em poucas pessoas, a capacidade de resposta da empresa também fica mais exposta. Gerir esse risco passa a incluir a continuidade desse conhecimento e a capacidade da organização de agir mesmo quando ele não está disponível em um único profissional.
A computação quântica tem um potencial enorme e pode abrir possibilidades que ainda estamos começando a entender, mas um tema dessa dimensão não deveria ficar esperando até se tornar um problema concreto para as empresas. Quando essa capacidade chegar ao mercado, o trabalho de adequação continuará sendo grande e quem tiver deixado a preparação para esse momento terá de fazer sob pressão uma mudança que já poderia estar em curso.
• Por: Bruno Kaique, fundador e CTO da Beephish.