leticia-ribeiro

05/11/2026

Economia circular começa também na gestão dos efluentes

A economia circular propõe uma mudança importante na forma como empresas utilizam recursos naturais, gerenciam resíduos e planejam suas operações. Em vez de seguir um modelo que prioriza a extração, o consumo e o descarte, a proposta é reduzir desperdícios, ampliar o aproveitamento de recursos e minimizar os impactos ambientais. Nesse contexto, a gestão dos efluentes, embora nem sempre receba a devida atenção, precisa fazer parte da estratégia de sustentabilidade dos negócios.

Efluentes sanitários são gerados em praticamente todas as atividades que envolvem pessoas, seja em unidades industriais, eventos, canteiros de obras, operações de mineração ou grandes empreendimentos. Quando não recebem tratamento os efluentes podem provocar a contaminação do solo e dos recursos hídricos, comprometer o equilíbrio dos ecossistemas e favorecer a disseminação de agentes patogênicos, representando riscos à saúde pública e ao meio ambiente. Por isso, a responsabilidade das empresas não termina na geração desses resíduos. Ela envolve garantir que todo o processo, da coleta, tratamento e a destinação final, seja conduzido de maneira segura e em conformidade com as exigências ambientais.

O desafio é incorporar essa responsabilidade ao planejamento desde o início de cada projeto. Com frequência, a infraestrutura sanitária é tratada como uma necessidade secundária, considerada apenas quando as demais etapas da operação já estão definidas. Essa lógica pode gerar adaptações emergenciais, custos adicionais, dificuldades logísticas e riscos ambientais que poderiam ser evitados com planejamento prévio.

Integrar a gestão sanitária ao projeto permite dimensionar adequadamente as estruturas, avaliar as características de cada localidade, prever a logística de coleta e destinação e escolher soluções compatíveis com a realidade da operação. Em atividades temporárias ou realizadas em áreas remotas, por exemplo, esse planejamento ganha ainda mais relevância, pois o acesso à infraestrutura convencional de saneamento nem sempre é possível.

A eficiência operacional depende do uso responsável dos recursos. Tecnologias de tratamento e monitoramento ajudam a reduzir desperdícios e impactos ambientais. Quando viável e permitido pelas normas, o reuso da água tratada amplia o aproveitamento desse recurso.

Essa visão exige atenção a toda a cadeia operacional, com identificação de desperdícios e adoção de práticas sustentáveis. Para isso, são essenciais parceiros especializados, procedimentos claros e acompanhamento do tratamento e da destinação dos efluentes, prevenindo riscos ambientais e garantindo mais segurança às operações.

A economia circular não se concretiza apenas em grandes projetos de inovação ou em tecnologias de última geração. Ela também depende de decisões cotidianas, de processos bem estruturados e da responsabilidade com aquilo que uma atividade produz e descarta.

Ao incorporar o saneamento ao planejamento ambiental e operacional, as empresas deixam de enxergar os efluentes apenas como um problema a resolver e passam a tratá-los como parte de uma gestão mais inteligente dos recursos. É nesse movimento, que combina prevenção, eficiência e responsabilidade ambiental, que a economia circular começa a sair do discurso e a se tornar prática.

• Por: Letícia Ribeiro, gerente de Meio Ambiente na Liderban, Engenheira Ambiental e Sanitarista, mestre e doutoranda em Engenharia Ambiental pela UFRJ.