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04/11/2026

O Brasil tem energia, mas falta rede para transformar potencial em desenvolvimento

O Brasil ocupa uma posição singular na transição energética global. Cerca de 90% de sua matriz elétrica é composta por fontes renováveis, enquanto a média mundial permanece em torno de 30%.

Há vento, sol, biomassa, potencial para hidrogênio verde, minerais estratégicos e, sobretudo, energia renovável em abundância. Mas somente será uma vantagem econômica se essa energia chegar aonde ela precisa ser consumida.

Durante muitos anos, o debate esteve concentrado na capacidade de geração. Hoje, o desafio mudou. Não basta produzir energia limpa. É necessário transportá-la, armazená-la, administrá-la e entregá-la, com segurança, qualidade e preços competitivos, aos locais onde estão e onde poderão estar os grandes centros de consumo.

Não há transição sem transmissão —O Brasil construiu um dos maiores sistemas elétricos interligados do mundo. Mas o sistema precisa agora responder a uma transformação para a qual não foi originalmente concebido.

A economia mundial vive uma nova era de eletrificação. Indústrias tradicionais precisam reduzir as emissões de carbono acumuladas ao longo de décadas e, para isso, substituir progressivamente processos baseados em combustíveis fósseis por eletricidade de baixo carbono.

Ao mesmo tempo, surgem novos grandes consumidores de energia. Data centers, inteligência artificial, mobilidade elétrica, hidrogênio verde, siderurgia de baixo carbono, automação de edifícios, além de novas cadeias industriais que demandarão volumes crescentes de eletricidade. Todas essas atividades procuram algo que o Brasil já possui: energia abundante e predominantemente renovável.

A construção da infraestrutura necessária para conectar esses elementos pode desencadear um ciclo virtuoso. Mais redes permitem a instalação de novos consumidores. Novos consumidores aumentam a demanda. Maior demanda viabiliza novos investimentos em geração, transmissão, armazenamento e tecnologia. Esses investimentos, por sua vez, aumentam a competitividade do país e atraem novas atividades econômicas.

A energia pode deixar de ser apenas infraestrutura para se transformar em política industrial. Mas essa oportunidade não permanecerá aberta indefinidamente.

Projetos industriais que vieram ao Brasil justamente em busca de energia renovável e abundante já enfrentam dificuldades para obter as conexões e os volumes necessários. Alguns reduzem sua escala, outros adiam decisões e outros simplesmente passam a considerar mercados com redes mais robustas, inteligentes e previsíveis.

Por isso, a infraestrutura elétrica precisa deixar de ser tratada como consequência do crescimento econômico e passar a ser considerada uma das condições para produzi-lo.

Três frentes precisam avançar simultaneamente — A primeira é a expansão, modernização e resiliência das redes. Não se trata apenas de construir mais linhas de transmissão. É preciso transformar o sistema para uma realidade marcada pela expansão das fontes renováveis, maior descentralização da geração, necessidade de armazenamento, digitalização e eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes.

Os cortes recorrentes e crescentes de geração renovável, a insuficiência de transmissão e armazenamento e a ausência de mecanismos econômicos adequados de ressarcimento já afetam a confiança de investidores e financiadores.

A segunda frente envolve regulação, remuneração dos investimentos e tarifas. Os investimentos necessários para modernizar e expandir o sistema elétrico brasileiro serão massivos. No modelo atual, entretanto, os recursos que remuneram grande parte dessa expansão acabam refletidos nas tarifas e, consequentemente, chegam à população e à economia. Esse modelo precisa ser discutido.

O Brasil precisa encontrar mecanismos que permitam proteger o consumidor sem transformar o impacto tarifário em uma trava para os próprios investimentos que podem ampliar a competitividade e o crescimento econômico.

Infraestrutura de transmissão não pode ser analisada apenas como custo. Uma linha de transmissão pode destravar geração que hoje não consegue chegar ao mercado, viabilizar a instalação de uma indústria, permitir um novo data center, criar empregos e ampliar arrecadação e atividade econômica. O retorno desses investimentos precisa ser analisado também sob essa perspectiva.

A terceira frente diz respeito à qualidade e à responsabilidade de longo prazo. Na busca legítima por menores prazos e redução de Capex, uma infraestrutura crítica como a rede elétrica não pode adotar exclusivamente preço e prazo como critérios de decisão.

Equipamentos, sistemas e soluções instalados hoje permanecerão em operação durante 20 ou 30 anos. Isso exige fornecedores capazes de acompanhar esses ativos durante todo o seu ciclo de vida. Confiabilidade, segurança, histórico operacional comprovado, conhecimento dos procedimentos e especificações da rede brasileira, suporte local e capacidade de responder ao longo de décadas precisam fazer parte dos critérios de avaliação.

Em uma infraestrutura estratégica, CAPEX é importante. Custo total, confiabilidade e segurança ao longo de décadas são ainda mais.

Fortalecer a rede elétrica brasileira significa, portanto, muito mais do que fortalecer o setor elétrico. Significa ampliar a competitividade, a segurança e a autonomia estratégica do país.

A boa notícia é que a tecnologia necessária já existe. Existem soluções para transmissão de grandes blocos de energia, digitalização, automação, armazenamento, modernização de subestações e aumento da eficiência e resiliência das redes. O principal desafio não é tecnológico. É criar as condições para implementar essas soluções na velocidade e na escala necessárias.

A transição energética, portanto, não deve ser compreendida apenas como uma agenda ambiental. Ela é também uma agenda de desenvolvimento. Cada linha de transmissão construída, cada transformador instalado, cada subestação modernizada e cada nova conexão realizada representam capacidade adicional para receber investimentos, desenvolver cadeias produtivas, gerar empregos e incorporar tecnologia.

O desafio é transformar essa vantagem energética em desenvolvimento, competitividade, industrialização e geração de valor para o país. Para isso, é preciso garantir que a energia que já somos capazes de produzir chegue aonde o futuro será construído.

As decisões tomadas agora sobre a infraestrutura elétrica determinarão a competitividade brasileira pelas próximas décadas e poderão definir o posicionamento do país por gerações. Por isso, é importante reconhecer uma verdade simples: sem transmissão, não há transição.

• Por: Glauco Freitas, head de South Latam, responsável pela operação na Argentina, Chile, Paraguai e Uruguai, e Presidente da Hitachi Energy no Brasil. Soma mais de 30 anos de experiência em funções de Vendas e Marketing no setor de energia, incluindo experiência no Brasil e nos EUA. Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Itajubá (Unifei), com duas pós-graduações e com MBA em Gestão de Marketing pela Universidade de São Paulo (USP), Glauco Freitas está à frente da Hitachi Energy no Brasil na busca por contribuir com a transição energética do país e inspirar a próxima era da energia sustentável.