Após 28 anos em outra frente, produtora rural investiu em genética, recria intensiva e terminação de fêmeas, com foco no mercado premium Angus no Sul do Brasil.
No mês da Mulher Rural, a trajetória de Simone Romancini exemplifica a força de quem vem ganhando espaço na pecuária. À frente das Fazendas Nossa Senhora Aparecida I e II, em Novas Laranjeiras, no Paraná, ela assumiu a atividade rural em 2020, depois de 28 anos trabalhando em uma empresa familiar de equipamentos para o setor. Na busca por qualidade e evolução comercial, transformou a gestão das propriedades e encontrou na raça Angus o caminho para desenvolver um negócio voltado ao mercado de carne premium.
Até então, a pecuária era conduzida pelo pai de Simone de maneira tradicional, com menor atenção a aspectos como genética e nutrição. Ao assumir a gestão, ela percebeu que havia oportunidades de aprimoramento. —Eu não estava dizendo que estava dando errado. Eu estava dizendo que a gente podia mais—, recorda sobre as primeiras conversas com o pai, inicialmente cauteloso diante das mudanças propostas. A partir de estudos e de conversas com outras produtoras, Simone se interessou pela raça Angus.
O desafio não se resumia à mudança na forma de produzir. No início, Simone enfrentou resistência por ser mulher em um ambiente predominantemente masculino. Uma das situações mais marcantes ocorreu quando foi a uma propriedade comprar animais. Ao solicitar que o gado fosse reunido para avaliação, ouviu de um gerente a pergunta sobre quem faria a seleção dos animais. Ao responder que seria ela própria, foi questionada sobre a ausência de um homem para acompanhá-la.
—Eu estava tremendo por dentro, mas, por fora, demonstrava total segurança— conta. Com estudo, experiência prática e persistência, ela aprimorou a seleção dos animais e conquistou espaço no mercado.
A experiência de 28 anos na indústria de troncos e balanças para a pecuária também contribuiu. Simone identificou na Angus características alinhadas ao seu objetivo de produzir carne diferenciada, como o potencial de marmoreio e o ganho de peso. “Eu queria participar de um mercado premium, que tem um cliente diferente, para poder agregar um preço diferenciado — porque o meu produto seria diferenciado —explica.
Inovação na pecuária —Para estruturar o sistema produtivo, Simone optou por adquirir terneiras já na desmama de fornecedores especializados em genética e conduzir as etapas de recria intensiva e terminação nas propriedades. A escolha pela compra de animais de terceiros permite que ela concentre seus esforços nas fases em que decidiu especializar a operação, mantendo parcerias com produtores que investem continuamente no aprimoramento genético dos rebanhos.
Outro diferencial do modelo é o trabalho exclusivo com fêmeas. A escolha, segundo Simone, é uma decisão de gestão: ao não misturar machos e fêmeas, ela evita o risco de prenhez indesejada entre as novilhas mantidas nas propriedades. A produtora também explica que prefere trabalhar com fêmeas por considerar que elas apresentam um ciclo de produção mais rápido, característica que se adapta à dinâmica de compras e entregas que estruturou para as fazendas.
A consolidação dessa logística exigiu cerca de dois anos de ajustes até que Simone conseguisse manter uma rotina regular de compras e entregas. Atualmente, trabalha para disponibilizar novilhas terminadas a cada 40 a 45 dias, com a produção destinada à Cooperativa Padrão Beef, em Lindoeste, também no Paraná. Hoje, as duas propriedades integram o programa Carne Angus Certificada.
Inicialmente cético, o pai passou a apoiar o projeto à medida que acompanhava a chegada dos novos lotes. A experiência também mudou a relação da produtora com o trabalho. Depois de anos em uma rotina intensa na empresa familiar, Simone encontra na atividade rural uma realização pessoal e a oportunidade de construir um legado para as mulheres do campo e para os quatro filhos. Dois deles cursam Medicina Veterinária, representando a nova geração da pecuária.