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24/10/2026

One-size-fits-all? A importância de propor estratégias de mobilidade adequadas ao porte do município

No contexto da transição energética e do planejamento de cidades mais sustentáveis, o transporte público assume papel central. Dentre as diferentes opções, os ônibus se destacam por serem comuns a cidades de diferentes tamanhos e adaptáveis a variados contextos urbanos, dada sua flexibilidade e capilaridade em relação aos modos ferroviário e aquaviário.

Diante disso, em um estudo desenvolvido pelo meu grupo de pesquisa, avaliamos a eficiência do transporte público por ônibus em municípios brasileiros com mais de 300 mil habitantes. Para tanto, tomamos como base os indicadores da Pesquisa Nacional de Mobilidade Urbana (Pemob), disponibilizados anualmente pelo Ministério das Cidades. Consideramos todos os municípios brasileiros participantes da pesquisa que forneceram dados entre 2022 e 2024.

Os resultados enfatizam a importância de adotar políticas públicas apropriadas ao porte e à escala dos municípios, fugindo da ideia de “one-size-fits-all”, na qual estratégias de benchmark são propostas sem a devida contextualização local. Foram observadas diferenças importantes entre os municípios analisados: enquanto muitos gestores estão preocupados com a “boa” utilização dos recursos disponíveis, observou-se que limitações relacionadas à escala de operação (como o dimensionamento adequado da frota e a disponibilidade de infraestrutura) também são determinantes.

Parece óbvio. Muitos reconhecem que as estratégias aplicadas em países europeus não podem ser replicadas, sem a devida contextualização, na realidade brasileira. Porém, é comum esquecer que o próprio contexto nacional é extremamente diverso. Mesmo quando analisamos apenas as capitais, os desafios variam significativamente em termos de necessidade de deslocamento da população e de aspectos locais (tamanho populacional, geografia, perfil das viagens etc.). Isso exige estratégias diferenciadas: Manaus, Macapá, Salvador e São Paulo enfrentam cenários completamente distintos de mobilidade.

O estudo também sugere que algumas práticas reconhecidas no planejamento do transporte podem estar sendo adotadas de forma reativa ou sem alinhamento com a escala e a capacidade institucional do município. Por isso, acabam apresentando uma associação negativa com a eficiência. O achado reforça o diagnóstico de que, mais do que replicar boas práticas, o planejamento do transporte público deve considerar as particularidades locais e a capacidade de cada cidade de transformar estratégias em resultados concretos.

Nem todas as estratégias adotadas em contextos metropolitanos são diretamente aplicáveis às cidades de médio porte, assim como nem todas as cidades de médio porte enfrentam desafios parecidos. É fundamental que o gestor compreenda as peculiaridades do seu município e consiga propor planos de mobilidade que realmente respondam ao contexto local e às necessidades reais de deslocamento de pessoas e cargas.

• Por: Vanessa Guimarães, doutora em Engenharia de Transportes (Coppe/UFRJ), mestre em Administração (UFF) e em Engenharia de Transportes (Coppe/UFRJ), especialista em Administração Pública (UFF) e bacharel em Administração (UFF). É professora adjunta do Instituto Coppead de Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro, atuando na área de Operações, Tecnologia e Logística.