Toda empresa vai ter inteligência artificial, e a maioria vai ter a mesma, já que o concorrente compra a mesma licença, no mesmo dia e pelo mesmo preço, e roda o mesmo modelo que responde às perguntas de qualquer time. O que deixa de ser igual é aquilo que a máquina recebe antes de responder, a estratégia, os clientes, o que já foi decidido e o que nunca se faz, e é nesse ponto que a conversa sobre IA deixa de ser assunto de tecnologia e passa a ser assunto de liderança. Com os agentes, executar ficou barato; caro, agora, é saber o que pedir e dar à máquina o contexto que ela não tem, e a maior parte desse contexto está justamente com quem decide.
Um exemplo ajuda a visualizar o problema. Uma diretora comercial pede à inteligência artificial um resumo dos principais riscos da carteira de clientes no trimestre, e a resposta chega bem escrita, organizada, cheia de boas práticas de mercado e vazia de qualquer coisa que diga respeito à empresa dela. Ela lê, acha razoável e segue em frente, sem perceber que aquele texto poderia ter sido entregue a qualquer concorrente do setor, e o erro só aparece meses depois, quando uma decisão tomada em cima dele sai torta. A ferramenta não falhou, fez o melhor que podia com o que recebeu, e quem acha a IA rasa ou genérica quase sempre está descrevendo o próprio contexto, não a máquina.
É aqui que mora a diferença entre pedir e orquestrar contexto. Prompt é o que se pede agora; contexto é tudo o que a máquina analisa para entregar o resultado, e quem domina só o primeiro vira operador, escreve bem toda manhã e recomeça do zero no dia seguinte, enquanto quem domina o segundo vira arquiteto, organiza uma vez e o time inteiro colhe junto. O contexto que mais pesa, o que a empresa quer, para quem, onde não entra e por quê, raramente está num sistema; está na cabeça de quem decide, e é por isso que orquestrá-lo não pode ser delegado à área de tecnologia nem ao analista mais curioso do time.
Quando a liderança não entrega esse contexto, cada pessoa preenche a lacuna com o próprio, e a empresa passa a viver um paradoxo, em que todo mundo usa a IA, cada um do seu jeito, e o ganho existe mas não pertence a ninguém, não está escrito, não é medido e vai embora quando a pessoa sai. A inteligência artificial não corrige isso, porque não preenche lacuna, potencializa o que encontra; funciona como um amplificador, que leva o som mais longe sem afinar o instrumento, e uma empresa sem clareza recebe de volta a própria falta de clareza, agora em velocidade recorde.
O mercado já registra onde a virada trava, e não é na tecnologia. Relatório da Deloitte publicado em agosto, com 501 executivos nos Estados Unidos, todos de empresas que já testam ou operam agentes de IA, mostra que 72% apontam a falta de dados unificados e acessíveis como obstáculo para colocar esses agentes para trabalhar. São empresas que já têm a máquina e ainda não sabem onde está o que sabem, e esse é um problema que nenhum fornecedor resolve, porque depende de alguém com autoridade para decidir o que entra, quem responde por cada informação e quem pode ver o quê.
Orquestrar contexto, na prática, começa por tirar o que a empresa sabe da cabeça de quem sabe. A estratégia, o plano de ação, o posicionamento, as regras do negócio e as decisões tomadas, com data e motivo, precisam estar escritos num lugar único que pessoas e agentes consultam antes de trabalhar, uma espécie de cérebro da empresa, e não espalhados em planilhas, e-mails e no computador de quem estava na reunião. Organizados assim, esses documentos ganham uma guardiã, porque a máquina passa a conferir cada pedido contra o plano e a questionar quando alguém sai dele, e o conhecimento deixa de ir embora às seis da tarde junto com quem o carregava.
O segundo movimento é distribuir esse contexto por igual. Seria injusto, e caro, que só o diretor soubesse o que ficou decidido na última reunião com o cliente enquanto o analista pede à máquina uma proposta sem saber que aquilo existe, e o papel de quem lidera passa a ser garantir que todos partam da mesma fonte. Para isso, o líder precisa aprender primeiro, com as próprias mãos, porque quem delega o aprendizado de IA delega junto a capacidade de julgar o que o time entrega, e ninguém orquestra um contexto que não entende.
Nesse arranjo, o trabalho de quem lidera muda de natureza. Sai a cobrança de tarefa, que os agentes já executam, e entra a orquestração do contexto, decidir o que a máquina precisa saber, garantir que todos tenham acesso ao mesmo e julgar o que volta antes de assinar, numa ordem que não se inverte, em que a máquina é a primeira a ser consultada e o humano é o último a decidir. A licença, qualquer concorrente compra; o contexto, só a liderança pode dar, e é ele que vai separar as empresas que têm IA das que sabem o que fazer com ela.
• Por: Bruno Pinheiro, fundador e diretor executivo da Groovia, consultoria franco-brasileira de implementação de inteligência artificial em grandes empresas, e autor de Empresas Hiper-Humanas (Editora Gente).