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05/11/2026

Selic em patamar elevado deve encarecer crédito e exigir mais cautela de empresas e investidores, diz consultor financeiro

Gabriel Eisner, consultor financeiro e sócio da Mhydas Planejamento Financeiro.

—O mercado financeiro trabalha constantemente com expectativas e projeções sobre o futuro. Nesse sentido, o Boletim Focus, divulgado excepcionalmente na terça-feira em razão do feriado de Finados, trouxe uma sinalização importante sobre o cenário econômico. A projeção para o IPCA ao final do ano subiu para 5,22%, acima do teto da meta de inflação, estabelecido em 4,5%. Considerando que o objetivo central é de 3%, o resultado demonstra uma pressão inflacionária superior à esperada.

Esse cenário influencia diretamente as decisões do Banco Central em relação à política monetária. Havia uma expectativa de redução da taxa Selic para 13,5%, mas a manutenção das projeções de inflação em patamares elevados levou à preservação dos juros, enquanto a autoridade monetária acompanha os próximos movimentos do governo e da economia.

O resultado eleitoral também provocou uma revisão das expectativas do mercado. Antes do segundo turno, parte dos agentes econômicos trabalhava com a possibilidade de uma mudança no cenário político. A reação positiva observada após o primeiro turno refletia essa expectativa. Com a reeleição do atual governo, entretanto, o mercado precisou recalibrar suas projeções e reavaliar os possíveis impactos sobre a economia.

As estimativas para o Produto Interno Bruto (PIB) também apontam para uma desaceleração do crescimento. A projeção para 2026 passou a 1,76%, enquanto a expectativa para 2027 foi revisada de 1,41% para 1,40%. Essas perspectivas refletem, entre outros fatores, a leitura do mercado sobre a orientação econômica do governo, que prioriza políticas de distribuição de renda e maior participação do Estado na economia. Esse modelo pode gerar preocupações relacionadas ao ambiente de negócios, à atração de investimentos e à entrada de capital estrangeiro.

Atualmente, aproximadamente 60% do capital investido na bolsa brasileira é de origem estrangeira. Uma eventual saída desses recursos pode pressionar o câmbio, enfraquecer o real e elevar os custos de produção e importação. Esse movimento tende a encarecer produtos e serviços, alimentando a inflação. Diante desse cenário, a manutenção da Selic representa uma estratégia do Banco Central para conter as pressões inflacionárias e evitar um aquecimento excessivo da economia.

Para o consumidor, a tendência é de continuidade dos reajustes de preços, embora sem necessariamente ocorrerem aumentos abruptos. Um dos pontos de atenção está no custo dos combustíveis, especialmente do diesel, que exerce influência direta sobre a logística e o transporte de mercadorias no país. Caso haja aumento expressivo desse insumo, os efeitos podem se espalhar por toda a cadeia produtiva, elevando os custos de transporte, produção e distribuição.

Esse encarecimento também pode comprometer a competitividade dos produtos brasileiros no mercado internacional. Ao mesmo tempo, a maior circulação de produtos no mercado interno pode pressionar determinados setores da economia. Embora esses fatores possam contribuir para uma desaceleração da atividade econômica e, consequentemente, da inflação, o consumidor ainda deve sentir os efeitos dos reajustes progressivos nos preços ao longo dos próximos meses.

Outro fator relevante é a situação fiscal do país. O governo deve enfrentar dificuldades orçamentárias para cumprir parte dos compromissos assumidos durante a campanha eleitoral. Esse cenário, somado às incertezas jurídicas e fiscais, pode ampliar a insegurança dos investidores e contribuir para uma eventual saída de capital estrangeiro. Com menos recursos externos, a moeda brasileira tende a ficar mais vulnerável, o que também impacta os preços internos.

Diante desse contexto, a perspectiva é de um crescimento econômico moderado, sem grandes acelerações no curto prazo. Para investidores e empresários, o momento exige cautela, planejamento e proteção patrimonial. A recomendação é evitar movimentos excessivamente arriscados, preservar liquidez e aproveitar as taxas de juros elevadas para manter parte dos recursos em aplicações de renda fixa com disponibilidade. Para as empresas, também é importante avaliar com cuidado novos investimentos e manter reservas financeiras para enfrentar eventuais períodos de instabilidade.

O acesso ao crédito deve continuar sendo outro desafio. Os bancos já sinalizam taxas superiores a 14% para novos financiamentos, em um cenário de inadimplência crescente e maior seletividade na concessão de recursos. Com o crédito mais caro e restrito, empresas e consumidores tendem a enfrentar dificuldades adicionais para financiar suas atividades e projetos.

Para as empresas, manter recursos disponíveis será especialmente importante para atravessar esse período sem depender excessivamente de financiamentos com juros elevados, que podem comprometer as margens de lucro. Parte desse aumento de custos, inclusive, tende a ser repassada ao consumidor final, contribuindo para o encarecimento de produtos e serviços.

Portanto, o cenário exige atenção à preservação do capital, à liquidez e à gestão dos riscos. Em um ambiente de crescimento moderado, juros elevados e incertezas econômicas, tanto empresas quanto investidores precisam priorizar decisões financeiras mais conservadoras e evitar uma exposição excessiva ao endividamento— conclui o comentário Gabriel Eisner, sócio e consultor financeiro da Mhydas Planejamento Financeiro.