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29/10/2026

Nenhum algoritmo corrige uma cultura tóxica

Nunca houve tanta tecnologia disponível para a gestão de pessoas. Inteligência Artificial, People Analytics, automação e plataformas de experiência do colaborador prometem tornar o RH mais estratégico e eficiente. Ainda assim, muitas organizações continuam enfrentando os mesmos problemas de liderança, cultura e desempenho. Talvez porque o maior desafio do RH nunca tenha sido tecnológico. Sempre foi humano.

Enquanto empresas investem milhões em novas soluções, continuam adiando decisões que realmente transformam uma organização: substituir líderes tóxicos, rever modelos de gestão ultrapassados, enfrentar culturas permissivas e colocar as pessoas certas nas posições certas. É mais fácil adquirir um software do que mudar comportamentos. A Inteligência Artificial organiza informações, identifica padrões e acelera análises. Mas não conduz conversas difíceis, não enfrenta conflitos, não desafia decisões que contradizem os valores da empresa e não assume a responsabilidade de uma liderança. Tecnologia é um meio. Estratégia continua sendo uma escolha humana.

Por isso, muitas empresas modernizam seus sistemas sem transformar sua cultura. Automatizam processos, mas mantêm lideranças despreparadas. Protegem executivos que entregam resultados financeiros às custas do desgaste das equipes. Confundem ausência de conflito com alinhamento. Nenhum algoritmo resolve esse tipo de problema. É justamente nesse cenário que o RH exerce seu papel mais estratégico: ter coragem para dizer “não”. Não a promoções incoerentes. Não à tolerância com comportamentos incompatíveis com a cultura desejada. Não à busca por resultados imediatos que comprometem a sustentabilidade do negócio.

Mais do que implantar novas tecnologias, cabe ao RH provocar discussões que muitas vezes ninguém quer fazer. Estamos reconhecendo os comportamentos certos? Nossas lideranças fortalecem ou enfraquecem a cultura? Os resultados são sustentáveis ou apenas escondem problemas que aparecerão mais adiante? Responder a essas perguntas exige muito mais do que capacidade técnica. Exige influência, credibilidade e coragem para desafiar o status quo. Existe uma diferença importante entre digitalizar e transformar. Digitalizar é fazer o mesmo de forma mais rápida. Transformar é mudar a maneira como a organização pensa, decide e lidera. Empresas realmente transformadoras usam a tecnologia para potencializar as pessoas. As demais apenas aceleram práticas antigas.

Inovação não começa necessariamente com a compra da próxima ferramenta. Muitas vezes, começa quando a empresa decide abandonar crenças que já não produzem resultados. Desenvolver lideranças, fortalecer a segurança psicológica e rever estruturas de gestão costuma ser mais difícil e muito mais relevante do que implantar qualquer plataforma. O futuro do RH dependerá menos das tecnologias que domina e mais da capacidade de influenciar decisões que mudam o negócio. Coragem para levar dados que desafiam percepções da alta liderança. Coragem para defender uma cultura coerente com a estratégia. Coragem para lembrar que eficiência operacional sem qualidade de liderança produz apenas resultados temporários.

A tecnologia continuará evoluindo. Novas ferramentas surgirão em ritmo acelerado. Mas nenhuma delas substituirá aquilo que diferencia empresas verdadeiramente sustentáveis: líderes capazes de tomar decisões difíceis, fortalecer a cultura e colocar as pessoas no centro da estratégia. No fim, o RH não será lembrado pelas plataformas que implantou, mas pelas decisões que teve coragem de defender quando elas realmente fizeram diferença.

• Por: Isabella Torres, gerente de Recursos Humanos do Grupo Friopeças, diretora do Prêmio Ser Humano da ABRH-MG e membro do Comitê de Middle Management da ABRH-MG.